o colunista

por Cleber Lourenço

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04 de julho de 2019, 06h55

Moro: de moderado ao extremismo

Cleber Lourenço: “Se antes era reservada a ele a possibilidade de concorrer à presidência como uma alternativa coesa e moderada ao bolsonarismo, agora só lhe resta incorporar o que há de pior na política brasileira"

Foto: Pedro França/Agência Senado

Quando Moro foi anunciado ministro do governo que ajudou a eleger, muitos jornalistas e analistas políticos cravaram que o ex-juiz seria a voz da moderação dentro do governo, um sopro de sensatez e que seria bom mantê-lo por lá.

Em meu twitter, ainda em março, comentei sobre o pacote pró-barbaridade, assim como em outras diversas vezes alertei sobre o fato de que a “sensatez” do atual ministro da Justiça não duraria por muito tempo. Tanto é que em março eu disse:

Moro como uma criança empolgada com seu primeiro desenho decidiu fazer pressão para a aprovação do seu pacote anticrime (conhecido também como pacote da barbaridade), provocou Maia até deflagrar outro bate-boca, agora com o presidente da Câmara”.

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Aquela euforia que provocou Maia e terminou com a prisão de Temer era a luz amarela acendendo. Reafirmo o que agora parece se tornar surpresa para muitos, mas nunca deixou de ser algo corriqueiro para este colunista. Aqui mesmo para a Revista Fórum eu já havia falado sobre a prepotência do ministro e eu  já havia alertado de que na Lava Jato não seria a primeira vez que o ministro avançaria com agressividade contra o Estado democrático de direto e a sensatez.

Acha exagero? Vamos lá. São duas hipóteses: ou Moro é um juiz que sequer sabe interpretar o Código Penal ou ele quer jogar fogo no país. Tudo que ele diz querer liberar no suposto pacote anticrime (que eu chamo de pacote pró-barbaridade) já está previsto nos artigos 23 e 25 precisamente. O pior é que eu sou um leigo em Direito e preciso dizer isso: MORO QUER A BARBARIDADE!

Moro dividiu seu pacote em três diferentes projetos que serão analisados pelo Congresso. Uma das propostas é que juízes podem reduzir a pena à metade, ou deixar de aplicar qualquer sanção, em casos de policiais que matam em situações de “escusável medo, surpresa ou violenta emoção”.

O que é extremamente preocupante! Segundo um levantamento feito pelo G1 em abril deste ano, o Brasil teve no ano passado 6.160 pessoas mortas por policiais, significando um crescimento de 935 em relação a 2017.

Nós já temos uma das policias mais letais do planeta e o que Moro quer é que esse número aumente. Impunidade dos homicídios realizados por agentes de segurança também é uma constante neste país.

Os policiais que executaram e torturaram Amarildo sabem disso. Os soldados que deram mais de 80 tiros em um carro de família e que mataram duas pessoas inocentes também sabem disso. Então, o que Moro pretende com isso?

Durante a audiência desta última terça-feira (2) ficou ainda mais claro essa aproximação com o extremismo de direita. Conforme as revelações do The Intercept Brasil e jornalistas de todo o país fecham o cerco contra o ex-juiz, mais próximo de Jair e seus lunáticos Moro se aproxima. É aquela velha frase: os extremistas têm problemas para perceber que estão errados.

A beligerância e os acenos aos malucos de plantão do PSL que estavam presentes na audiência mostram isso. A forma como ataca o jornalista Glenn Greenwald e qualquer outro portal que o acuse também.

Durante a audiência, Moro que foi encurralado pela oposição decidiu apelar para teorias conspiracionistas, dignas do “acepipe” da Virgínia, e sugeriu que as revelações que vieram a público eram parte de uma complexa trama para acabar com a Lava Jato.

A atitude também é algo corriqueiro do Partido Lavajatista. Sempre que são apontados os abusos da operação eles dizem: “ESTÃO QUERENDO ACABAR COM A LAVA JATO”.

Caso as denúncias envolvendo Moro e a Lava Jato levem o ministro e o seu “partido” (ou operação Lava Jato), veremos um Moro em um extremismo pungente, com atitudes cada vez mais erráticas.

Mas uma coisa é fato: o castelo de cartas do ministro desmoronou. Se antes era reservada a ele a possibilidade de concorrer à presidência como uma alternativa coesa e moderada ao bolsonarismo, agora só lhe resta incorporar o que há de pior na política brasileira.

E a caminhada de Moro rumo ao extremismo começou: Afinal, o que é o pedido da PF ao Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), ainda sob o comando de Moro, para investigar se Glenn Greenwald, do site The Intercept Brasil, se não mais um degrau na escalada do autoritarismo no Brasil?

É assim que Moro quer entrar para a história?

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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