Milos Morpha

por Cesar Castanha

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08 de abril de 2015, 09h44

Um convite para “Mad Men”, por Radamés Marques

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(Reprodução)

[Nota do editor: Este texto foi originalmente publicado no Milos Morpha há um ano, próximo à estreia da sétima temporada da série, e está sendo republicado a pedido do autor agora que os sete episódios finais estão indo ao ar. Achei uma boa ideia, considerando que permanece tão verdadeiro hoje quanto então]
Pegar gosto por Mad Men não foi das tarefas mais fáceis para mim, e imagino que também não seja para a maioria das pessoas com quem converso sobre a série e que tentam acompanhá-la no esquema não convencional – faz download das temporadas e vê todos os episódios de uma vez só. Na primeira vez que tentei assistir à primeira temporada, parei um pouco antes da metade. A impressão que ficou não era ruim, pelo contrário, o roteiro parecia bom, as atuações também, todo o trabalho de design de produção é impecável; enfim, imaginei que fosse boa demais para mim ou o ritmo, um tanto quanto pausado, impunha uma barreira entre nós. Creio que essa barreira advém do modo como os seriados americanos de 24 Horas e Lost para cá têm buscado prender a audiência: com tramas muito rápidas e que procuram manter o espectador fiel na base da tensão crescente que é interrompida abruptamente para deixar um gancho para o próximo episódio, ou na expectativa da ocorrência de eventos acachapantes lá pelo fim da temporada. É um modelo bom tanto para as emissoras, que mantêm o público em estado de nervos à espera do próximo episódio, quanto para aqueles espectadores que chegam atrasados nesses fenômenos e costumam ver todas as temporadas de uma vez só. E tem servido ora para criar exemplares de excelência, como Breaking Bad, ora para estender a vida de séries que já não têm muito o que dizer, mas que ainda rendem um bom dinheiro, mesmo tendo tomado caminhos pavorosos, como Dexter ou Homeland.

Assim, não é exagero afirmar que Mad Men talvez seja um antisseriado, pelo menos nessa concepção atual de seriado com a qual estamos acostumados. O ritmo lento, a trama que parece meio inexistente ali naqueles primeiros episódios, aquele ambiente meio esnobe dos subúrbios americanos… Tudo isso me dá a impressão de que esta é uma série para se ver na TV da sala, depois do jantar, um episódio por semana, pelo menos até que você se acostume com o ritmo e comece a engatar episódios em sequência — sim, isto acontece. Minha sugestão para quem está sendo apresentado agora ao universo de Don Draper e companhia é que não tenha pressa. É justamente a ausência da necessidade em expor trama e personagens logo de início que torna Mad Men sensacional. O ritmo é mais lento, mas a despeito disso nunca temos a impressão de que se está enchendo linguiça. E isso fica evidente quando, depois de seis episódios em que você não sabe muito bem porque os caras gastam tempo com a secretária quase muda de Don, Peggy Olson, durante uma experiência com grupos focais, a moça olha para uma cesta com guardanapos cheios de marcas de batom e fala de forma banal: “Um cesto de beijos”. É rápido, é prosaico, é cotidiano como quase tudo naqueles primeiros episódios da série, mas é algo que vai definir o caráter daquela personagem por todas as outras temporadas.Mad Men se passa na década de 1960 e acompanha o dia a dia de uma agência de publicidade localizada na Madison Avenue, em Nova York. É a partir do enfoque no cotidiano desse meio regado a uísque, cigarros e coquetéis que vão sendo desnudadas as vidas dos personagens e do próprio país, afinal poucas décadas trouxeram consigo mudanças tão profundas na sociedade norte-americana quanto os anos 1960. O seu início marca o auge do american way of life, e o seu fim, o fim da corrida espacial; no meio disso: direitos civis, Guerra Fria, feminismo, contracultura e Vietnã.

