Milos Morpha

por Cesar Castanha

No rastro do óleo do Nordeste
15 de maio de 2015, 09h26

A última conversa de Coutinho

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O filme-homenagem é uma desgraça conhecida. Tragicamente dividido entre a beleza e a conivência, às vezes, ao menos, consegue os dois. Em momentos ainda mais raros, perde a covardia que se considera admiração ao sujeito homenageado, e aí surgem grandes filmes. Últimas Conversas, de Eduardo Coutinho, é também um filme sobre Eduardo Coutinho. O filme-homenagem (talvez o mais belo que eu já vi) escondido ali no meio é da dupla João Moreira Salles e Jordana Berg.

Comentários lidos falam com nostalgia do filme que Coutinho teria finalizado, supondo que seria algo melhor. Isso não passa de uma especulação metafísica, como diria a personagem de Oscar Wilde. Ainda assim, eu discordo com outra suposição: a de que Últimas Conversas é o melhor filme que poderia ser e que não seria melhor em qualquer outra circunstância, pois é um filho consciente da história pessoal e artística que carrega e expõe.

Últimas Conversas começa com um depoimento de Coutinho à câmera, como fizeram praticamente todos os seus personagens desde Santo Forte. Ele conversa com uma outra parte oculta, acredito que Berg, sobre a pouca crença que tem no filme que está fazendo. É o último, ele dirá em dois momentos. Na contradição, afirma que não pode parar de fazer filmes. O paradoxo guarda uma trágica verdade.

A circunstância da morte de Coutinho é daquelas coisas tão duras que não devem realmente ser mencionadas. Ela ecoa dolorosamente na memória em alguns pontos da sua filmografia. Na minha experiência de ver/rever Coutinho, é em O Fio da Memória, Jogo de Cena e Últimas Conversas que isso acontece com mais força. Dos três, no entanto, o mais novo é o único que poderia ter sido feito (não sei se foi) com a consciência dela.

A possibilidade de autoconsciência em Últimas Conversas tem um aspecto claro de pós-produção e não é compartilhada pelo Coutinho presente, este completamente alheio ao que o filme se tornaria. Afinal, o diretor se manteve incomodado com o filme que pensava ter feito aparentemente até o fim das filmagens. Coutinho conversou com adolescentes e, segundo diz ele no próprio filme, não conseguiu amá-los, recorreu a uma criança e reencontrou o afeto perdido. Quando a pequena Luiza, de 6 anos, deixa a cadeira de entrevistada, o diretor lamenta não ter feito o filme inteiro com crianças. “Adolescente é muito triste”, ele explica.

É estranho creditar essa fala a quem dirigiu em anos relativamente recentes Edifício Master, Jogo de Cena e Moscou. Coutinho flerta com o melodrama. Ou talvez seja o melodrama que flerta com Coutinho, aparecendo sem ser convidado na fala e nas maneiras dos personagens? Em entrevista, ele disse, usando outras palavras, que a sociedade brasileira tem sido cortejada pelo gênero (que não é só de cinema, é de linguagem) através da televisão e que correspondeu a ele na maneira de conversar e falar de si mesmo.

De qualquer forma, os jovens de Últimas Conversas são realmente bem diferentes na maneira de depor. Além da câmera, eles estão conscientes da imagem e do seu resultado de propagação. Eles lidam com isso agora cotidianamente e estão presos a uma ideia de como querem ser vistos. Em outros filmes, os personagens de Coutinho não expressavam visível esforço para falar coisas bonitas. Os garotos do filme quase todos o fizeram com um sorriso simpático no canto da boca.

Coutinho não escondeu o incômodo causado. Ele enfrentava a contradição nos depoimentos, expôs bastante a sua opinião sobre o que era dito. Assumindo um tom até bem professoral, recusava-se a ser dominado pela empatia. E tudo isso, como dito por ele, angustiou-o ao ponto da descrença no projeto.

Há um efeito, porém, de ver Últimas Conversas como uma conclusão dos filmes de Coutinho. Como cinéfilo, considero uma deliciosa recompensa de ter visto uma obra completa a possibilidade de observar o sujeito dentro da filmografia ou o desenvolvimento de alguém como artista. Em alguns casos, nos mais delicados, nas angústias mais difíceis de serem expressadas e diante das consequências mais terríveis, dói. Lembro de quando vi Maridos e Esposas no fim de uma maratona dos Woody Allen dos anos 1980, é uma sensação parecida.

O efeito de repetição nos filmes de Coutinho, às vezes motivado pelas perguntas do diretor, outras não, revela alguns temas. E, assim como acredito que morte e herança sejam temas de O Fim e o Princípio, e a dor, um dos vários temas do riquíssimo Jogo de Cena, acho que Últimas Conversas é bastante sobre a expressão da dor. O alarde do grito e do choro, a sutileza fria do humor, a rejeição do silêncio, a busca por um não enfrentamento, uma possibilidade mais simples e harmoniosa e inocente de encontro.

Acho que a última entrevistada de Coutinho, última de fato, a garota Luiza, de 6 anos, guarda um simbolismo muito forte.  Não sei se do ideal, do escapismo, da rejeição; talvez tudo ou nada disso. O que acontece na entrevista é a descoberta, pela primeira vez, de um não passado, de um não reconhecimento da dor. Antes, Luiza não era, secretamente, Elizabeth Teixeira, não passou os últimos anos da vida do pai recusando-se a falar com ele, não trabalhou no lixo ou no sítio de Teodorico. Luiza não quer voltar para Moscou porque nunca saiu de lá. Antes de si mesma ela só encontra a não existência. “Eu era uma bolinha”, diz para um público de cinema que nessa altura já está tranquilamente risonho. Luiza contempla, apesar da diferença de classe social, etnia e lugar que mantém com maioria deles, a felicidade saudada pelos personagens de Coutinho. Se sentem dores de fato, se antes eram realmente felizes, nada disso importa. É a busca, cada um da sua forma, em si mesmo ou nos filhos, de Luiza, ou de algo como Luiza, que está em suas memórias. É a utopia, a vitória das ligas camponesas, o reencontro da família, a harmonia entre pais e filhos, o retorno a Moscou. Coutinho fala em Últimas Conversas que queria fazer um filme só com crianças, um filme de Luizas. Sei do perigo das especulações metafísicas: não posso deduzir o que seria esse filme, mas, pessimista que sou, acredito que o diretor poderia terminar descobrindo que Luiza não existe.


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