Milos Morpha

por Cesar Castanha

19 de dezembro de 2016, 13h45

Uma mulher dividida em duas: Elle, por Cecília Shamá

“Quando minha filha crescer eu torço para que ela seja uma tola – essa é a melhor coisa que uma garota pode ser nesse mundo, uma linda coisinha tola” – Daisy, O Grande Gatsby

Quando Daisy diz essa sentença para Gatsby acerca do que espera para sua filha, e repentinamente muda do profundo vazio existencial para a garota alegre e impossível de Gatsby, vemos como a delicada Daisy ainda tem seus espinhos disfarçados. Em Elle, a dor e o vazio da personagem moldam sua apatia consigo mesma e com a violência que sofre.

Elle (2016) me tirou do conforto desde sua polêmica exibição aqui no Recife. Eu me recusei a entrar no redemoinho dos debates e até mesmo a ver o filme no cinema, por preciosismo cinematográfico: eu precisava fugir da polêmica acerca das cenas de estupro da personagem e ver o filme como obra artística.

Eis que vejo Elle com um certo tempo de distância e o que mais vejo nele é o corpo e a alma femininas violentados pela sociedade e pela personagem. E o distanciamento estético não funcionou comigo: eu sou mulher, afinal. Não quero dizer com isso que ela seja uma mulher masoquista, acredito de fato que sua violência consigo está no ato de se manter em movimento no trabalho e tratar da invasão de sua casa por um estranho, de seu corpo violentado como um hábito da sociedade bruta a qual ela se insere, à qual eu me insiro.

A personagem possui no trabalho um cargo de poder, num universo de videogames, universo lotado de corpos e mentes masculinos, e é ela quem manda na narrativa que vai contar, por isso também narra sua violência para os amigos, em uma cena de um jantar, de forma robótica, como aprendeu que uma mulher precisava ser, desde criança, quando fotografada olhando à distância um ato de violência do pai. É nesse eterno retorno que a personagem narra a si mesma. Elle se sente mais forte, mas não a engenheira de seu destino:

“Se o Diário algum dia vier a ser publicado sem cortes, o ponto de vista feminino será estabelecido com mais clareza, (e Eu, no diário) pois as mulheres nunca separam o sexo do sentimento ou do amor do homem integral –  Anais Nin, Delta de Vênus.

Uma nota sobre nosso silêncio e nossa normatização do que vemos como comportamento masculino involuntário, pulsão sexual do sexo do homem indiferente à moral adequada, movimento involuntário do oŕgão e do ser homem: vou contar como acho que normalizar uma violência pode acontecer a qualquer uma de nós.

Peguei um táxi às 18h da tarde neste ano, e o motorista narrou toda sua vida sexual, o seu julgamento das colegas de trabalho do sexo feminino e sua relação com as redes sociais enquanto eu ficava calada e sorria querendo descer.

Então ele começou a me questionar como eu era sexualmente, se eu era lésbica ou hétero, solteira ou comprometida, perguntou meu nome, se “minha carinha de santa escondia uma safada” e no meio do caminho parou em duas ruas sem saída, na chuva, completamente desertas e me disse que minha punição por ser bonita seria mostrar minha tatuagem por inteiro, ou seria “pior” caso eu me negasse. Eu o fiz. Esta tatuagem:

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Essa tatuagem vai até o início do meu seio, e veio do camafeu da minha avó, que me deixou ele como lembrança dela e de uma época. Um camafeu é uma espécie de pingente ou broche que remonta à época egípcia, quando as mulheres que se abriam para a sexualidade e para o amor o usavam como símbolo de sua independência e declaração de feminilidade e força. E, nesse dia, para mostrar toda ela, eu tive que tirar toda a parte de cima da minha roupa que a cobria. Onde foi parar a força que minha avó me repassou em jóia, a qual tatuei na pele como nostalgia de uma mulher admirável, quando, depois de descer, eu não fiz nada?

Claro que eu entrei, falei disso numa postagem de Instagram e fui fazer a janta. Eu não anotei a placa dele. Eu não o denunciei. Eu não contei aos meus pais, que provavelmente diriam que era minha culpa, como de outras vezes fizeram com as filhas dos outros. E eu não achei nada de mais não fazer nada.

Quando a gente se insere num universo de estudos e de trabalho masculino a gente se agrega ao machismo para sobreviver e depois o reproduz e o alimenta. Seja se calando, seja se distanciando do ato de se comunicar, escrever ou produzindo criativamente. A firmação que impõe “você tem que parar de fazer crítica ou resenhas pessoais e tentar um eu analítico, com o eu lírico reprimido” está muito próxima daquela que impõe “você não pode criticar o videogame dos homens, só opinar sobre sua redação de personagens”. Assim como Elle, então, eu me acostumei às pequenas retaliações dos outros e de mim mesma. Parei de escrever.

A violência sexual contra o corpo de uma mulher está também relacionada, no filme, à violência dela mesma contra o seu próprio gênero, seus julgamentos contra a nora, a ridicularização e a crítica excessiva às plásticas da mãe etc. Somos cruéis por medo, nosso maior medo, aquele de nos tornar nossos pais.

