o colunista

por Cleber Lourenço

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26 de fevereiro de 2020, 22h48

Bolsonaro quer alargar os limites institucionais e constitucionais

Leia na coluna de Cleber Lourenço: "Se Bolsonaro agora ataca diretamente as instituições é porque se sentiu confortável para tal, já que até hoje as instituições atuaram, ou melhor, não atuaram, para conter tais arroubos"

Foto: Reprodução

Este vídeo que ele compartilhou foi de caso pensado.

Eu já alertei na semana passada que Jair Bolsonaro se prepara para um eventual processo de impedimento.

Aos poucos o presidente parte para o tudo ou nada. E, nesse contexto, um processo de impeachment serviria para esquentar ainda mais os ânimos das milícias que o movimento bolsonarista está fomentando dentro dos quartéis da PM de todo o país, o que poderia piorar as coisas.

Ele sabe que o que fez é crime de responsabilidade, ele já cometeu uns 10.

Porém, agora, decidiu avançar de forma frontal contra a República.

A Constituição é clara:

Art. 85. São crimes de responsabilidade os atos do Presidente da República que atentem contra a Constituição Federal e, especialmente, contra:

II – o livre exercício do Poder Legislativo, do Poder Judiciário, do Ministério Público e dos Poderes constitucionais das unidades da Federação.

A verdade é que Jair passou um ano testando os limites de seus ataques contra a Constituição no alambrado da delinquência institucional.

Seus filhos seguiram o mesmo caminho. Paulo Guedes e Eduardo Bolsonaro pediram até mesmo um novo AI-5, sem que nada lhes acontecesse.

Se Bolsonaro agora ataca diretamente as instituições é porque se sentiu confortável para tal, já que até hoje as instituições atuaram, ou melhor, não atuaram, para conter tais arroubos. Foi gritante a complacência dos poderes.

A intentona inconstitucional do presidente deveria ter sido barrada quando ele determinou que militares comemorassem do golpe de 1964. Ali ele já mostrava que não tinha qualquer apreço pela República.

Outro momento grave foi quando ameaçou prender o jornalista Glenn Greenwald por conta de seu trabalho.

Paulo Guedes e Eduardo Bolsonaro também não sofreram qualquer tipo de sanções quando falaram do AI-5.

E mais uma vez Bolsonaro testará os limites da delinquência institucional.

Não, Bolsonaro não dará um golpe, caso tente. Não terá êxito.

O que o presidente e sua trupe buscam é esgarçar os limites constitucionais e institucionais.

Algo que na minha opinião é mais grave. Pois em um golpe existe uma ruptura democrática, todos os limites são rompidos, fica flagrante que o alambrado democrático foi derrubado.

O que está acontecendo agora é diferente, é um alargamento do espaço de manobra institucional, o objetivo é normalizar esse tipo de comportamento para que outras atitudes piores passem a ser aceitáveis.

De tal modo que uma eventual ruptura seja encarada apenas como uma mudança de regime.

Indisciplina na tropa? Normal. Ameaçar jornalistas e perseguir veículos de imprensa? Normal. Permitir execuções em praça pública? Normal.

É como o poema “Primeiro levaram os negros” do dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956).

Primeiro levaram os negros

Mas não me importei com isso

Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários

Mas não me importei com isso

Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis

Mas não me importei com isso

Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados

Mas como tenho meu emprego

Também não me importei

Agora estão me levando

Mas já é tarde.

Como eu não me importei com ninguém

Ninguém se importa comigo

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum


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