o colunista

por Cleber Lourenço

18 de julho de 2019, 06h00

A política da truculência perdeu quatro eleições, mas infelizmente venceu uma

Cleber Lourenço: “Programas neoliberais não são a solução para a corrupção estatal nas grandes companhias que administram riquezas nacionais; não criam mais empregos; mas flexibilizam as relações de trabalho”

Foto: Pedro Ventura/Agência Brasília.

É engraçado pensar em como o mesmo projeto de agenda neoliberal rejeitado pelo voto popular, nas últimas quatro eleições presidenciais, vem sendo agora colocado em prática com tanto vigor no Brasil.

Todas aquelas questões e termos econômicos que pouco entendemos não vão bem como o esperado. O dólar, apenas citando um exemplo que nos é comum, está com a cotação muito elevada (cerca de R$ 3,77 até o dia dessa publicação) e pouco se fala disso na grande imprensa.

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Na política, até mesmo a matemática não é exata. Isso porque a relativização de números e dados é usada de tal forma que, mesmo a pior das projeções, pode parecer melhor que uma outra qualquer.

O desemprego se alastrou de forma endêmica. No entanto, o tema era muito mais comentado anteriormente. Dessa forma cria-se a ilusão de uma melhora. Cito aqui as comparações com o governo anterior, não para defendê-lo, mas, sim, para demonstrar o cenário em que se passa o jogo neoliberal.

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De fato, em termos de economia, a nós pouco interessa os complexos desenrolares do mercado. Queremos pagar nossas contas e fazer compras tranquilamente – o famoso “comer bem”. Por isso mesmo não entro em tais pormenores, até porque na existem aqueles mais gabaritados para discutir economia. A questão em foco, contudo, é que um Estado voltado ao sistema financeiro é fadado ao subdesenvolvimento social. O crescimento econômico às custas do trabalhador, através do corte de direitos trabalhistas consolidados, exploração indevida dos recursos naturais ou até mesmo imposição imperialista sobre outro povo, é um fim que não se justifica, de maneira alguma, mas que é vendido como panaceia aos trabalhadores deste país, que caem em falácias lindas no discurso e criminosas na intenção.

A produção de riqueza por qualquer comunidade, por definição, deve ser para garantir a subsistência e perpetuação dela. Essa definição básica e primitiva, entretanto, é absolutamente subvertida pelas políticas neoliberais, as quais dão aval para o que há de mais nocivo no sistema capitalista.

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Isso porque a riqueza gerada não visa à melhoria das condições de vida daqueles que produzem, seja por meio da ampliação do acesso à saúde e educação de qualidade, qualificação da mão de obra, desenvolvimento de pesquisa e ciência.

Pelo contrário, em agendas neoliberais tais perspectivas sociais são, gradualmente, transformadas em benesses mais exclusivas, de modo que só é possível alcançá-las pelo capital – o qual, obviamente, é um privilégio por si só.

A própria produção científica, por exemplo, é feita de modo a atender as exigências do mercado, seja acelerando a produção ou barateando-a. Ou seja, profissionais formados muitas vezes em universidades públicas – financiados pela população, portanto – se veem obrigados a responder aos anseios financeiros de companhias privadas, em detrimento de realizar pesquisas que procuram melhorar a condição do trabalhador dentro da cadeia produtiva, ou então repensar a produção para que não agrida o meio ambiente.

Programas neoliberais não são a solução para a corrupção estatal nas grandes companhias que administram riquezas nacionais; não criam mais empregos; mas flexibilizam as relações de trabalho. Programas neoliberais apenas ampliam o dito regime de escravidão voluntária por salário.

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Não acredita? Basta ver os ataques sistemáticos do governo na saúde, com o fim do Mais Médicos e cortes para a produção de remédios gratuitos para a população. Basta ver o desdém que o presidente possui com o desemprego no país, alegando basicamente não ser problema dele. Basta ver a forma como a educação no país é reconfigurada de forma deliberada para dificultar o ingresso dos humildes nas universidades, e a violência como política de estado nas periferias para combater a violência.

Isso enquanto o ministro da Justiça (leia-se Moro) não promove pacotes de leis que visam, principalmente, potencializar a barbárie nos subúrbios do país.

Se você ainda não entendeu, eu reforço: o trabalhador é o inimigo do Estado.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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