Por isso Elle não se vitimiza, e também não problematiza sua violência e seu agressor, deixando-o solto e apto a fazer o mesmo com outra mulher. Ela reprime a si mesma, a mãe e a nora. Esse é nosso pedido de desculpas por sermos atuantes em um cenário masculino. Desculpamo-nos por nos desculpar. Pela morte. Pelo estupro. Pelo silêncio. Pelo falar.

É mais fácil rir das piadas machistas com outras mulheres, é mais fácil fazer todo o trabalho, ficar até mais tarde, é mais fácil se rebaixar e pedir desculpas, é mais fácil enaltecer o masculino e se sentir parte do grupo, é mais fácil porque é automático.

Vamos às cenas repetidas de estupro, estilo Rashomon (dir. Akira Kurosawa, 1950), em que uma ação passa de personagem para personagem por seu ponto de vista de um único acontecimento, como acontece com um espectador de um filme. O mesmo filme pode ser dez vezes diferente se visto por dez pessoas diferentes, homens, mulheres e filhos.

A experiência de um ato compartilhado nunca é vista e recriada de forma igual. O objeto do filme é Elle, e ela repete o estupro em sua mente, e o diretor manipula a imagem para dar diferentes vistas ao mesmo ato: o estupro da personagem.  Nenhuma pessoa que já passou por um trauma de violência sexual ou emocional vai se lembrar do ato que não de forma fragmentada, acredite, eu sei e senti isso, vivi isso.

A memória é assim, pessoal e ou coletiva, veja, por exemplo, como fragmentos nostálgicos e históricos compõem nossa circunstância política atual. Mas aqui entra o incômodo: o diretor mostra a memória de Elle ou apenas rebaixa a violência do estupro à estética de direção e dá asas a imaginação do espectador masculino, entre fetiches de representação sexual?

O olhar, como mulher, a repetição do trauma mescla-se com o ego do diretor e se dissolve enquanto crítica. O que incomoda em Elle é porque esse olhar não é nosso, é o olhar do diretor, distante, mórbido, irônico, mas ainda assim incapaz de retirar nossa subjetividade feminina, pois o filme é dele, mas a atriz e a mulher por trás da atriz são o corpo e mente de Isabelle Huppert.

Um filme não é um fim, é um meio, um meio de segmentos e interpretações, não é uma mensagem enviada e perfeitamente acolhida; daí a revolta com a valorização do estupro pelo diretor, que já não ganha credibilidade tendo feito Showgirls (dir. Verhoeven, 1995), um filme maniqueísta sobre uma jovem dançarina que, em suma, é uma sobrevivente, mas uma sobrevivente no corpo de uma atriz loira, alta, e cuja sexualidade se liga ao passado de abusos nunca que nunca se faz presente em sua atuação. Hoje cultuado após anos de vida cinematográfica, Showgirls é defendido por ser divertido nos ataques de mulheres contra mulheres, com toda a perfeição das pernas oitentistas bronzeadas de sua personagem central.

Alguns termos foram usados em debates sobre Elle enquanto estética narrativa e cinematográfica, como quando críticos enalteceram a plasticidade visual ou uma suposta beleza no estupro, tão bem montado que em alguns momentos chega a ser simplesmente uma estética bela e escatológica contra o politicamente correto. Nesse ponto, continuamos a sermos rebaixadas ao olhar dos que rotulam essas cenas como “belas cenas de estupro”, praticando uma masturbação estética e pseudo intelectual sobre a violência reprimida e vivida pela protagonista. Culpa e máxima culpa também do diretor, com sua ambiguidade narrativa e violência sexual em tela e no corpo de seu trabalho.

Somos tão pouco críticas, vividas, atormentadas assim? Quem nunca descuidou da alma e do corpo, a ponto de sofrer um abuso e não revidar pelos meios legais? Quem não tem cicatrizes familiares que nos machucam todos os dias, que nos abusaram física e emocionalmente só porque éramos crianças de pais negligentes e violentos?

Há toda uma cultura histórica do corpo feminino presente em tela. Mas é preciso não justificar a direção como livre de vícios e não desculpar os vícios culturais do olhar daqueles que não passaram pelo que Elle, e todas nós, passamos. Vemos os filmes com olhos críticos de mulher. Por que deveria ser diferente?

Elle ou eu, ou você, ou Huppert, vamos nos ver, viver ou apenas sobreviver — apesar de nós mesmas, apesar da sociedade — em um mundo que não ama as mulheres, repleto de vaidades perversas ou masculinas.

“Acertamos um novo manifesto. Mas não tenho ilusões. Não terá mais repercussão como os outros. Os franceses não se importam mais. Para a fraternidade, para a bomba atômica, para tudo em geral. Às vezes, me dá vontade de bater o pé. Ir para Cuba, ou Mali. Positivamente, eu sonho.” – Simone de Beauvoir, A mulher desiludida


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