Milos Morpha

por Cesar Castanha

25 de junho de 2015, 15h31

Jurassic World: passado e presente, por Pedro de Biasi

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Existe uma dialética bastante hipnótica em Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros, sequência-re… (Reboot? Reconstrução? Refilmagem? Rebuceteio?) da obra-prima conjurada por Steven Spielberg. É fácil deixar a atenção se desviar dos frágeis efeitos visuais, dos sofridos diálogos, dos medonhos (vá lá) personagens e das paupérrimas sequências de ação quando se desenha, quase como subtexto, mas muito mais como discurso claro e inequívoco, um embate entre o atual e o passado.

De que outra forma ver a cena em que uma tocha improvisada usa a faixa “When dinosaurs ruled the earth”, de uma das muitas icônicas imagens de Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros, como combustível para iluminar o antigo centro de visitantes do parque original? O mais intrigante é como esse consumo do antigo serve não exatamente para desbravar um novo caminho, mas para reavivar o velho. A novidade, assim, é apenas incidental, pois o meio e o fim são ambos a nostalgia. Não é por acaso que diversos elementos do roteiro, imagens e cenas evocam filmes anteriores: faria menos sentido desfazer completamente o elo com a franquia do que emular seus greatest hits.

Daí se desenha um paradoxo estético insolúvel. As referências mais pronunciadas, aquelas que evocam Jurassic Park tanto pelas imagens quanto pelo roteiro, são uma forma de atestar a importância daquele filme tanto quanto sua condição de relíquia. Até os efeitos declaram perfeitamente esse conflito entre estilos, e não pelo mero uso excessivo de computação gráfica. Além desse vício, está a presença de modelos animatrônicos no contexto mais expressivo possível: um animal agonizante, que morre sob o olhar atento da câmera, vítima de uma criação unicamente digital. Mas isso é apenas uma antítese, perfeitamente compreensível dada a discussão constante que retornos de franquias do século passado levantam.

A real incompatibilidade está na repetição de outros elementos, criados exatamente para instigar e empolgar as massas atuais. Será que era realmente inevitável um clímax com uma batalha entre dinossauros? Ou a imagem de velociraptors atacando um predador maior? A pobre vítima rasgada ao meio, outra igualmente infeliz pisoteada, o ataque a dezenas de homens armados, o rugido triunfante do tiranossauro rex? Importante: alguns desses “ecos” são de O Mundo Perdido, ignorado pela cronologia, mas lembrado quando há a necessidade de causar uma impressão. Talvez seja apenas uma inevitabilidade matemática. Afinal, como o (visionário metalinguístico, aparentemente!) Ian Malcolm do livro bem apontou, algumas iterações acabam se repetindo em diferentes escalas, e os contextos muito semelhantes das tramas pesaram neste filme, resultando em combinações repetidas quiçá não intencionais.

E não deixa de ser triste que a construção de set pieces seja gradualmente desprezada logo após a melhor delas, quando o Indominus rex engana seus (estúpidos, claro) criadores-captores. Em seguida, a sequência da girosfera é uma versão passável, ainda que brevíssima, do ataque do T-Rex aos jipes. E daí se sucedem meras orgias gráficas: vidros e metais e explosões e pterossauros e humanos, raptors e selvas e militares e explosões e armas, raptors e o T-Rex e o I-Rex e cenários destrutíveis. O tipo de videogame que não tem graça se apenas assistido numa poltrona. A inventividade da ação morre com a inglesa, sádica e hilariamente passada de animal para animal até, claro, virar petisco.

Que nada em Jurassic World chega perto da tensão construída no filme original, é ponto pacífico. O mais tragicômico é que, nesta retomada desastrada, tampouco existe algum momento comparável ao ataque dos tiranossauros aos trailers em O Mundo Perdido. Os realizadores ignoraram a sequência na trama, mas emularam algumas de suas cenas, e o pior: sequer tentaram compor algo sagaz e detalhado como certas cenas que Spielberg criou para a franquia em ambos os longas que dirigiu. A única coisa mais triste que essa auto-consciência míope é a arrogância de fazer troça com aquela outra continuação infeliz. Sim, World é melhor que o execrável Jurassic Park 3, mas não tem o cacife para ser engraçadinho. Especialmente quando o momento em que o T-Rex arrebenta o esqueleto do espinossauro compõe a “auto”-paródia mais sofrível desde a luta Gojira versus Zilla em Godzilla – Batalha Final.

Eis que, em meio a uma reverência nostálgica, a uma mal-justificada e mal-disfarçada modéstia típica do cinema-pipoca norte-americano (“é só para divertir”) e à crise criativa derivada dessa conjunção de fatores, Jurassic World se mostra tão incapaz de trabalhar suas ambições quanto os energúmenos que aprovaram o parque que John Hammond foi sensato o bastante para manter fechado.


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