sábado, 19 set 2020
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+favoritos: “Evangelion”

Neon Genesis Evangelion (ou 新世紀エヴァンゲリオン – Shin Seiki Evangerion) é uma série de animação japonesa de 1995. Definitivamente, um dos animês mais aclamados, discutidos, amados, odiados (e mal compreendidos) da história, que completa 15 anos de seu lançamento em 2010 e já faturou mais de 16 bilhoes de dólares desde então.
Criado por Hideaki Anno, “Eva” é considerado um divisor de águas na produção de animês no Japão, tendo um dos mais complexos e envolventes enredos já realizados em um projeto de animação: Anno apresenta desde teorias avançadas de psicologia analítica, filosofia e religião em um cenário futurista onde mechas defendem a Terra da ameaça de monstros invasores gigantes chamados “Anjos”: Em 2015, 15 anos depois de uma enorme catástrofe conhecida como “o segundo impacto” (onde um anjo atinge as calotas polares causando um aumento no nivel do mar) ter dizimado metade da população da Terra, outra crise se aproxima: os invasores não identificados conhecidos como “Anjos” começam um ataque a humanidade. A artilharia humana é inútil diante do poder destrutivo do “Campo AT” (campo anti-terror, uma espécie de campo de força que tanto defende o Anjo de ataques externos, tornando-o virtualmente indestrutivel, quanto serve como energia para seus ataques). A única saída da humanidade foi a criação de enormes robôs humanóides (mechas) que, desenvolvidos a partir de partes do Anjo que atingiu a terra no primeiro impacto e alta tecnologia em mecatrônica, também são capazes de gerar um Campo AT – os chamados “ultimate all-purpose humanoid weapon Evangelion”. Mas as unicas pessoas capazes de pilotá-los são adolescentes de 14 anos – um destes pilotos é Shinji Ikari, filho único do comandante chefe encarregado de administrar o projeto Evangelion, funcionário da Nerv. As outras crianças responsaveis por pilotar os evas no começo da série são Asuka, uma alemã altamente competitiva que parece levar a risca a idéia da psicologia adleriana da busca pela perfeição, mas que pode tornar-se uma busca por superioridade como compensação para sentimentos de inferioridade; e Rei, uma tácita e reclusa garota que aparentemente ignora todas as possibilidades de relação com outros seres humanos exceto pelo pai de shinji – e para o desespero e a curiosidade de Shinji, isto parece ser recíproco.
A principio o que pode parecer um enredo simples e batido (mechas, monstros ameaçadores gigantes, crianças como ultimo bastião de esperança na salvação da humanidade) vai tomando corpo e ganhando densidade a medida que somos apresentados as vicissitudes das relações entre os personagens, já que, em ultima estância, Evangelion apresenta-nos uma epifania psicológica acerca das relações humanas. Na trama, os personagens estão continuamente tendo que lutar contra suas sombras (lado da personalidade menos aceito, mais perverso) e enfrentar traumas do passado.
Shinji é responsável pelo desenvolvimento do plot principal da série, que se desenvolve ao longo de 26 episódios, mostrando desde o momento decisivo em que o garoto resolve pilotar o seu eva, até o epílogo – muito discutido (e discutível) e controverso. O criador da série descreve Shinji como um garoto solitário, e convencido de que ele é inútil e dispensável, mas tão covarde que não comete suicídio. Quando seu pai requisita sua presença depois de anos de separação, Shinji acredita que esta pode ser a oportunidade para obter o reconhecimento que sempre almejou – daddy issues anyone? – mas rapidamente ele é confrontado com a dura realidade dos interesses de seu pai.
Em relação aos aspectos tecnicos da série, a qualidade da animação deixa a desejar: economizou-se muito com cenas estáticas e reflexivas para valorizar as cenas de ação das batalhas, mas sem penalizar o trabalho final – e criando uma identidade inteiramente nova de narrativa neste tipo de produto.
Ano descreve a série como uma história que se repete. Uma história onde o personagem principal testemunha horrores, mas ainda assim, levanta-se novamente. É sobre força de vontade, sobre evoluir, mesmo que em pequenos passos. É uma história de medo, onde alguém tem que encarar o medo da solidão infinita que o impulsiona a buscar o outro, sem desistir no meio do caminho. Evangelion representa com delicadeza o dilema do ouriço de Schoppenhauer, onde precisamos estabelecer a “distancia ideal” entre nós para evitar que nossos espinhos machuquem os outros, evitar sem machucado pelos espinhos alheios mas, ainda assim, nos relacionarmos uns com os outros (alegoria explorada já no 4o. episódio da série).
Ao longo dos ultimos 15 anos, a franquia se reinventou várias vezes, tendo ganho suas ultimas adições com a trilogia de longas “Rebuild of Evangelion”, sempre tentando expandir/explicar melhor os assuntos abordados nos episódios finais, por vezes mal interpretados ou mesmo incompreendidos devido a sua complexidade e multiplicidade de interpretações metafísicas.
Considero este o meu animê favorito – não só por ter sido o primeiro que assisti inteiro, de cabo a rabo (em um dia, numa das interminaveis maratonas de fim de semana do finado Locomotion) mas também pela maneira que a narrativa se conduz, possibilitando uma leitura divertida (“oba, robos gigantes lutando pra defender a terra controlados por crianças da minha idade!”) mas também tendo diversas camadas bem mais profundas, se utilizando desde o simbolismo cristão, budista e da cabala até referências extremamente complexas e existencialistas, que continuam a me fascinar e entreter até hoje. Vale conferir a série completa, na versão original.

* este post usa como referencia a serie animada para tv exibida em 1995/96. para maiores informações, clique aqui.

Cesar Castanha
Cesar Castanha
Do encanto com os créditos de abertura de "Alice no País das Maravilhas", visto religiosamente sempre que exibido nas tardes de sábado pelo SBT, veio a paixão pelo cinema como experiência estética, transformadora e expressão de uma ideia, uma história ou do próprio experimento. Por amar o cinema para além dos padrões de qualidade impostos a ele pela mídia, por outras instituições e até por uma crítica datada, veio o meu amor por conversar sobre cinema, aderi-lo, defendê-lo, apropriar-me dele. O Milos Morpha é uma conversa sobre cinema. Aqui, o texto nunca é certo e definitivo. O cinema não é uma fórmula para que cada cineasta se aproxime da solução mais correta, é um conjunto de experiências artísticas que já dura mais de 100 anos, é dessa forma que criticamente percebemos e experimentamos o cinema no Milos Morpha.