Abordar esses acontecimentos sob o prisma do mundo publicitário daquela época funciona quase como um exercício de autoanálise, na medida em que o papel da publicidade em vender um produto de sucesso espelha bastante a tentativa da sociedade norte-americana de vender, para o resto do mundo e para si, a imagem de sucesso econômico, social e político de uma nação que venceu a Segunda Guerra Mundial e salvou a Europa Ocidental da expansão soviética. Don Draper parece, assim, personificar esse ideal de sociedade em que as pessoas são definidas a partir do quão bem sucedidas elas são. Não importa quem ou o que foram no passado, mas a imagem que transmitem no agora.

Dizem que uma das razões que levaram à vitória de Kennedy sobre Nixon nas eleições presidenciais de 1960 foi o contraste entre a aparência jovial e confiante assumida por JFK e o ar convalescente do candidato republicano no primeiro debate presidencial transmitido em cadeia nacional de televisão nos Estados Unidos. De certa forma, Draper incorpora essa alma de Kennedy, é jovem, rico, bonito, o tem esperado em casa — um belo e amplo imóvel no subúrbio, claro — uma família perfeita e, acima de tudo, desperta entre as pessoas ao seu redor doses equivalentes de admiração e inveja.

O que Mad Men faz ao encarar esse espécime perfeito da alma norte-americana é focar nas trincas existentes nessa imagem de perfeição, não só a projetada por Don, mas também por aqueles que desejam ser iguais a ele. Muitas obras tentaram retratar o american way of life e se perderam ao pesar a mão na caracterização cínica desse meio, caindo, paradoxalmente, na falsidade que pretendiam retratar. Embora não deixe escapar o cinismo no momento em que aborda a farsa que se passa dentro daquelas casinhas de boneca dos subúrbios, o que se extrai aqui é uma interpretação mais trágica do que cínica do fardo que as pessoas se impõem ao tentar construir suas vidas sobre premissas falsas. É como essas pessoas, na tentativa de projetar uma imagem de perfeição sobre si, impõem perdas e sacrifícios a elas e àqueles que estão à sua volta. Que tudo isso se passe com indivíduos que se dedicam à função de inventar verdades — para ficar no subtítulo em português —, sobre produtos ou pessoas, não deixa de ser irônico, ainda que a publicidade apareça mais como sintoma do que como causa de tudo isso.

É nesse sentido, de enxergar as mudanças no ambiente em que seus personagens estão inseridos sempre como consequência das mudanças sociais pelas quais a sociedade norte-americana passou durante os anos 1960 que Mad Men brilha. Embora a série sempre deixe claro que os conflitos sociais ali retratados fazem parte de algo mais amplo, ela nunca perde de vista o ponto de partida desses conflitos, que são as relações entre os próprios personagens. Aqui, é necessário abrir um parêntese, percebam como, temporada após temporada, o ritmo das mudanças — sociais, físicas e de comportamento dos personagens — se altera, acompanhando a instabilidade crescente que marcou a década no mundo real. Do ritmo lento, pausado, da primeira temporada, que é cadenciado pelo som do jazz e da bossa nova, ao caos das últimas temporadas, principalmente da sexta, em que o mundo parece ruir sob os pés de todos os personagens enquanto eles ouvem rock progressivo, fumam maconha ou experimentam LSD.

