“Um Lugar ao Sol”, “Pacific” e a classe média ridicularizada

  É muito interessante como se forma a cinefilia em um lugar que tem produzido cada vez mais filmes, e com um reconhecimento externo crescente, como é o caso de Pernambuco. A intenção cinéfila, sempre um movimento engajado por motivações estéticas, confronta-se com a presença próxima das figuras concretas que produzem os filmes quase sempre […]

 

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É muito interessante como se forma a cinefilia em um lugar que tem produzido cada vez mais filmes, e com um reconhecimento externo crescente, como é o caso de Pernambuco. A intenção cinéfila, sempre um movimento engajado por motivações estéticas, confronta-se com a presença próxima das figuras concretas que produzem os filmes quase sempre a partir de um auxílio mútuo que exige, como é natural, certa cumplicidade e uma crítica-autocrítica.

É geralmente ao cenário da produção local que se limitam determinados questionamentos éticos bem antigos no cinema, de quando, por exemplo, se fala em poder da câmera, do discurso, da montagem. Essas problematizações são o sexo dos anjos no cinema. Algumas vezes, encontram uma retórica acadêmica invejável que consegue sustentá-las por quatro rodadas de cerveja, sem que se consiga chegar (ainda bem) a uma solução política-estética para o dilema moral.

Esse texto é para falar de um caso específico que sempre volta às mesas de bar, salas de aula (ou mesmo de cinema) e aos auditórios recifenses. Em 2009, o filme Um Lugar ao Sol, de Gabriel Mascaro, era exibido pela primeira vez na cidade. A sessão-debate do filme na mostra Retrospectiva/Expectativa, do Cinema da Fundação Joaquim Nabuco, seguia por poucos meses a de Pacific, do montador de Mascaro, Marcelo Pedroso, no II Janela Internacional de Cinema do Recife.

Pacific é montado a partir de metragem recolhida dos passageiros de um cruzeiro do Recife para Fernando de Noronha. É um belíssimo filme, infelizmente muito pouco visto e lembrado, que dificilmente teria a mesma força se não fosse pelo afeto resistente da montagem. Pedroso tem construído uma filmografia sólida desde então, mas nenhum de seus filmes compartilha do coração de Pacific. O documentário cede à verdade dos sentimentos de seus personagens com uma humildade rara no cinema. É definitivamente meu filme pernambucano preferido, uma obra-prima dificilmente comparável.

Um Lugar ao Sol é o oposto de seu companheiro, só há rancor para com o que seus personagens, um conjunto de pessoas entrevistadas para falar sobre como é morar em um arranha-céu, têm de real. O filme procura a caricatura dentro do humano, e não o contrário. É exagerado, militante e grosseiro, e tem sido muito criticado por isso desde sua estreia. Diante do debate urbano que o Recife tem vivenciado com cada vez mais intensidade, Um Lugar ao Sol é uma referência permanente a que se adere ou se rejeita, sem meio termo.

Hoje, há uma espécie de mea culpa generalizada por Um Lugar ao Sol. Também de Mascaro, Doméstica, de estratégia formal um tanto parecida com Pacific, permite aos personagens conduzir a imagem e o discurso. Como Um Lugar ao Sol, Doméstica é um filme engajado, mas há algum amor pelos personagens, um afeto permitido talvez pelos sujeitos que posicionam a câmera, cheios de autopiedade ou, em poucos casos (bem poucos), inocência. Há boatos sobre coisas que teriam deixado de entrar na montagem final de Doméstica, possíveis vestígios de coerência e humanidade. Isso me despertou a curiosidade por um tempo. Mas acho que há realismo e complexidade bastantes nos personagens que eles são, interessa realmente o que seriam? Ou, muito pior, interessa o que são de fato? Já não aprendemos o bastante com mais de 100 anos de cinema de documentário para abrir mão dessa necessidade do real? Há, é claro, a questão da consequência, mas esse é o risco da permissão da imagem e do próprio discurso: descobrir o seu ridículo nos olhos dos outros.

Acho que há alguma nobreza na tentativa de se criar uma imagem justa, ainda que combatente, do inimigo. Pedroso tem se dedicado a isso academicamente. Nas suas obras de ficção pós-Pacific, não parece haver esse interesse. Não há problemas, a força imagem engajada, e evidentemente criada e manipulada por um discurso, de Em Trânsito sustenta o êxtase popular diante do filme. Brasil S/A, por outro lado, foi ficando cada vez menos interessante com a lembrança. Os personagens do filme são bobos, ultrarromantizados pela trilha sonora, fotografia e direção de arte. A ridicularização da classe média fictícia do filme não tem o mesmo calor do que é possibilitado por Mascaro em Um Lugar ao Sol.

Voltando a este, o filme que o crítico Inácio Araújo chama de “autoritário”, possivelmente a bravata mais radical do nosso cinema pela ridicularização da classe média, receio em desprezar anos de discurso tão cuidadosamente colocado até por pessoas que fizeram parte do filme, mas devo dizer que fui mais facilmente conquistado na revisão. Os personagens são todos fascinantemente estúpidos, arrogantes e covardes. Nem a venenosa literatura do século XIX conseguira pintar com cores tão vivas os maneirismos absurdos da aristocracia. Terminei pensando, antes de querer defendê-lo, “Se pelo menos eles não fossem reais…”. Não são.

 

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Cesar Castanha

Do encanto com os créditos de abertura de "Alice no País das Maravilhas", visto religiosamente sempre que exibido nas tardes de sábado pelo SBT, veio a paixão pelo cinema como experiência estética, transformadora e expressão de uma ideia, uma história ou do próprio experimento. Por amar o cinema para além dos padrões de qualidade impostos a ele pela mídia, por outras instituições e até por uma crítica datada, veio o meu amor por conversar sobre cinema, aderi-lo, defendê-lo, apropriar-me dele. O Milos Morpha é uma conversa sobre cinema. Aqui, o texto nunca é certo e definitivo. O cinema não é uma fórmula para que cada cineasta se aproxime da solução mais correta, é um conjunto de experiências artísticas que já dura mais de 100 anos, é dessa forma que criticamente percebemos e experimentamos o cinema no Milos Morpha.

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