o colunista

por Cleber Lourenço

09 de junho de 2019, 23h15

Lava Jato: O mecanismo foi desmontado

Cleber Lourenço: Não tem mais como correr. Eles que atuaram como Harry Houdini para desviar a atenção do público, agora possuem todos os holofotes apontados para o circo que eles mesmos montaram.

Dallagnol e Sergio Moro (Foto: Divulgação)

Pelo visto todas as pessoas foram enfim colocadas na mesa. Na reta final do domingo o portal The Intercept Brasil publicou uma série de conversas de figuras-chave para a operação que tem como único objetivo desmontar a República e alienar o país.

Agora não tem mais como correr. Eles que atuaram como Harry Houdini para desviar a atenção do público, agora possuem todos os holofotes apontados para o circo que eles mesmos montaram.

Indícios não faltaram. Ainda em 2018, Mourão, atual vice-presidente da República, foi taxativo em informar que o então juiz federal Sergio Moro havia sido convidado para o Ministério da Justiça do até então candidato Jair Bolsonaro, isso em plena campanha eleitoral. Dias depois Moro retirou o sigilo da delação de Antônio Palocci. Um fato estranho e assustador, mas que seria apenas o conjunto de outros episódios que culminaram nas revelações do último domingo (9).

Dois meses antes da revelação de Mourão, um outro fato também envolvendo o general da reserva já havia causado estranheza. Em agosto de 2018 o notório juiz Thompson Flores, desembargador do TRF4, conhecido por ser um dos responsáveis pela prisão do ex-presidente Lula, decidiu em plena campanha eleitoral participar de um evento com o general Mourão no clube militar, isso tudo sob uma intensa troca de elogios e gentilezas entre o juiz responsável por prender o primeiro lugar nas pesquisas e o candidato à vice-presidência da chapa em segundo lugar nas pesquisas.

Qualquer país minimamente sério e comprometido com a Justiça, com um poder judiciário e um STF empenhados na defesa incondicional da Constituição, já teria dado fim para toda a intentona de extrema-direita. Porém, assim como em 64, a justiça deu aval e foi conivente com a atrocidade.

Já falei mais de uma vez em meu Twitter: era gritante a forma como a Lava Jato sempre tabelou com o atual Poder Executivo, antes e depois de assumirem o governo para movimentar de forma truculenta o curso da história do país. Se alguma vez na história brasileira existiu alguma “força oculta” ela se revelou na não tão oculta Lava Jato.

O projeto de poder deles é um só: assumir o país, se constituírem em uma força política, fora da política. Se não podem ganhar pelas urnas, então o atalho tomado será pelas togas.

Entre os vazamentos está um trecho interessante onde o procurador Athayde Ribeiro Costa sugere que a PF autorizasse a entrevista do Lula, porém, para depois das eleições. Sim, aquela famigerada entrevista que causou tumulto no meio político ano passado. A observação do procurador me chama a atenção para um fato: estaria ele sugerindo esta alternativa por saberem que haverá membros da conspiração não só no poder judiciário como também na política federal? Quem seria a “quinta-coluna” dentro da PF?

Em outro trecho o contundente procurador Deltan Dallagnol deixa claro que nem ele mesmo tem certeza se haveria de fato algum indício de crime concreto para acusar Lula. Se o pífio Power Point não bastou, segue o trecho abaixo, onde Dallagnol declara para um grupo de procuradores:

“Falarão que estamos acusando com base em notícia de jornal e indícios frágeis… então é um item que é bom que esteja bem amarrado. Fora esse item, até agora tenho receio da ligação entre petrobras e o enriquecimento, e depois que me falaram to com receio da história do apto… São pontos em que temos que ter as respostas ajustadas e na ponta da língua”.

Sim, eles não tinham certeza do que estavam fazendo, só sabiam que queriam prender Lula. O desespero era para que o caso envolvendo o famoso triplex fosse para Curitiba e não para São Paulo, onde ficaria longe de Sergio Moro.

Algo gritante e escandaloso. Ainda há uma série de diálogos já revelados e que ainda serão divulgados, mas a pergunta que faço agora é: há como negar que a Lava Jato é uma operação de “atalhos” para o poder?

Outro ponto que os vazamentos deixam evidentes é o conflito entre os lavajatistas e os ministros do STF que, por mais coniventes fossem, ainda geravam incômodos para o grupo de conspiradores.

Como no episódio da Crusoé. Quem vazou a delação que atingia Toffoli para a revista?

