Milos Morpha

por Cesar Castanha

20 de outubro de 2012, 18h34

Na Direção: Alejandro Amenábar 1 – Tesis (1996)

“Mise-en-scène é uma expressão usada para descrever os aspectos estilísticos de uma produção teatral ou cinematográfica, que essencialmente significa ‘temática visual’ ou ‘contando a história’ – ambos em modos visualmente artísticos através do storyboarding (que envolve tanto o roteiro quanto a posição dos atores em cena), da fotografia e da direção de arte. Ou seja, os modos visualmente artísticos do diretor. A mise-en-scène é tida como o grande termo sem definição da crítica cinematográfica.”
Mise-en-scène é, friamente falando, a construção de uma cena. Para mim, é a capacidade do diretor de usar os elementos citados em conjunto para proporcionar ao espectador sentimentos específicos. Infelizmente para professores e críticos, mise-en-scène não se explica tão bem quanto se sente.
É ainda mais interessante quando tão rara perfeição cinematográfica parte de lugares inusitados, como de “Tesis”, primeiro filme do diretor chileno Alejandro Amenábar, feito com provavelmente um décimo (ou menos) do orçamento de qualquer comédia-romântica hollywoodiana. A história traz Ângela, uma estudante de cinema que está escrevendo uma tese sobre a violência no audiovisual. A trama que parecia ter um tom político ou intenção de explorar um conflito psicológico entre o desejo de ver e a repulsa, assume outro rumo quando Ângela encontra uma fita de vídeo do gênero snuff (quando, em um único plano-sequência, é filmado amadoramente cenas de tortura e assassinato).
Desde o primeiro momento, acompanhamos tudo a partir da perspectiva da protagonista. Vemos apenas aquilo que está dentro do seu campo de visão ou do seu conhecimento. Sabemos, como espectadores, tanto quanto ela. E é a construção grandiosa de Amenábar que nos permite compartilhar os sentimentos de Ângela como curiosidade, medo e tesão.
Há vários exemplos de cenas espetaculares que demonstram a competência do diretor. A cena inicial, por exemplo, quando a presença de um corpo partido ao meio é sentida sem que ele seja visto. Ou a cena em que Ângela caminha em companhia de seu amigo, um dos suspeitos do enredo, através de um corredor claustrofóbico iluminado apenas pela luz de fósforos que se acendem e se apagam. Desde os tempos áureos de Hitchcock, o medo do desconhecido não é tão bem representado na tela.
“Tesis”, como uma peça única de cinema de suspense, merece ser visto. É o tipo de obra que lhe faz lembrar o porquê de sua paixão pela sétima arte. Em determinado momento, aparece um pôster de Short Cuts, o último filme visto por mim nessa maratona de diretores, ao fundo da cena, um reconhecimento reconfortante do meu universo. Como eu amo amar cinema.


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