Milos Morpha

por Cesar Castanha

Fórumcast, o podcast da Fórum
10 de abril de 2012, 21h18

V de Vingança e a possibilidade anárquica a partir do fascismo

Introdução:
V de Vingança é uma Graphic Novel de 10 volumes escrita pelo britânico Alan Moore entre 1982 e 1989. A história é uma sátira e uma hipótese sobre como a Inglaterra estaria 10 anos após o governo de Thatcher. Traz um país fascista de 1997, onde o governo tem domínio sobre a mídia e campos de concentração para as minorias raciais e sexuais. Seu poder absoluto se apoia em instituições extremamente burocráticas, há 5 órgãos governamentais responsáveis por manter o controle: A Mão (a policia de campo), Os Olhos (responsáveis pela vigília das câmeras de vídeo espalhadas no país), Os Ouvidos (responsável pelo fiscalização das conversas via telefones), O Nariz (algo equivalente a Policia Federal) e A Boca (que controla os meios midiáticos). Destaque para A Voz da Fé, um programa de rádio que noticia ao povo aquilo que o governo quer que seja noticiado, não é de conhecimento público quem é o narrador da Voz da Fé, é de interesse governamental que as pessoas pensem ser de fato A Fé que vos fala. Em meio a este cenário surge V, um anarquista que usa a máscara de Guy Fawkes (homem que liderou a “conspiração das pólvoras”, que pretendia assassinar o rei Jaime I em 1606), que explode os símbolos do poder e mata os grandes chefões do totalitarismo, sempre deixando junto ao corpo uma flor. A história é basicamente esse conflito entre Anarquia e Fascismo, que, de acordo com o próprio Moore, foi a forma que ele achou de mostrar ao mundo que o capitalismo e o comunismo não eram os únicos pólos políticos, esses dois outros pólos muito mais fortes estavam para surgir. Assim como na maioria dos regimes fascistas, este é altamente xenofóbico, governa através de força e medo, idolatra uma liderança forte e há variados tipos de organizações estatais que disputam pelo poder ainda que seguindo o mesmo líder.
O Fascismo e a possibilidade anárquica:
V de Vingança é uma clara crítica a Inglaterra de Thatcher. O cenário dos protestos contra o governo e a reação violenta da polícia inspirou em Moore o cenário futurista de V de Vingança, onde um país que parecia ser tão estável se torna um espaço de abuso da autoridade. Na história, há uma guerra nuclear que isola a Inglaterra, causando caos e um colapso governamental de onde surge o Fascismo.
Aqui o entendimento do fascismo é o de total abdicação das suas responsabilidades pessoais. Você está entregando toda a responsabilidade pela suas próprias ações ao estado, na crença de que há força na unidade, que é o significado da palavra no seu símbolo romano do feixe de varas, representando “união e força”. Deve-se considerar a persuasão do argumento “há força na unidade”, “mas inevitavelmente as pessoas tendem a concluir que o feixe de varas seria muito mais forte se todas as varas tiverem o mesmo formato e tamanho” (Moore, 2007), que não possa haver nenhuma vara estranha ou torta que perturbe o feixe. Então vão de “na unidade há força” para “na uniformidade há força” e daí procede para os excessos do fascismo como vimos acontecer em vários países durante o século XX. Criando a crença de que a força exige uma unidade de pensamento. Portanto, há a rejeição da liberdade e individualidade, e o entendimento de ambos como luxurias, pois acreditam que ao ceder liberdade estariam entregando o povo à fome, ao caos, à morte.
Para dar força ao ideal, uma das instituições mais relacionadas ao fascismo é a religião. Assim como o fascismo é a “força na unidade”, a religião usa como princípio a “união pela crença”. Sendo o equivalente espiritual do fascismo. Impondo também o respeito através do medo, mas nesse caso, um medo espiritual e uma justiça divina. Isso está presente na obra, o estado totalitário é também religioso, eles flertam de forma a se aproximarem muito. Usemos como exemplo eventos contemporâneos, como a ascensão da direita religiosa americana desde Bush, na forma de pessoas como o próprio e Sarah Palin. O extremismo religioso americano não deixa a desejar aos mulçumanos, a consequência é um mergulho numa espécie de Guerra Santa em pleno século XXI. Não é muito diferente aqui no Brasil, apenas no ano passado a conotação religiosa na campanha presidencial mostrou o quão poderoso (e perigoso) pode ser a uniformidade da crença.