Há um ligeiro interesse do Partido Lavajatista em dinamitar o STF. Afinal de contas, o partido que busca eliminar toda e qualquer atividade política hostil aos seus interesses, primeiro, vê no STF o impeditivo para que ainda não ocorresse uma verdadeira caça às bruxas na classe política, independente de prova, crime ou culpa.

Agora é que as coisas ficam mais interessantes. Ainda em março o STF havia informado que iria investigar possíveis agitadores contra o Judiciário, entre eles estava Deltan Dallagnol. Acontece que o mesmo Deltan, na mesma semana, também tomou outra invertida do STF.

Após tentar abocanhar o fundo bilionário da Petrobras, o ministro Alexandre de Moraes concedeu liminar para suspender o acordo firmado entre a empresa e procuradores da força-tarefa da Lava Jato.

Além disso ele também determinou o imediato bloqueio de todos os valores depositados pela Petrobras. Na ocasião a decisão teria sido tomada a pedido da procuradora-geral da República (PGR), que recorreu à Corte contra a criação da fundação.

E melhor ainda! O mesmo Alexandre de Moraes que barrou o fundo bilionário é o mesmo que “censurou” a revista Crusoé, a mais nova queridinha da extrema-direita brasileira.

Ou seja, o Partido Lavajatista encurralou o ministro e o STF. Colocou todos onde queria e, então, apenas assistiu a magia acontecer, a fritura pública do STF com a censura não poderia ter vindo em melhor hora, nem se Deltan pedisse sairia tão bom.

No final a arapuca dos lavajatistas contra o STF ficou assim:

As informações prestadas por Marcelo Odebrecht sobre quem era o “amigo do amigo do meu pai” estão ou estavam em uma delação enviada à Polícia Federal no início de abril.

Porém a controversa “delação” divulgada pela Crusoé está desaparecida dos autos desde o dia 12.

Tal afirmação não comprova a participação do ministro em uma conduta irregular, mas serviu para inflamar setores da sociedade, como todo bom vazamento lavajatista.

A PGR diz não ter o documento, uma vez que nunca teria saído da Polícia Federal de Curitiba.

O Partido Lavajatista contou com a prepotência e arrogância dos ministros e acertou em cheio. Logo, o resumo da confusão toda é isso: o STF nunca esteve preocupado com o combate contra as fake news, se omitiram em 2018 e seguirão se omitindo. Por outro lado, a Crusoé que tem como grande público apoiadores da ditadura militar brasileira, sentiu o gosto de 64 na prática e não gostou do sabor amargo.

Embora não tenham conseguido botar as mãos no fundo bilionário da Petrobras graças ao STF, a propaganda, pompa e opulência seguem de maneira irrefreável, agora até mesmo propaganda “eleitoral” a operação decidiu fazer via decisão judicial, uma vez que ficaram sem o fundo bilionário.

A concessionária Rodonorte, que opera parte do pedágio nas rodovias do Paraná, firmou um acordo de leniência com o Ministério Público Federal. Além do “desconto” de 30% na tarifa, a empresa terá que veicular uma propaganda da Lava Jato. A propaganda que será entregue terá o seguinte texto:

“O valor do pedágio foi reduzido em 30% [ou percentual aplicado no momento] porque recursos provenientes de corrupção foram recuperados pela Operação Lava Jato e aplicados em benefício do usuário”.

Notem que o o acordo é assinado pela equipe de Deltan Dallagnol. O mesmo que está desesperadamente tentando se projetar com vídeos no YouTube, Twitter e o que mais estiver ao seu alcance. Até o mais leigo em leis, me enquadro neste grupo, sabe o que é isso: crime de improbidade administrativa.

Acha conspiração? Então, me diga: como é que na iminência de um novo julgamento do presidente Lula e com o baile que tomaram no STF, vaza uma suposta delação que sequer estava com a PGR onde o principal atingido era o presidente do Supremo?

Quando iniciamos nosso retorno para a democracia, após 21 anos de ditadura, consolidamos as leis e dispositivos legais para evitar que o Legislativo, o Executivo ou as Forças Armadas degolassem novamente a Constituição, as leis e a democracia. Tudo isso com a fé inabalável de que o Judiciário seria o garantidor da ordem democrática. Falhamos.

Se isso não tiver um fim, prepare-se para o guarda da esquina, parafraseando Pedro Aleixo.

A Lava Jato é um partido e a hora que este grupo tomar o poder, aaaah, então prepare-se que a verdadeira calamidade vai começar.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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