quarta-feira, 30 set 2020
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Curtindo a vida adoidado

Não houve diretor em Hollywood tão capaz de retratar a realidade adolescente quanto John Hughes. O mestre foi responsável por filmes como “Curtindo a vida adoidado”, “Clube dos cinco” e “Gatinhas e Gatões”. As comédias de Hughes trazem jovens reprimidos, ignorados e rebeldes (como consequências da cegueira familiar). As duas facetas da mesma juventude são exploradas em “Curtindo a vida…”: Ferris, o rebelde, se aproveita do mimo recebido dos pais para faltar a escola alegando estar doente, eles não conhecem o filho o bastante para julgar seu comportamento, ao contrário da sua irmã e do diretor do colégio (ambos desconfiam desde o princípio). Cameron é a juventude oposta, cresceu sobre o manto do medo e repressão paterna, enquanto Ferris olhava para os pais com um sentimento de superioridade, Cameron sempre se punha como inferior, não só ao pai como também à escola e aos amigos. É sempre convencido a concordar com Ferris, seus únicos questionamentos acontencem quando a vontade do melhor amigo atinge as proibições do pai, nessas situações Cameron entra em colapso, sem saber de que lado ficar. Há um momento no filme no qual ele se liberta ao mesmo tempo de Ferris e do pai, obedecendo a um sentimento de revolta completamente pessoal.
O diretor de Ferris e sua irmã são personagens semelhantes, ambos têm raiva do garoto por conseguir fazer todos de bobo. O diretor se sente desafiado, pois o aluno estar sempre um passo a frente é um sinal de questionamento do seu “absoluto” poder na escola. A irmã sente inveja, nunca conseguiu se posicionar frente aos pais da mesma forma de Ferris. Como consequência ambos tendem a caçá-lo e retirar suas conquistas.

Cesar Castanha
Cesar Castanha
Do encanto com os créditos de abertura de "Alice no País das Maravilhas", visto religiosamente sempre que exibido nas tardes de sábado pelo SBT, veio a paixão pelo cinema como experiência estética, transformadora e expressão de uma ideia, uma história ou do próprio experimento. Por amar o cinema para além dos padrões de qualidade impostos a ele pela mídia, por outras instituições e até por uma crítica datada, veio o meu amor por conversar sobre cinema, aderi-lo, defendê-lo, apropriar-me dele. O Milos Morpha é uma conversa sobre cinema. Aqui, o texto nunca é certo e definitivo. O cinema não é uma fórmula para que cada cineasta se aproxime da solução mais correta, é um conjunto de experiências artísticas que já dura mais de 100 anos, é dessa forma que criticamente percebemos e experimentamos o cinema no Milos Morpha.