Agora a anarquia, por outro lado, praticamente começa pelo princípio de que “na diversidade há força”, o que faz muito sentido se observar o ponto de vista do mundo natural. A natureza e a força da evolução não parecem seguir a ideia de que há força na unidade e na uniformidade. Se você fala de uma espécie bem sucedida, como as abelhas. Há milhares de diferentes variedades de abelhas. Há árvores e arbustos que se diversificam tão esplendidamente que agora temos variadas ramificações dessa mesma espécie. Agora se você compara com cavalos ou humanos: “Há apenas um tipo de humano e talvez três tipos de cavalo, em termos de árvore evolucionária nós somos ramos muito vazios e desnudados.” (Moore, 2007). Todo o propósito da evolução parece apontar para a diversificação, pois na diversidade há força.
Se a teoria for aplicada num nível social, temos o anarquismo. Todos são reconhecidos como tendo suas próprias habilidades, seus próprios projetos particulares, e todos têm sua própria necessidade de trabalhar cooperativamente com outras pessoas. Então é possível que as mesmas circunstâncias responsáveis por formar pequenos grupos como famílias e amigos possam ser recriadas para obter um agrupamento mais amplo como civilização.
Um dos argumentos sociais que rejeita a anarquia é a hipótese de que com ela teríamos em consequência uma gangue que dominaria por ser a mais forte. O argumento deliberadamente ignora que já é assim que vivemos, subordinados à gangue mais forte, embora no caminho do indivíduo ao topo da gangue haja variadas instituições burocráticas que a disfarça.
E é o ideal anarquista que Moore trás constantemente na figura de V. Mas sempre dando ao leitor a liberdade para definir se o personagem está certo ou errado, por isso a verdadeira identidade de V não importa. Ele é uma ideia, exposta ao leitor, que deve abrir sua cabeça pra compreendê-la, embora não necessariamente para aceitá-la. Há muitos diálogos interessantes de V com exposição de seus ideais. Como quando ele conversa com a estátua da justiça, logo antes de explodi-la: “Por muito tempo lhe admirei… embora apenas a distância. Costumava encarar pra você das ruas quando era criança. Eu dizia ao meu pai, ‘Quem é esta dama pai?’ e ele dizia ‘É a Madame Justiça’ e eu dizia ‘Ela não é linda?’. Por favor, não pense que era meramente físico. Eu sei que você não é esse tipo de garota. Não, eu te amei como pessoa. Como um ideal. Isso foi muito tempo atrás. Temo que haja outra agora… ‘V! Que vergonha! Você me traiu com alguma prostituta de lábios pintados e sorriso fino!’ Eu, Madame? Pois foi sua infidelidade que me dirigiu aos braços dela. Ah-ha! Isso lhe surpreendeu não foi? Você pensou que eu não sabia sobre o seu casinho. Mas eu sei. Sei de tudo! Francamente, não fiquei surpreso quando descobri, você sempre teve uma queda por um homem de uniforme. ‘Uniforme? Por que? Não tenho idéia do que está falando, V. Foi sempre você, o único…’ Mentirosa! Vadia! Puta! Negue que deixou ele caminhar com você, ele como suas braçadeiras e botas! Bem, o gato comeu sua língua? Foi o que pensei. Então você foi finalmente desmascarada. Você não é mais minha justiça, é a justiça dele agora. Foste pra cama com outro. Mas não és a única. ‘Quem é ela V? Qual o seu nome?’. O nome dela é anarquia e me ensinou mais como amante que você jamais se propôs a me ensinar. Ela me ensinou que justiça sem liberdade não tem sentido. Ela não faz promessas, portanto nunca as quebra. Diferente de você, Jezebel. Adeus querida, ficarei triste com nossa despedida, mas não és mais a mulher que um dia amei.” E é a partir desses diálogos com/sobre vários ideais humanos que se constrói a consciência política da trama. 
Outro aspecto importante na história em seu diálogo com esse cenário fascista é a representação de V como um terrorista. Não é de Moore a ideia dos anti-heróis terroristas, ela está presente na ficção, e mais particularmente nos quadrinhos, desde os X-men de Stan Lee (anos 60), no qual os heróis são mutantes socialmente marginalizados que muitas vezes usam violência para exigir seus direitos. Na obra de Lee um dos personagens define o terrorismo como “o modo como o exército maior chama o exército menor”. Poderíamos levar esta frase a outros patamares: “O exército maior”, representado pelos governos no poder, não de hoje usam a guerra contra o terrorismo como arma de persuasão política. Criam o medo de um bicho papão que talvez sequer exista como suporte para um estado autoritário com o mínimo de liberdade e o máximo de controle. A justificativa é simples e clara: liberdade mínima leva a uma segurança máxima.
