Milos Morpha

por Cesar Castanha

03 de março de 2016, 08h15

“O Pecado Mora ao Lado”, um comentário sobre a censura

Em uma das primeiras cenas de O Pecado Mora ao Lado (The Seven Year Itch, dir. Billy Wilder, 1955), o protagonista Richard Sherman (Tom Ewell) vai a uma lanchonete e é atendido pela garçonete interpretada por Doro Merande. Recusando a gorjeta oferecida por Sherman, a personagem aproveita a deixa para militar a favor do nudismo. “Devemos desmascarar nosso corpo sufocante e permitir que ele respire mais uma vez. As roupas são as inimigas, sem elas não haveria doença ou guerra.”

A personagem é uma criação de Billy Wilder, um acréscimo do gênio ao texto dramático de Geoge Axelrod, que inspirou o filme. O Pecado Mora ao Lado se curva à estética da encenação teatral que o originou. Ainda assim, entra para a lista de mais profundas e inteligentes considerações que o cinema já fez sobre si mesmo — como na cena mencionada.

O Pecado Mora ao Lado é evidentemente um filme sobre desejo sexual. O seu título original é The Seven Year Itch (“A coceira do sétimo ano”); o termo é oferecido por um personagem psicanalista como a definição para o ímpeto adúltero que surgiria após o sétimo ano de casamento. É dessa “síndrome” que sofre o protagonista, encantado por sua vizinha, uma garota sem nome interpretada por Marilyn Monroe.

Monroe e sua personagem, creditada apenas como “The Girl”, é o alvo principal das fantasias de Sherman, que está sempre lamentando por sua imaginação inventiva. Além de imaginar a vizinha como uma vítima do charme que acredita ter ou como parte de um complô para o provar infiel (ou, ainda, imaginá-la como um todo), Sherman tem frequentes delírios com situações amorosas, que, segundo ele, seriam cotidianas se não fosse por sua inabalável fidelidade à esposa. O personagem é ridículo; e as cenas que ele “imagina” são construídas a partir de referências imagéticas a filmes como A Um Passo da Eternidade (From Here to Eternity, dir. Fred Zinnemann, 1953). Há também uma aproximação dessas cenas da estética e narrativa hoje consideradas comuns à indústria do cinema pornográfico, que lida com a intenção sexual de forma praticamente cartunesca.

Apesar de tudo isso, O Pecado Mora ao Lado é um filme sob o Código Hays. Ou, para ser justo: sob um Código Hays que começava a cair em desgraça. Para quem não sabe, o Código servia como uma orientação de autocensura em Hollywood; uma série de proibições e avisos que prezavam pelos bons costumes da América. Em 1955, a televisão, a influência de filmes estrangeiros e a perspicácia de grandes autores do cinema americano, como o próprio Billy Wilder, enfraqueciam o Código.

Wilder é um daqueles cineastas maravilhosos que faz obras-primas a partir de considerações sobre a própria cinefilia, como é o caso em Crepúsculo dos Deuses (Sunset Blvd., 1950); Fedora (1978) e Se Meu Apartamento Falasse (The Apartment, 1960) — o último é uma fantasia que reimagina o apartamento brevemente apresentado no filme Desencanto (Brief Encounter, dir. David Lean, 1945). E não acho que seja diferente em O Pecado Mora ao Lado. Pode-se entender, com razão, que o filme desafia o Código. Mas o mais interessante, para mim, é como o filme fala sobre ele.

Para cada momento de forte sugestão sexual, o filme responde com uma censura cômica a essa intenção. Quando Sherman tem suas primeiras fantasias, ele logo imagina também sua mulher o ridicularizando por elas. A censora imaginada o acusa de ser um tolo infantil por se segurar a fantasias sexuais tão exageradas, zombando de suas intenções “subversivas”. O próprio Sherman trabalha em uma editora e é responsável por deixar as capas dos livros de bolso que vende mais “atraentes” ao público. Ele aparece riscando decotes de personagens femininas em um projeto de capa para uma nova edição de Little Women. Quando sua secretária abaixa o desenho do projeto, ele melancolicamente risca nela um decote imaginário.

Mantendo um jogo entre a subversão e a reiteração da censura, o filme segue com uma Marilyn Monroe que aparece dos ombros pra cima sobre uma varanda apenas para sugerir a própria nudez no fim da cena. Por si mesma, a escalação da atriz é uma forma de refletir sobre Hollywood. À época, Monroe era a gold digger oficial da cidade, tendo estrelado comédias como Os Homens Preferem as Louras (Glentlemen Prefer Blondes, dir. Howard Hawks, 1953) e Como Agarrar um Milionário (How to Marry a Millionaire, dir. Jean Negulesco, 1953) era um sex symbol ilícito.

A falta de um nome para “a garota” em O Pecado Mora ao Lado (e a evidência de que um personagem de fato se refere a ela como Marilyn Monroe dentro do filme) apenas reconhece as personagens de Monroe todas como uma particularidade da personagem que a atriz criou para o cinema e que o cinema criou para ela (destruindo-a, como sabemos). Foi este filme que criou a imagem da atriz segurando o seu vestido, que esvoaça sobre as grades do metrô. Mais uma vez, um diálogo entre a sugestão e a censura, já que a imagem desenhada em cartazes e homenageada por décadas não está presente no corte final (a cena em questão reveza planos da atriz do busto para cima e de suas pernas, ainda abaixo do joelho).

É com essa série de acenos carinhosos, um protagonista apavorado com a censura e uma insinuação à televisão (esteticamente, o filme segue a mesma lógica de uma sitcom) que Wilder se despede de décadas do Código Hays. O diretor jogou bem o seu jogo, mas seguiria adiante com facilidade, abrindo os anos 1960 com um dos filmes mais subversivos (e bonitos) já feitos por Hollywood. Se Meu Apartamento Falasse pisaria na hipocrisia do Código, sem carinho algum.


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