Milos Morpha

por Cesar Castanha

23 de março de 2011, 15h07

Batman e a psicologia do morcego

“As figuras imaginárias têm mais relevo e verdade que as reais” Fernado Pessoa

Bruce Wayne era o filho e herdeiro do maior magnata de Gotham City (sátira de chicago). Tinha apenas 10 anos quando seus pais foram assassinados em um assalto. Essa história você conhece, já foi contada e recontada por uma infinidade de quadrinistas e cineastas: Bob Kane, Frank Miller, Tim Burton, Christopher Nolan. Cada um acrescenta aquilo que acha relevante para seu tempo e para o mito que se pretende criar. Bob Kane criou o Batman distante da realidade, iverossímil, desumanizado, era quase um novo Super-homem. Um milionário que fabrica os equipamentos responsáveis por torná-lo o justiceiro da cidade. Quem seria capaz de se identificar com tal figura? A morte de seus pais era apenas um motivo, uma desculpa do roteirista pra justificar a tranformação de Bruce Wayne.
Frank Miller trouxe outro ponto de vista, ele tinha uma visão mais completa, queria retratar a ascensão e queda do morcego. Em “Ano Um” ele nos traz uma formação psicológica do herói. Bruce Wayne não poderia ter medos se quisesse enfrentar os bandidos de Gotham. Por isso escolhe o morcego como representante, era seu maior medo e precisava ser superado. Miller escreveu também “Cavaleiro das Trevas” que assim como “A Queda do Morcego” mostra um Batman fragilizado pela idade.
Tim Burton e Christopher Nolan foram ambos importantíssimos para o mundo cinematográfico dos quadrinhos. O primeiro foi quem abriu as portas para as possibilidades de adaptação do gênero. Criou dois filmes de qualidades, realçando não o psicológico (como faria Nolan 15 anos depois) e sim a bizarrice e extravagância de seus personagens. Assim foi o coringa de Nicholson, o pinguim de De Vitto e a mulher-gato de Pfeiffer. Criaturas estranhas de um mundo estranho, tornando Gotham similar ao país das maravilhas de Alice. E Burton se esbalda nessas figuras com as quais ele sabe lidar tão bem, criando assim o Batman da caricatura, tão semelhante àquele da série de tv dos anos 60.
Depois de alguns anos de esquecimento, renasce o mito. Christopher Nolan adapta o “Ano Um”, de Miller, com estilo. Nasce “Batman Begins” e com ele uma das melhores sagas dos quadrinhos no cinema, pois foi com o 2º filme (Batman: Cavaleiro das Trevas) que Nolan reinventou o gênero. The Dark Knight mostrou ao mundo que filmes de super-heróis não são mais feitos para crianças. A simbologia presente no filme é arlamante, há uma procura por entender as mentes insanas. Afinal, o que queria o coringa? “Há certas pessoas que só querem ver o circo pegar fogo” assim tenta explicar o mordomo Alfred. Mas o coringa se mostra algo mais, ele tem uma ideologia a ser provada, ardualmente tenta mostrar o quão tênue é a linha entre o bem ou o mal. De acordo com o vilão, tudo depende das circunstâncias e ele vai fazer de tudo para provar o seu argumento. O primeiro passo do plano é corromper o incorruptível: Harvey Dent. O político é o cavaleiro branco de Gotham City, é aquilo que a cidade tem de melhor. Dent chega ao ponto de assumir a identidade de Batman diante da polícia para que assim o verdadeiro morcego possa trabalhar em paz. É o alvo perfeito do maníaco coringa. Para realizar o plano, o vilão mata Rachel, noiva de Harvey, através do acaso. Nada mais justo para Dent que a vida de todos os outros sejam também definidas por algo igualmente trivial.
O coringa no entanto, não para por aí. Milhões de dólares são queimados, a cidade é isolada, a política do caos é imposta. Seu objetivo maior é mostrar até que ponto a humanidade se segura. Porém, a segunda parte do seu jogo sádico falha. Gotham City demonstra nobreza e capacidade de superar a crise.
Mas a tranformação de Harvey Dent ainda representa uma vitória do vilão. Como manter a esperança na bondade se seu símbolo humano maior foi maculado e corrompido?
Então entra Batman, para salvar o dia mais uma vez ele deve assumir a culpa, e assim o faz. Tal ato de heroísmo é questionado pelo filho do Comissário Gordon, que o explica:
“Ele é o herói que Gotham merece, mas não o que precisa agora. Então vamos caçá-lo porque ele aguenta. Pois ele não é nosso herói. Ele é um guardião silencioso, protetor atento. Um cavaleiro das trevas.”

PS:. As duas últimas postagens são de minha autoria e foram previamente publicadas no meu outro blog: Os Sapos que divido com Carolina Braga, Cecília Galindo e Marília de Orange


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