Milos Morpha

por Cesar Castanha

05 de fevereiro de 2015, 10h41

Os contos de fadas e nós em “Caminhos da Floresta”

INTO THE WOODS

(Foto: Divulgação)

Infelizmente uma limitação de linguagem impede que o trabalho de Stephen Sondheim, um dos grandes gênios artísticos da última metade do século XX, seja mais conhecido. Há quem argumente que o teatro musical americano possa ser auxiliado nesse sentido pelo cinema. O que é verdade. Mas, diferente das de outros, as peças de Sondheim não são constituídas por projeções de imagens megalomaníacas. Cada uma das histórias e músicas que Sondheim compôs e escreveu tem um aspecto teatral muito forte que se perde muito na transição ao cinema. Into the Woods (ou Caminhos da Floresta, como a adaptação foi traduzida e como irei me referir a ambas neste texto) não é diferente.

Antes de falar de Caminhos da Floresta, é preciso lembrar o fracasso da adaptação anterior de Sondheim: Sweeney Todd. O que era uma opereta anárquica, a maior pérola do teatro musical, foi reduzida em sentido e força pelo estilo limpo e exagerado de Tim Burton. O que faz dos personagens do Sweeney Todd original tão poderosos é a excessiva humanidade deles. Para o filme, todos foram transformados em caricatos bonecos de pano.

A melhor notícia de Caminhos da Floresta é que Rob Marshall, diferente de Burton, não aliena o material original. O filme protege sua farsa estética, aproximando-se de uma construção de cena muito evidente, o que é essencial para que se conte aquela história. Pois Caminhos da Floresta precisa que seus personagens sejam sentidos de fato como personagens, estereótipos reproduzidos por séculos na narrativa popular. Eles precisam reconhecer a si mesmo e uns aos outros como esse estereótipo para descobrirem, no fim, que não o são. É aí que está a genialidade da história de James Lapine. Esses estereótipos, ao descobrirem sua humanidade, não são muito diferentes de nós, pessoas reais que não vivem os contos de fada, apenas os passam adiante como uma narrativa ideal.

Essa narrativa ideal é tão forte na nossa sociedade que realmente acreditamos nela. O que é a meritocracia se não isso? Como os personagens de Caminhos da Floresta, julgamos conhecer as consequências das nossas escolhas. Assim, fazemo-nas com base num padrão lógico e moral muito objetivo que nos beneficiaria na sociedade. Com o perdão do devaneio, o atual caso de Anderson Silva me levou, em pensamento, de volta a Caminhos da Floresta. Um lutador de UFC sofre uma fratura visualmente chocante durante uma disputa e, pelo bem da narrativa do mérito individual, há no discurso popular o desejo da revanche. Conquistado o desfecho heroico, Silva é acusado por um exame de doping. Trago este, mas estamos cercados de exemplos midiáticos da falácia “e aqueles que merecem viveram felizes para sempre”. Em Caminhos da Floresta e, arrisco dizer, na sociedade, o fim da ilusão está no encontro com o outro e com a subjetividade, a dele e a nossa.

Sendo essencialmente um texto sobre o ato de escolher e lidar com as consequências de suas escolhas, não me surpreende que a equipe de marketing de Caminhos da Floresta tenha investido no slogan “Cuidado com o que deseja”, estampado no pôster logo abaixo do rosto maquiado de Meryl Streep. Mas dificilmente o filme censura o ato de desejar, ele apenas apela pela responsabilidade que os desejos carregam, com nós mesmos e com o outro. “Você não está sozinho no mundo”, diz uma música no final da obra. Você pode buscar o que quer, seus sonhos, se assim quiser defini-los, mas saiba que outras pessoas também estão buscando, dinheiro, amor, felicidade, e que os caminhos seguidos por cada um serão conflituosos, contraditórios. Sim, o nós e o eles existem, mas não há razão divina que favoreça moralmente nenhum dos dois lados.

A peça original é muito mais radical na defesa disso em alguns pontos diante dos quais o filme realmente se acorvadou. Em I Know Things Now, a personagem da Chapeuzinho Vermelho faz uma melancólica descrição da sua experiência com o lobo, claramente sexualizada. “Não ponha sua fé numa capa e capuz; eles não vão te proteger do jeito que deveriam […] Agora eu sei: não terei medo. Vovó está certa, só esteja preparada. Não é ótimo saber demais? Nem sempre”, ela canta, como uma garota que acabou de passar não por um trauma, mas por uma das escolhas mais significativas da sua vida.

Em Caminhos da Floresta não há certo ou errado. Todas as decisões são algo no meio. Os personagens encontram-se incapazes de medir a extensão de seus atos, os bem e os mal intencionados. Mesmo apesar de todas as suas falhas (a montagem sendo a principal delas), estou disposto a defender um filme infantil que fique do lado de uma afirmação tão ousada, mesmo que esta o anteceda, que põe em questão fundamentos básicos da nossa sociedade através da mais básica das narrativas: a do conto de fadas.


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