Milos Morpha

por Cesar Castanha

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14 de maio de 2014, 23h57

Sob a Pele

O gênero de ficção-científica, tanto no cinema como na literatura, mantém uma nada estranha tradição de existencialismo. Afinal, foram talvez as próprias contradições percebidas no ato de existir que o motivaram. A contemplação moderna do não saber substitui fadas, bruxas e encantamentos por astronautas alienígenas e avanços tecnológicos distantes. É a nova forma (que já existe no imaginário literário há pelo menos dois séculos) de encarar, no mistério, a sua beleza. A particularidade do questionamento e sua maneira em fazê-lo (utilizando-se constantemente de expressões artísticas recentes, como o cinema, os quadrinhos e o videogame) o distingue, no entanto, da fantasia de moral fechada que o antecedeu.

A fundação do gênero é geralmente (pois este é um estigma difícil de ser comprovado) creditada a Mary Shelley, que, aos 21 anos, publicou Frankenstein, um delírio sobre a solidão na terra e a linha tênue que define a humanidade. E define de fato? Shelley não conclui seu pensamento. Ela permite, no lugar, que essa dúvida permaneça por dezenas de gerações e alcance o cientificismo de Julio Verne, a ilusão visual do cinema infante de Méliès, a nostalgia de George Orwell e Aldous Huxley até conquistar a nova Hollywood, premeditada por 2001 e concretizada pela geração de Spielberg, que encontra fascínio e inocência em imagens que antes seriam sinônimas de horror.

Em Shelley, Kubrick, Spielberg e até mesmo no irônico e maravilhosamente divertido O Guia do Mochileiro das Galáxias, saga literária de Douglas Adams, Sob a Pele (Jonathan Glazer, 2013) encontra bases sólidas, ainda que mantenha de todos esses a distância de sua originalidade. Adaptado do livro de Michel Faber, que, dizem, foi cortado à sua essência, o filme é um não muito comum e belíssimo experimento cinematográfico.

Já que Glazer evita se aproximar de um enredo palpável, farei a cortesia de não descrever o que talvez seja indescritível. Sob a Pele, assim como 2001, contempla mais do que narra. E por isso eu não quero dizer que qualquer uma dessas duas obras não se envolva nos conflitos de seus personagens, apenas que preferem observá-los a explicá-los. Uma boa escolha para respirarmos um pouco dos manuais de instrução que são algumas das ficções-científicas recentes, como A Origem (Christopher Nolan, 2010).

Somos introduzidos ao universo de Sob a Pelepelo contraste imagético do preto no branco. A distinção entre esses extremos da luz estará presente em outros momentos do filme, muitas vezes acompanhada pela trilha sonora genial, se um dia a palavra for digna de ser usada, de Mica Levi. É de um dos extremos que surge Scarlett Johansson.

De tempos em tempos, e isso desde o início da sua carreira, Johansson escolhe projetos e diretores não muito comuns às atrizes hollywoodianas de sua idade (ou de qualquer idade, considerando que a geração de Meryl Streep parece estar mais interessada em colecionar Oscars que em participar de algo realmente novo). Que ela, no auge de sua carreira e estrelato, tenha se reconhecido na protagonista de Sob a Pele é louvável. E ainda bem que assim fez, pois a presença de Johansson, perambulando as ruas de Glasgow numa van branca e oferecendo carona a estranhos, seduzindo-os, nua, por uma imensidão negra, é essencial ao filme. Que outra atriz, tão deslumbrante e talentosa quanto, mantém o mesmo tom frio e distante de alguém que parece ter o universo inteiro resolvido na mente, exceto por um ínfimo detalhe não esclarecido, criando uma angustiada dúvida elucidada por cada palavra que sai da sua voz rouca?

Como o monstro de Frankenstein, a personagem de Johansson mergulha numa busca solitária e fatal, talvez pela razão da existência, talvez por nenhum motivo. Ambos deixam suas vítimas, ambos confrontam a intolerância e crueldade de pessoas incapazes de ver a beleza, a mesma que motivou os personagens de Contatos Imediatos do Terceiro Grau (Steven Spielberg, 1977) a deixar suas vidas para encontrar uma manifestação do absoluto desconhecido.

Sob a Pele é uma composição audiovisual de delicada brutalidade, uma experiência cinematográfica única, que, tristemente, deve ter vida curta e rara nos cinemas brasileiros. Uma pena que assim seja. O destino do filme, como o de qualquer filme, é incerto, mas quero acreditar que a cinefilia guardará a ele o seu lugar de preciosidade e permitirá que seja revisto por tantas gerações quantas mantiverem a incerteza e angústia da existência.



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