Milos Morpha

por Cesar Castanha

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01 de fevereiro de 2012, 21h52

Vigília Oscar 2012: Harry Potter e as Relíquias da Morte – parte 2

Em 2001, eu com oito anos, fui ao São Luis, em Recife, com meus pais para assistir um filme. Por ser um destes cinemas antigos e pelo horário já avançado optamos por começar a ver do fim para vermos o resto na seção seguinte. Aconteceu o inesperado: entrei em pânico com as cenas finais. Começado os créditos eu chorei implorando para voltar para casa, não queria ver aquele filme. Por insistência de meus pais vi mais um pedaço do início, cismei de novo com alguma cena aleatória e então, para meu alívio, fomos embora. Este foi meu primeiro contato com a saga Harry Potter.
Pouco tempo depois ganhei o primeiro livro de meu padrinho como presente de natal. Lembro de estar na casa da minha avó ao abrir pela primeira vez o tesouro, ignorante de que aquele momento mudaria minha vida para sempre. A partir de então me apaixonei por Harry Potter, ou melhor, me apaixonei por leitura. Era fascinante como um livro sem figuras lhe estimulava a criar cenários e personagens, havia uma sensação de liberdade, se eu podia ler algo tão extenso eu podia fazer qualquer coisa.
Acontece que a obra de J.K. Rowling fez mais por mim que apenas estimular a leitura. Ela me ensinou valores da vida. Lições sobre amor, amizade e até mesmo sobre a natureza da morte. E não parou com “A Pedra Filosofal”. O segundo livro enfrentou comigo o primeiro dia de aula na escola nova. O terceiro foi tomado pela professora. O quarto foi lido num final de semana no qual meus colegas viajaram com o colégio e eu não pude acompanhá-los por falta de dinheiro. O quinto me resgatou da chatice de um almoço da família na praia de Tamandaré. O sexto foi o primeiro livro que li em inglês e ao terminar o sétimo eu completava uma fase do meu crescimento. Estava pronto pra entrar no ensino médio.
Em Julho de 2011, dez anos depois dos fatos relatados no início deste texto, fui novamente ao cinema para assistir ao último capítulo da saga que definiu uma geração. Desta vez não fui no antigo Cinema São Luis, fui num cinema de Shopping, seção em 3D de meia noite, mas não tinha problemas em voltar tarde para casa, fui com meus amigos, não com meus pais e estava prestes a entrar na faculdade. Os tempos mudaram, eu mudei e Harry Potter mudou. O personagem cresceu e amadureceu comigo. Neste último filme não havia mais inocência da descoberta de um mundo novo e sim a visão dele sendo destruído sob seu olhar. E David Yates soube trazer magistralmente uma geração inteira para a tela do cinema.
Em duas horas de projeção se encerra a saga de um garoto que aos 11 anos descobre ser um bruxo e é enviado para a escola de magia e bruxaria de Hogwarts. O jovem Potter, porém, não é um bruxinho comum, ele foi responsável pela queda do maior mago da trevas de todos os tempos ainda quando bebê. O porquê é revelado já no primeiro, sua mãe morreu para que ele vivesse, este elo de amor é tão forte que deixa Harry intocável. Mas esta proteção mágica não dura para sempre e Lord Voldemort pretende voltar a sua busca por poder.
Sete anos depois o mundo bruxo está entregue as garras de Voldemort. Harry é tido como inimigo do estado e a única forma de contornar isto é destruindo as horcruxes, recepientes que guardam pedaços da alma do vilão. A batalha final é em Hogwarts, tudo termina onde tudo começou, e é um gran finale com uma direção cheia de tributo aos fãs, roteiro certeiro, bela fotografia e atuações dedicadas, parece que todos fizeram sua parte para dar ao público o que eles merecem.
É então no clímax do longa que surge uma frase para definir a série: “Você tem os olhos de sua mãe.” E PAM! Caiu a ficha. O que é Harry Potter senão uma saga maternal?  A frase foi repetida várias vezes ao longo dos 8 filmes apenas para entregar seu efeito chave no momento final. Harry é idêntico ao pai, exceto os olhos, os olhos são de sua mãe. Aqui, como no poema, os olhos verdes de Harry são espelhos  d’alma, ele tem a visão e a sensibilidade da mãe, com alguns detalhes do pai. E isso foi tão bem construído ao longo dos filmes que a cena das lembranças de Snape e a do reencontro com o espectro daqueles que partiram não parece desconexo. Foram estes os momentos que precederam a decisão de Harry de enfrentar a morte.
A morte. Uma das mais importantes personagens de toda a obra. Ela tomou seus pais, tomou Sirius, tomou Dumbledore, tomou alguns de seus amigos e constantemente tentava lhe tomar. O único modo de vencê-la é enfrentando-a. Como no conto do Beedle o Bardo, a morte não é a verdadeira inimiga, é apenas uma grande e misteriosa aventura. “Não tenha pena dos mortos Harry, tenha pena dos vivos e acima de tudo daqueles que vivem sem amor.” O próprio nome Voldemorte significa “fuga da morte”, sua relutância em aceitá-la está sempre aparente, seja tomando o sangue de unicórnio (“lhe deixa viver, mas uma vida amaldiçoada”) ou criando horcruxes (“não há nada tão horrível quanto dividir a alma”). Quando seu maior inimigo a enfrenta e vence, Voldemort perde qualquer chance de vitória, e este é o desfecho final.
Logo antes do fim Yates entrega pequenos detalhes para aquecer o coração de fãs desolados. Um sapo de chocolate que pula para dentro do trem (e não para fora como no primeiro filme) e uma última tomada na qual trilha e fotografia se unem num reconfortante fator nostalgia. Ao rolar dos créditos eu estava estático. Lembrei das amizades que construí através da saga de Rowling e lembrei de um momento enquanto assistia “A Ordem da Fênix” no cinema em que Neville fala da tortura a qual sua família foi submetida, segurei na hora a mão do meu pai, preso político durante a ditadura, que se desmanchou em lágrimas imediatamente. Foi isto que Harry Potter me deixou: uma herança de momentos mágicos.
Harry Potter e as Relíquias da Morte – parte 2 recebeu 3 indicações ao Oscar: Efeitos Visuais, Maquiagem e Direção de Arte

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