o colunista

por Cleber Lourenço

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12 de dezembro de 2019, 11h08

A guerra da água começará no Brasil?

O roteiro é semelhante ao que aconteceu na Líbia, África Central e a Subsaariana. Nestes locais, a guerra pela água se tornou muito frequente, porém o governo e a imprensa trataram de divulgar as situações como conflitos étnicos e religiosos

Campanha internacional alerta para a privatização da água pela Nestlè (Reprodução)

Metade dos brasileiros não têm acesso a esgoto e outros 35 milhões à água tratada. E, agora, quem decidirá se o município vai ter saneamento é o potencial de lucro das grandes empresas. E o povo ainda vai sentir no bolso!

Chocante, não é? A Câmara dos Deputados votou nesta quarta-feira (11) o marco legal do saneamento básico, considerado por partidos de oposição como um projeto que abre as portas para privatização da água e do saneamento.

Não é difícil encontrarmos no mundo casos e casos de conflitos envolvendo a privatização da água. Em alguns países até mesmo a coleta da chuva foi proibida!

Defendido pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, e pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia, o projeto de lei 3261/19 pode agravar a situação nas periferias e cidades no interior do país.

No entorno deste caso incomoda ver, mais uma vez, a imprensa ludibriando a população com eufemismos sem chamar o projeto pelo nome correto: privatização da água e esgoto. Usam um linguajar neutro e não fazem qualquer contextualização da questão da privatização e recente reestatização em vários lugares.

A privatização da água no Reino Unido, por exemplo, instituída em 1989 pela Margaret Thatcher, foi um desastre total. O governo escondeu um escândalo de poluição das águas para não atrapalhar o processo de privatização, o que custou a saúde e vidas de centenas de pessoas.

A questão da privatização de serviços públicos é tão problemática que inclusive há um movimento no mundo inteiro de reestatização destes serviços. Ou seja, o Brasil está indo na contramão de algo que boa parte do planeta já experimentou e sabe comprovadamente que não há como dar certo.

Temos inclusive no Brasil relatos e exemplos de reestatização, como em Itu, no interior do estado de São Paulo. Uma cidade que em 2007 concedeu 100% do serviço de água e esgoto. Em 2013, foi a primeira do Estado a ficar completamente sem água. E travou uma batalha pela remunicipalização do serviço e seu controle popular. Aos defensores do projeto, recomendo que façam um estudo da situação na cidade.

O roteiro é semelhante ao que aconteceu na Líbia, África Central e a Subsaariana. Nestes locais, a guerra pela água se tornou muito frequente, porém o governo e a imprensa local trataram de divulgar as situações como conflitos étnicos e religiosos.

A privatização da água também provocou o êxodo de milhões de indianos que foram expulsos das áreas rurais para buscar emprego nas cidades, sem conseguirem pagar pela água privatizada, que antes era gratuita.

Mais uma vez, sou levado a acreditar que há uma agenda determinada em acabar com o Brasil e a dignidade dos mais de 200 milhões de brasileiros. É difícil saber se haverá país depois de 2019.

O projeto que começou com Temer em 2018, terminou nas mãos de Rodrigo Maia com direito a apoio e comemoração de Tabata Amaral.

Durante o Fórum econômico de Davos em 2018, um debate público com a participação do Prefeito de São Paulo João Dória, do Presidente do Bradesco, do CEO do Itaú-Unibanco e do CEO da Nestlé, Paul Bulcke, desapareceu da agenda.

Mas, em um evento fora do programa oficial, um jantar fechado para convidados onde Temer fez a abertura do painel ‘Dando Forma à Nova Narrativa Brasileira’, o CEO da Nestlé estava entre os convidados, como informou a Folha de São Paulo.

Ao que tudo indica decidiram que o presidente Temer e o CEO da Nestlé não deveriam aparecer juntos em público. Afinal, a Nestlé é bem conhecida pelo seu apoio à privatização da água.

Mais uma vez repito aqui: o problema do país é a completa e total FALTA DE ESTADO! O Estado brasileiro não chega onde deve chegar e para piorar ainda atenua crises repassando suas responsabilidades para o poder privado.

Não há como isso acabar bem. Não enquanto o estado brasileiro fugir das suas obrigações, não enquanto o falacioso argumento de estado mínimo imperar em um país onde falta estado.

Pela quantidade de notícias ruins que entrego aqui sinto que estou virando uma espécie de colunista do Apocalipse brasileiro.

Boa sorte para todos nós.

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