sábado, 19 set 2020
Publicidade

HQ, universo desconhecido.

Nesses dias de férias, enquanto estudava uma ou outra ficha de aprofundamento (3º ano não é fácil), me deparei com um texto, desses pelo qual os caras que fazem as provas inspiram suas questões. O título do texto era “Os Quadrinhos” , escrito pelo ilustre e consagrado Dr. da USP: João Domingues Maia. Não me surpreendi quando percebi uma estupenda ignorância expressada no tal texto.
Já há um tempo, tenho chamado a atenção de vocês, queridos leitores, para a importância desse universo ainda não explorado que é os quadrinhos. Muitos podem pensar em “Persépolis” (autobiografia de uma iraniana) ou em “Valsa com Bashir” (relatos sobre a guerra do Líbano), e, baseado em ambos, justificarem pra mim: “Mas essa formação adulta dos quadrinhos é coisa recente, ano 2007, 2008. Pouca gente conhece ainda”. Eu respondo: “Não é!”
Obras como “Persépolis” e “Valsa com Bashir” são conhecidas por terem se consagrado através de suas adaptações para o cinema, recebendo ambos indicações ao Oscar. Mas, antes dessas, bem antes dessas, houve outras, de outros autores, cada um com seu estilo, cada um em sua genialidade, subestimados, desconhecidos, vítimas de preconceito dos pseudo-intelectuais, bons demais para lerem quadrinhos, não, eles preferem ler obras de “literatura”.
Permita-me, então, apresentar tais autores.
Alan Moore:
Com a maioria de suas obras escritas nos anos 80, Moore sofreu influência do pessimismo da Guerra Fria. A maior parte de suas obras, mesmo se passando no século XIX, XX, XXI ou XXII., trazem o tema do anti-comunismo, das ditaduras, da opressão. Ele é britânico, e todos os seus livros importantes, exceto Watchmen, se passam no império inglês.
Obras importantes:
Watchmen (leia a crítica completa do blog)
Do Inferno: Toda a saga de “Jack, o estripador” da forma mais detalhista possível. A Graphic Novel demonstra a extensa pesquisa por parte de Alan Moore, equivalente à Euclides da Cunha e seu Os Sertões. No fim da obra, nos deparamos com os comentários do própio Moore, nos quais ele explica e informa de cada cena o que é real e o que é fictício, revelando suas fontes para aquilo defendido como real. Descobrimos então: mesmo os diálogos mais fúteis da trama, tem um fundamento de realidade.
V de Vingança: Anarquista até dizer chega, é a obra mais explicitamente política de Alan Moore. Retrata a Inglaterra do futuro, sob um regime de extremo conservadorismo.

Will Eisner:
Foi o primeiro a provar, nos anos 30, que a junção de imagem e texto poderia ser tão adulta quantos esses elementos isolados em uma pintura de Da Vinci ou uma peça de Shakespeare. Sua obra é sensível, triste, pessimista, emocional. De acordo com Freud, os homens têm três níveis, o psicológico, o biológico e o espiritual. Eisner explorou ao fundo do terceiro nível. Hoje, o prêmio entregue anualmente a quadrinistas recebe seu nome (Eisner Award).

Marjane Satrapi:
Escritora recente, trancreve para os quadrinhos histórias da sua vida, ou de sua família. Faz uso de ironia e comédia no meio de temas como morte, guerra e amor.
Persépolis: Sua autobiografia, lembranças de sua infância, passagens como a revolução islâmica e a guerra Irã-Iraque são lembradas como o ambiente de formação da própria Marjane Satrapi.
Frango com Ameixas: Os 7 últimos dias na vida de Nasser Ali (tio de Marjane), tocador de Tar. O quadrinho é melancólico, triste e bastante realista.
Bordados: As nove mulheres da família Satrapi se reunem para conversar e tomar chá, nesse momento familiar, elas compartilham histórias de amor frustradas, vividas numa época de desespero.

Cesar Castanha
Cesar Castanha
Do encanto com os créditos de abertura de "Alice no País das Maravilhas", visto religiosamente sempre que exibido nas tardes de sábado pelo SBT, veio a paixão pelo cinema como experiência estética, transformadora e expressão de uma ideia, uma história ou do próprio experimento. Por amar o cinema para além dos padrões de qualidade impostos a ele pela mídia, por outras instituições e até por uma crítica datada, veio o meu amor por conversar sobre cinema, aderi-lo, defendê-lo, apropriar-me dele. O Milos Morpha é uma conversa sobre cinema. Aqui, o texto nunca é certo e definitivo. O cinema não é uma fórmula para que cada cineasta se aproxime da solução mais correta, é um conjunto de experiências artísticas que já dura mais de 100 anos, é dessa forma que criticamente percebemos e experimentamos o cinema no Milos Morpha.