sexta-feira, 25 set 2020
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Milos Morpha comenta… Força da Vida

Há aproximadamente 3 bilhões de anos as células existentes no planeta terra começam a se espalhar. É o primeiro indício do surgimento da vida no nosso planeta. Há 300 milhões de anos se diversificam os insetos, entre eles a barata, há 100 mil anos apenas surge o homem. Até este momento, as baratas já haviam passado por todo tipo de desafios e obstáculos à sua existência, eras glaciais, meteoros devastadores, cataclísmos responsáveis por exterminar répteis e mamíferos gigantes, mas nunca, jamais, as baratas. Os humanos surgem, modificam a natureza como nenhuma espécie jamais fez, surgem as civilizações, surgem as grandes cidades. As pessoas, que dominam o planeta, têm pela barata um interessante nojo, repugnância, as esmagando na primeira oportunidade, mesmo assim elas resistem, aqui estamos hoje, convivendo com elas em nossas casas, sabendo ser impossível detê-las por completo.
A obra de Will Eisner faz uma interessante (porém discretíssima) comparação entre as baratas e os judeus, pois a religião hebráica é nada mais senão aquela, mais antiga que a maioria, sobrevivente aos mais diversos cismas e às repugnâncias das religiões dominantes.
O cenário é a crise de 1929, a quebra da bolsa de valores de Nova York, milhares de desempregados, milhares passando fome, enquanto na Europa cresce o movimento anti-semita. O personagem é Jacob, judeu desempregado que tem como grande feito do dia salvar a vida de uma barata (de acordo com ele, tal inseto, assim como os humanos, insistem em sobreviver mesmo quando não há nenhum motivo para tal).
A partir destes elementos, Eisner constrói o enredo da forma que ele é expert em fazer. Melancolia, tradições judáicas, amor, saudade, são os elementos misturados no caldeirão Eisner, o resultado é uma das maiores obras primas dos quadrinhos

Cesar Castanha
Cesar Castanha
Do encanto com os créditos de abertura de "Alice no País das Maravilhas", visto religiosamente sempre que exibido nas tardes de sábado pelo SBT, veio a paixão pelo cinema como experiência estética, transformadora e expressão de uma ideia, uma história ou do próprio experimento. Por amar o cinema para além dos padrões de qualidade impostos a ele pela mídia, por outras instituições e até por uma crítica datada, veio o meu amor por conversar sobre cinema, aderi-lo, defendê-lo, apropriar-me dele. O Milos Morpha é uma conversa sobre cinema. Aqui, o texto nunca é certo e definitivo. O cinema não é uma fórmula para que cada cineasta se aproxime da solução mais correta, é um conjunto de experiências artísticas que já dura mais de 100 anos, é dessa forma que criticamente percebemos e experimentamos o cinema no Milos Morpha.