Neste caso, o “terrorista” V é um ex-prisioneiro dos campos de concentração do estado. Sofrendo uma série de insuportáveis torturas. O motivo de sua criminalização nunca é claro na trama, mas em vários momentos seus companheiros de prisão são apresentados como homossexuais ou “antipatrióticos”. Nisso Moore acerta em cheio a veia da sociedade atual (ainda que 30 anos depois da publicação da obra). Criminalização do homossexualismo e a guerra ao terror, que justifica matanças e torturas no oriente médio fazendo uso da bandeira patriota. Os outros passos do ambiente criado por Moore seriam a vigilância estatal e homogeneização da mídia que cobre notícias reais em favor das mais sensacionalistas.
Similarmente, “Watchmen”, outra graphic novel de Alan Moore que abriu portas para o gênero, traz heróis psicóticos e cheios de neuroses humanas que escolhem fechar os olhos quando um deles explode metade de Nova York como justificativa para salvar o mundo da Guerra Nuclear. Muitos defendem que este raciocínio foi usado 25 anos depois no 11/09, quando o governo americano teria permitido o ataque às torres gêmeas ao fechar os olhos para as várias evidências de um possível ataque terrorista, considerando a conveniência e necessidade de uma guerra naquele período em particular. Assim como V se torna uma figura conveniente para justificar o fascismo na história, pelo menos até o ponto em que o anarquista sai do possível controle do estado.
 Moore diz que uma das razões pela qual a mídia é destacada em “V de Vingança” seria a grande utilidade desta ferramenta em tiranias. “Nós a convidamos para nossas casas todas as noites, certamente alguns a consideram até como amiga.” (Moore,2004) Seria terrível crer que haja pessoas que considerem a TV como sua amiga mais íntima. E se a TV lhes disser que as coisas acontecem de jeito tal, mesmo que as evidências de seu senso de mundo lhes mostrem o contrário, estas pessoas estariam mais propensas a acreditar no aparelho de televisão. A relação entre política e TV sempre criou amizades incríveis, mas os resultados têm sido desastrosos. Supomos que surja um grande gênio político, alguém competente e capaz de cumprir seu trabalho de forma ideal. Agora vamos supor que essa pessoa seja não seja telegênica ou fotogênica. Não seríamos capazes de elegê-lo. Ao invés disso elegemos Reagan, seu governo foi responsável pela política que criou Osama Bin-Laden e Saddam Hussein, sua irresponsabilidade diante do boom da AIDS causou centenas de milhares de mortes no mundo todo. Mas ele era uma estrela de Hollywood. E isso não se manteve nos EUA dos anos 80, há 8 anos a Califórnia elegeu Schwarzenegger e no Brasil a campanha televisiva de Collor foi quase que completamente baseada na sua imagem.
Considerações Finais:
Considero “V de Vingança” especial por trazer todos esses elementos críticos de forma extremamente emocional. A obra não deixa esquecer que as pessoas sofrem com governos repressivos totalitários para além do embate material e ideológico. Somos lembrados que há grandes diferenças entre uma ideia e um homem. Não se pode beijar uma ideia, fazer amor com ela, não se pode matá-la. Uma ideia não sofre, não chora, não tem desejos, não ama, não sangra. Em uma passagem de “V de Vingança” fica claro o impacto da repressão no indivíduo. V, quando preso político, acha uma carta escondida na parede de sua cela, a carta lhe contava a história de uma mulher gay que fez de tudo durante a vida para não perder a integridade até diante da morte eminente. “[A integridade] é a última ponta que resta de nós e dentro dela somos livres”. Além do que as vinganças de V trazem uma conotação extremamente romântica. Até mesmo na figura das flores deixadas no corpo da vítima, que também remetem a mesma carta (“Sonho com o dia em que flores serão novamente plantadas”). A possibilidade ou a construção do anarquismo na trama não é, portanto, puramente material. Você pode trazer o anarquismo como o respeito a diversidade e ao indivíduo e o fascismo como o cenário atual de intolerância e ódio, assim vemos que “V de Vingança”, infelizmente, não está distante da realidade contemporânea.
Referências:
MOORE, Alan. LLOYD, David (ilustração). V for vendetta. New York: DC Comics; 2005.
GIBBONS, Davis. Watchmen, the complete motion comic. Burbank: Warner Premiere; 2009 (é o DVD que adapta Watchmen quadro a quadro, com 100% de fidelidade. Moore não quis ser creditado no projeto)
ANONIMOS. Infoshop.org. Publicado em 08/2007 [acessado em 08/09/11]. Disponível em: http://news.infoshop.org/article.php?story=2007alan-moore-interview
MTV.com. Alan Moore: the last angry man. Publicado em 04/2006 [acessado em 10/12/11] Disponível em: http://www.mtv.com/shared/movies/interviews/m/moore_alan_060315/
THILL, Scott. Salon.com. The man Who invented the future. Publicado em 07/2004 [acessado em 10/12/11] Disponível em: http://www.salon.com/2004/07/22/moore_22/

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