sábado, 19 set 2020
Publicidade

Fantasia e o cinema parnasiano

Recentemente tive o prazer de acrescentar à minha coleção de dvds as animações Fantasia e Fantasia 2000. Os filmes são uma compilação de curtas metragens que prezam a animação acompanhada por música clássica, fazendo uma interessante relação de som e imagem.

O objetivo de Walt Disney em 1940 era refazer Fantasia a cada década, mantendo um ou dois curtas favoritos da edição anterior e principalmente criando novos. Seria uma maravilhosa forma de acompanharmos o progresso na música e nas animações. Infelizmente o primeiro filme foi um fracasso de crítica e bilheteria. Logo depois a Disney mergulhou numa séria crise. Como consequência, estava impossibilitada de lançar novos longas metragens (só foi voltar a fazê-lo em 1950 com Cinderela), lançando apenas curtas que eram feitos com um orçamento menor. O projeto Fantasia foi então deixado de lado, porém, com o passar do tempo o filme foi reconhecido e aclamado como um clássico, sendo, portanto, relançado diversas vezes nos cinemas. A ideia de Walt Disney só foi se realizar 60 anos depois, em 2000, quando foi lançada a 2ª edição de fantasia.

Há momentos em ambas edições em que a beleza dos curtas de animação e o acompanhamento musical parecem não ter objetivo além da beleza em si. É o famoso arte-pela-arte defendido pelos parnasianos. Podemos chamar então de parnasianismo cinematográfico? Sim. E Fantasia não é o único exemplo deste fenômeno.

É comum professoras de história da arte exibirem filmes como “Blow-Up: Depois Daquele Beijo” ou “2001: uma odisséia no espaço”, estes são dois perfeitos exemplos do parnasianismo cinematográfico. O primeiro não tem uma história bem definida, os elementos se confundem, no final os acontecimentos do filme não são o que permanecem na cabeça daquele que o assiste. A fotografia do filme, no entanto, deixa uma marca forte, tornando as cenas extremamente memoráveis (e soníferas).

O cinema parnasiano perdeu sua força com as gerações seguintes, nós exigimos filmes com uma história para acompanharmos e deliciarmos. Mas o gênero não desapareceu por completo, Sangue Negro (filme de 2007 indicado ao oscar) é um bom exemplo recente, porém mesmo este teve de se adaptar aos novos tempos, acrescentando no roteiro memoráveis diálogos.

Cesar Castanha
Cesar Castanha
Do encanto com os créditos de abertura de "Alice no País das Maravilhas", visto religiosamente sempre que exibido nas tardes de sábado pelo SBT, veio a paixão pelo cinema como experiência estética, transformadora e expressão de uma ideia, uma história ou do próprio experimento. Por amar o cinema para além dos padrões de qualidade impostos a ele pela mídia, por outras instituições e até por uma crítica datada, veio o meu amor por conversar sobre cinema, aderi-lo, defendê-lo, apropriar-me dele. O Milos Morpha é uma conversa sobre cinema. Aqui, o texto nunca é certo e definitivo. O cinema não é uma fórmula para que cada cineasta se aproxime da solução mais correta, é um conjunto de experiências artísticas que já dura mais de 100 anos, é dessa forma que criticamente percebemos e experimentamos o cinema no Milos Morpha.