o colunista

por Cleber Lourenço

31 de julho de 2019, 06h00

Não se empolguem com Mourão

Cleber Lourenço: “Mourão é representante de um dos três grupos que disputam a cadeira vaga de presidente da República, em uma espécie de “Game of Thrones” tupiniquim”

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Em tempos em que a carta do impeachment volta à mesa da política nacional, é preciso ter cuidado e cautela para não cair no canto da sereia.

Opiniões progressistas, inimigo número um do filho 02 do presidente Jair Bolsonaro, defensor ávido dos direitos das mulheres pelo aborto e outros selos de campanhas e pautas não só da esquerda, como também de liberais no Brasil e mundo à fora.

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Seria Mourão um comunista infiltrado? Um adepto do quinta-colunismo pronto para implodir o governo?

Em tempos de um Brasil governado pela imprudência, ignorância e insensatez, qualquer brisa mais razoável já causa frescor.

Porém, a resposta é não. Mourão é inteligente, muito mais que Bolsonaro, possui melhor e maior formação que o paraquedista. Mas, então, o que ele está fazendo? Desarmando o adversário.

Carlos, mesmo certo quando apontou a perspicácia do vice, conduziu a situação toda de maneira extremamente desafinada e atrapalhada, o que lhe colocou na boca do lobo, custando a sua já praticamente inexistente credibilidade. Porém, ele não está errado. Mourão é a raposa no galinheiro.

Mourão viu que essa conversa toda de “extrema direita” não acabará bem. Como vice-presidente, ele sabe exatamente dos pormenores da política e melhor que ninguém. Sabia que o estilo de Bolsonaro seria como o Titanic indo ao encontro de um iceberg. Por isso, decidiu ir na direção oposta.

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Se Bolsonaro é truculento, ele é gentil. Se Bolsonaro odeia X, então ele ama X e assim vai. Mas não podemos esquecer que por um bom tempo Mourão foi o queridinho dos ultraliberais e da extrema direita deste país, com falas e frases em episódios no mínimo polêmicos.

Em 2015, Mourão organizou um evento em homenagem ao coronel Ustra, o principal torturador da ditadura militar. Três anos depois, durante entrevista, defende o homicida e torturador Brilhante Ustra com a frase “heróis matam” e ainda completou:

“Carlos Alberto Brilhante Ustra foi meu comandante quando eu era tenente em São Leopoldo. Um homem de coragem, um homem de determinação que me ensinou muita coisa”.

Em setembro de 2018, também atacou os direitos dos trabalhadores, como salário mínimo e 13°. Chegou a ser desautorizado até mesmo por Bolsonaro por conta da declaração.

O mesmo Mourão, que hoje afirma que o aborto é uma discussão unicamente das mulheres, afirmou ainda ano passado que casa só com ‘mãe e avó’ é ‘fábrica de desajustados’ para o tráfico.

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Mourão também coleciona declarações racistas, como quando afirmou o Brasil errou ao aliar-se à ‘mulambada’ na África e América Latina.

Até mesmo o Mourão que agitava as tropas e pedia uma ação militar contra o Planalto desapareceu. No lugar, nasceu um homem republicano, cordial com a imprensa e disposta a sentar para conversar com a oposição.

Ao lado de um troglodita como Jair Bolsonaro, Mourão apenas precisa mostrar que sabe usar talheres.

Acontece que perto de Bolsonaro, qualquer um que discorde dos impropérios e barbaridades do presidente será um progressista.

A inteligência do vice-presidente preocupa Carlos Bolsonaro, que paulatinamente publica alguma acusação contra o vice de seu pai.

A preocupação tem um fundo de verdade. Durante uma entrevista para o site The Intercept, o general da reserva conhecido como Assis disse:

“O Mourão vai ser presidente da República”. Em 2022 ou antes – caso “algo” aconteça com Bolsonaro. “Tudo pode acontecer. Ele é o vice, é o único que foi eleito. Os ministros todos podem sair, ele não. Vai ficar até o último dia”,

O general truculento deu espaço para um militar republicano e já percebeu que o governo Bolsonaro não concluirá o mandato. Por isso, busca apoio popular das camadas mais moderadas e à esquerda da sociedade para desarmar críticas e resistência de opositores. Além de ser bem visto pela mídia.

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Mas engana-se se acham que Mourão irá ser quem derrubará o governo. Na verdade, Mourão apenas se prepara para aquilo que aparentemente se tornou uma realidade. O fim do governo Bolsonaro.

Com o desemprego subindo como uma epidemia e o flagrante desdém que Bolsonaro tem das questões nacionais, em detrimento de picuinhas na internet, fica claro para qualquer um que o governo respira por aparelhos.

Mourão é representante de um dos três grupos que disputam a cadeira vaga de presidente da República, em uma espécie de “Game of Thrones” tupiniquim. De um lado temos o Partido Lavajatista, do outro os militares e, por fim, os tresloucados bolsonaristas embebidos no mais torpe olavismo.

Isso é triste. Mas, talvez, uma frase da ex-presidente Dilma Rousseff explique o momento atual:

“Não acho que quem ganhar ou quem perder, nem quem ganhar nem perder, vai ganhar ou perder. Vai todo mundo perder”.

Essa gente vai brigando e o país desmoronando.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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