Milos Morpha

por Cesar Castanha

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21 de outubro de 2015, 10h05

O Amor é Estranho: a crise da flânerie

Nas primeiras cenas de O Amor é Estranho (Ira Sachs, 2014), Ben (John Lighton) e George (Alfred Molina) celebram com a família e os amigos o seu relacionamento de 39 anos. Eles cantam felizes ao piano, distribuem beijos e recebem elogios diversos. Há muito amor na sala do apartamento nova-yorkino que dividiram por 20 anos. O amor, sugere o título, é o tema do filme. E a qualidade dada a ele serve como um alerta: o cenário utópico que vemos está prestes a desmoronar.

Mais uma vez, insisto que os filmes e séries ambientados em Nova York vendem a moral positiva e transformadora do fracasso. Nas ruas da cidade desfilam os mais adoráveis perdedores. Meu filme preferido nesse sentido ainda é Broadway Danny Rose (Woody Allen, 1984), mas várias obras recentes têm reforçado o caráter afetivo de uma cidade que acolhe os seus flâneurs. Em uma homenagem direta a Sangue Ruim (Leos Carax, 1986), Noah Baumbach liberta sua protagonista, sem teto, a correr e dançar pelas calçadas em Frances Ha. Nova York é dessas pessoas que perderam seu emprego e se levam a vagar pelas ruas.

Mesmo idosos ou se aproximando da aposentadoria, os personagens de Sachs não são bem-sucedidos no trabalho artístico que desenvolveram dentro de uma classe média de vivência cultural elitista. Os quadros de Ben não vendem; e George foi demitido da escola católica onde lecionou música por 12 anos por ter oficializado o seu casamento. Sem dinheiro, eles são forçados a abrir mão do seu apartamento e ir viver de favor na casa das pessoas que os amam. Entre deixar Nova York, vivendo juntos fora da cidade, e ficarem separados em Nova York, eles escolhem a segunda opção.

A cidade é uma vivência paralela da utopia americana. É o novo mundo. Poliglota e povoada por imigrantes, no entanto, diferencia-se da outra utopia americana, a da família nuclear que cresceu em casarões nos subúrbios, da classe média em permanente ascensão financeira. Uma dessas utopias entrou em crise na última década; a outra idealiza a crise constante da vida urbana. Talvez pelo amor à cidade Ben e George aceitam com naturalidade a própria crise. Mas eles estão para descobrir o ponto em que a romântica Nova York encontra a crise do capitalismo em um país intolerante ao fracasso alheio.

E o amor é estranho talvez porque, mesmo sendo um sentimento tão poderoso, soberano na tradição temática e narrativa das artes, ele não deixará de ser mais uma vítima de circunstâncias difíceis. Nesse sentido, o maior mérito de Sachs é como se aproxima da melancolia da crise cotidiana de afetos familiares de Yasujirô Ozu ou (porque acredito que ela merece ser reconhecida no mesmo nível) da jovem canadense Sarah Polley.

Cruzo esses dois nomes para chegar ao que Sachs faz aqui. O Amor é Estranho aprofunda o olhar nos conflitos familiares sendo conscientemente contemporâneo. Assim, George tenta esconder seu desinteresse por Game of Thrones na casa de um gentil amigo fã da série. Ele está cansado e pouco disposto a levar sua vida, e sua flânerie, para longe da companhia de seu amado. “Você mexeu com meus hábitos de sono. Depois de 39 anos é difícil dormir sem seu corpo junto ao meu”, lamenta Ben na cama de baixo do beliche de seu sobrinho adolescente, em uma das cenas mais bonitas do filme. É nesse beliche que o personagem mostra toda a fragilidade de seu corpo de 71 anos, diminuído, atrofiado pelo sentimento de um peixe fora d’água.

Nova York legalizou o casamento gay em 2011. As batidas policiais em bares LGBTTQI já são parte de um passado da cidade conhecido por poucos. Aí está a contradição que vivem George e Ben: a cidade que eles deixaram há 39 anos para viver uma ilegalidade consentida em silêncio, ou mesmo, para o catolicismo de George, um pecado, já não pertence a eles. Na euforia de terem seu amor reconhecido pela cidade, não perceberam que foram superados por ela, esquecidos numa fila de espera por um apartamento popular, exclusivo para idosos.

Na última cena em que os dois estão juntos, Ben questiona se o fracasso da própria arte já deixou George alguma vez frustrado. Seu marido responde que não, que adora os quadros de Ben e acredita que eles ainda serão descobertos. Depois dessa cena, um adolescente dá de presente para George o último quadro de Ben. É daí que o filme tira a sua melhor sacada. Sem pertencer ao presente, essas duas pessoas se satisfazem de um pertencimento no passado e da esperança de pertencerem ao futuro, concretizada por um gesto de olhar e compreensão da juventude. A flânerie está viva, e seguirá vagando pelas ruas da cidade à luz de seus fantasmas eternos.

Cesar Castanha


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