Símbolo notável da forma como a série vai incorporando o subtexto político e social para desenhar um painel dos Estados Unidos na década de 1960 é o modo como os personagens se inserem e reagem na ficção a eventos reais. Dessa forma, acontecimentos como a morte de Marilyn Monroe ou os assassinatos de J.F. Kennedy, Martin Luther King e Robert Kennedy só trazem à tona conflitos que já estavam latentes na própria narrativa e, de certo modo, já vinham sendo delineados em episódios ou em temporadas anteriores. Por serem meros catalisadores, esses acontecimentos acabam funcionando mais como pontos de inflexão de uma trajetória já percorrida pelos personagens do que como algo que vai tomar o centro da narrativa ou mesmo que vá ser enfatizado mais à frente. Assim, mais importante do que o choque e o choro diante dessas mortes é perceber como elas se inserem nas relações ali estabelecidas. A exemplo do assassinato de Bobby Kennedy a pontuar o caos que vai se instaurando na vida de Don e as incertezas em relação a um mundo em transformação ao qual Draper permanece alheio; ou a conversa entre Peggy e Dawn, a secretária negra de Don, após o assassinato de Martin Luther King, quando protestos violentos tomaram conta dos bairros negros de Nova York. Naturalmente desconfiada com a oferta de ajuda de Peggy, Dawn ouve como ela, Peggy, também já esteve no lugar da secretária. Em todos os sentidos, como secretária e também como o ser estranho num ambiente dominado por pessoas diferentes, no caso de Dawn as colegas de trabalho brancas; e no de Peggy, os colegas, todos homens.

A trajetória percorrida por Peggy, por sinal, é das coisas mais bonitas produzidas pela série. Não apenas por causa do final aparentemente promissor reservado a ela, mas pelo modo cuidadoso como esse destino foi sendo traçado, empurrando o personagem pouco a pouco para o centro da narrativa até o momento em que você se dá conta de que Mad Men inteira cabe na trajetória dele. Estão nessa trajetória reflexos de todos os conflitos pelos quais passam os demais personagens e o próprio país — como a dificuldade em ser mulher num ambiente em que a objetificação da figura feminina, mais do que tolerada, é incentivada e vista como algo natural naquele meio em que a mulher é encarada como mais um produto a ser vendido e consumido. Do mesmo modo, o desafio de ser mulher num ambiente de trabalho dominado por homens, o que traz consigo não apenas a tarefa de lidar com desconfianças e estranhamentos, mas de ter a competência à prova não por aquilo que se produz, mas pelo que se é; algo que acaba se refletindo noutros personagens.

Por fim, não é trivial tampouco como a série vai estabelecendo de forma sutil pontos de aproximação entre a trajetória de Peggy e a do protagonista Don Draper. De certa forma, é a partir do percurso percorrido por Olson, de secretária a chefe de criação, e das coisas que ela perde nesse caminho, que podemos ter uma noção de como Dick Whitman se transforma em Don Draper. Ambos figuras deslocadas em seu meio, Peggy e Don se vêem um no outro no momento em que abandonam uma parte de suas próprias vidas para se reinventar como pessoas e tentar reconstruir-se, embora, no caso de Draper, esse processo de reconstrução de si implique numa volta às origens. E é lindo perceber como a direção vai estabelecendo esse paralelismo entre os dois personagens ao enfocar Peggy através de enquadramentos de câmera desde o início da série associados a Don.

Mad Men voltou para dar início à sua última temporada, divida em duas partes de sete episódios cada, a exemplo de Breaking Bad. Obviamente, não faltam tentativas de estabelecer legados ou veredictos sobre o papel da série no ambiente muito promissor da atual produção televisiva americana, que tem escapado da inércia criativa que tomou conta de Hollywood. Meter-se no meio dessa discussão de se é a melhor série já feita ou não me parece um pouco reducionista, tanto em relação a Mad Men quanto às suas possíveis concorrentes. Espero que esta última temporada faça jus àquilo que a série sempre prezou nas seis temporadas anteriores: a excelência. Excelência que se reflete no modo sempre preciso como os personagens, todos eles, vão se desenvolvendo aos olhos do espectador; no modo econômico, mas igualmente preciso, como nós somos situados naquele universo; e na capacidade de se reinventar visualmente, temporada após temporada.

Poucas séries conseguem atravessar sete temporadas sem cair na armadilha da encheção de linguiça ou da auto-paródia, que Mad Men tenha conseguido essa proeza já seria digno de aplausos. Que o tenha feito a partir de personagens emblemáticos como Don, Peggy, Joan, Sally ou Roger dá uma ideia da falta que ela e esses personagens vão fazer a partir de 2016.


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