o colunista

por Cleber Lourenço

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09 de agosto de 2019, 09h47

O DOPS e a sua violência voltaram

Reuniões invadidas, policiais parando shows, censura em comerciais e normalização da tortura e assassinato pelas forças de segurança pública ao redor do país, qualquer semelhança com a ditadura de 1964 não é mera coincidência

(Orlando Britto/ Reprodução)

O Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) foi um órgão do governo brasileiro criado em 1924 e utilizado principalmente durante o Estado Novo de Getúlio Vargas e mais tarde na Ditadura Militar com o objetivo de perseguir e reprimir qualquer expressão política contrária ao regime instaurado. Depois da década de 80, com o fim da ditadura militar o departamento foi extinto no país. Mas aparentemente há quem queira a sua volta e aos poucos promova isso.

Reuniões invadidas, policiais parando shows, censura em comerciais e normalização da tortura e assassinato pelas forças de segurança pública ao redor do país, qualquer semelhança com a ditadura de 1964 não é mera coincidência.

A posse de Jair Bolsonaro, um candidato que ganhou com uma campanha presidencial com discurso de ódio contra minorias e exaltação à ignorância e violência, serviu como uma espécie chancela da brutalidade para qualquer cidadão predisposto a militar pelo o que há de mais absurdo no país. Acha exagero?

Em abril deste ano o fazendeiro Shigueo Shimura foi julgado por posse ilegal de arma de fogo e munição, durante o julgamento ele justificou sua conduta com o seguinte argumento: “Bolsonaro disse que pessoas de bem poderiam ter uma arma”.

Infelizmente dá mesma forma que o discurso de Bolsonaro contaminou a camada civil da sociedade, ela também contaminou a segurança pública que historicamente sempre foi adepta da brutalidade de maneira informal, agora elas ganham um verniz de “legalidade “.

No final de julho durante uma cerimônia com a presença do governador do Pará, Helder Barbalho (MDB-PA), a unidade de elite da PM gritou cantou:

“Arranca a cabeça e deixa pendurada/É a Rotam patrulhando a noite inteira/pena de morte à moda brasileira”.

Tudo na mais perfeita normalidade de quem diz algo corriqueiro. A verdade é que esse tipo de obscenidade sempre existiu, porém de forma mais discreta, até com certo constrangimento. Com isso fica difícil distinguir a diferença entre a Rotam no Pará e a facção criminosa local Família do Norte.

Infelizmente esse tipo de grito que teria deixado qualquer país minimamente sério perplexo encontra abrigo no próprio presidente da República que, em agosto de 2003, fez questão de elogiar grupos de extermínio que atuavam na Bahia matando cidadãos de maneira deliberada:

“Enquanto o Estado não tiver coragem de adotar a pena de morte, o crime de extermínio, no meu entender, será muito bem-vindo. Se não houver espaço para ele na Bahia, pode ir para o Rio de Janeiro. Se depender de mim, terão todo o meu apoio”.

Na verdade este seria o primeiro momento onde Bolsonaro poderia ter saído do congresso algemado, caso nossas instituições fossem comprometidas de fato com a construção de um país sério e uma democracia sólida. Não aconteceu e então tivemos um deputado federal defendo grupos criminosos e saindo impunemente, quem não vê problema na atitude não deveria se chocar caso algum dia algum deputado use a tribuna para homenagear o PCC ou até mesmo Marcola, líder máximo da organização criminosa.

Mas a escalada autoritária no país não se resume apenas a polícia sedentos por uma carnificina e fazendeiros confusos. Aos poucos o direito de livre manifestação.

Nos últimos 30 dias reuniões, eventos e shows foram invadidos por agentes e segurança e “monitorados”.

No dia 23 de julho, durante a 71ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), um militar fardado gravou e fotografou participantes reunidos em auditório da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), em Campo Grande.

No mesmo dia três agentes da Polícia Rodoviária Federal entraram na sede do Sinteam (Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Estado do Amazonas), em Manaus. O motivo? No local ocorria uma reunião de movimentos sociais que organizavam um protesto contra o presidente Jair Bolsonaro (PSL), que iria visitar a cidade no dia seguinte.

Com a clara intenção de intimidar, os policiais portavam armas e afirmaram agir por ordem do Exército e fizeram perguntas sobre os líderes da manifestação e as organizações envolvidas na iniciativa.

Três dias após os ocorridos acima, no dia 26 de julho, um jovem esquizofrênico foi chicoteado no Complexo do Chapadão, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Policiais militares torturaram o garoto repetidamente com um fio, tudo porque queriam informações sobre outros homens, o que ele não conseguiu dar tendo em vista suas limitações. O que motivou a tortura. Em qualquer lugar do mundo o país já teria também parado, aqui infelizmente não.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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