Milos Morpha

por Cesar Castanha

02 de novembro de 2016, 18h11

Sensibilidade e consumo em “Diamond Island”

Em meio às ocupações por estudantes em escolas e universidades, o IX Janela Internacional de Cinema do Recife tem trazido bons filmes para a discussão sobre espaço, territorialidades e ocupações, como já mencionei em dois outros textos publicados sobre esta edição do festival. A produção franco-cambojana Diamond Island (dir. Davy Chou), que integra a mostra competitiva de longas-metragens, não é diferente.

O filme se volta ao cotidiano de um jovem operário que deixa sua cidade natal na zona rural de Camboja para trabalhar na construção de um ambicioso empreendimento imobiliário. A comparação com o caso do Ocupe Estelita, levantada pelo curador do festival Luís Fernando Moura ao apresentar a sessão de Diamond Island, deve de fato ser feita, mas acredito que o filme acrescente ainda algo novo a esse debate, que é a sugestão de uma sensibilidade construída a partir de operações de consumo e de trabalho dentro do regime capitalista hegemônico.

Refiro-me ao modo como o filme coloca a experiência estética dos personagens como que partindo das suas relações de consumo e produção. Em uma determinada cena, por exemplo, o protagonista é movido esteticamente pela maneira como toca em um I Phone e como compartilha esse toque com uma garota. Em outra cena, um conjunto de personagens contempla um artefato decorativo doméstico como se espera que visitantes do Museu da Arte Moderna, em Nova York, contemplem a Noite Estrelada de Van Gogh.

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O filósofo Jacques Ranciere, estudando diários de operários do século XIX envolvidos na construção de casas na comuna de Saint-Simon, comenta sobre o modo como estes relatam a sensação de olhar pela janela da obra em andamento e se imaginar na casa construída. Uma das grandes mazelas do capitalismo é o modo como aliena o operário daquilo que produz, talvez impossibilitando esse tipo de sensibilidade no processo de produção. E o principal problema do filme me parece ser o modo como ignora, parcialmente, o papel de mediação realizado pelo capital.

Ainda assim, é revigorante ver um drama social que não se importe em acentuar em cores neon as roupas dos personagens e os lugares por onde circulam. Construir e reconhecer essa sensibilidade — algo que acontece também no curta-metragem pernambucano O Delírio É a Redenção dos Aflitos (dir. Fellipe Fernandes), exibido na primeira noite do festival — não deve ser confundido no entanto com a tão (corretamente) criticada prática de estetizar a miséria. Diamond Island não é uma foto de Sebastião Salgado. O filme constrói sua beleza estética a partir da sensibilidade dos personagens, o que é completamente diferente de embelezar sua condição em busca de algum sentimentalismo daqueles que observam de fora.

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