Milos Morpha

por Cesar Castanha

21 de agosto de 2012, 18h49

Um Divã para Dois

Hoje em dia, Meryl Streep e Tommy Lee Jones são como a mobília de um imóvel que aumenta o preço do mesmo no mercado imobiliário. Uma bela decoração para filmes incapazes como “Dúvida”, “Julie & Julia” e “Capitão América”. Ou, em casos como “A Dama de Ferro”, são uma das únicas coisas que impedem um filme de se espatifar no chão. Mas na maioria das vezes são apenas adereços, e é como adereços que seus diretores os vendem. O trailer de “Um Divã Para Dois” anunciava uma comédia nos moldes de “Simplesmente Complicado”, quando na realidade trata-se de uma obra bem superior. A impressão que fica, porém, é a de que o diretor David Frankel (O Diabo Veste Prada) pirou diante da possibilidade de fazer um filme sério e acabou por sabotar o mesmo sempre que via a possibilidade.
Em “Um Divã Para Dois”, Kay (Streep) e Arnold (Jones) são casados há 31 anos e nos últimos quatro anos destes já não fazem sexo nem sequer dormem no mesmo quarto. Triste com a rotina fria de seu casamento, Kay paga uma terapia intensiva para ambos em uma cidade litorânea. O filme aborda justamente os sete dias de terapia com o Dr. Feld (Steve Carell, sério como jamais esteve na carreira).
Trata-se de uma película extremamente tocante sobre intimidade e a dificuldade em recuperá-la, chegando a ser doloroso em vários momentos. O roteiro de Vanessa Taylor (Game of Thrones) constrói o drama do cotidiano através de personagens tão palpáveis que podem estar presente naquela mesma sala de cinema. Há muito tempo Meryl Streep não se entrega de tal forma a uma personagem, ainda mais uma personagem tão comum. Kay não é uma executiva, nem ministra, nem freira, não exerce nenhum tipo de poder, é simplesmente ordinária e desinteressante para quem olha de longe. Quando Streep muda o tom de voz e os trejeitos do seu corpo e traz Kay para um olhar mais próximo, ela se torna humana, característica que está aos poucos voltando ao estilo de atuar de Meryl Streep.
Mas por que então vender o belo drama do roteiro como uma comédia de verão? Eu apostaria que Frankel estava com medo de perder sua identidade como diretor, mesmo que esta identidade seja relativa a algo medíocre. Para ele pode ser mais vantajoso ser conhecido como a mente por trás de “O Diabo Veste Prada” e sinônimo automático de bilheteria. O elenco e o roteiro correm para chutar o filme para dentro da rede do maravilhoso, mas no fim das contas lastimamos que Frankel seja mesmo um ótimo goleiro.


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