o colunista

por Cleber Lourenço

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28 de junho de 2019, 06h00

O integralismo quer voltar para as urnas

Cleber Lourenço: “Em um momento em que a extrema direita e os súditos do eixo retornam ao tabuleiro do jogo geopolítico mundial, seria irresponsável não ver o quão preocupante é a articulação deste grupo”

Foto: Reprodução

Era 1930 e o partido nazista crescia na Alemanha com a mesma força que Mussolini havia adquirido na Itália – e os governos fascistas também eram uma realidade em Portugal e na Espanha. A doutrina de extrema direita, ultraconservadora, ia aos poucos ganhando forma, poder e logo toda a Europa seria tomada, seja pelo movimento de massas, seja pela guerra.

No Brasil não poderia ter sido diferente. Importando a ideologia diretamente de Portugal, Plínio Salgado fundou em 1930 a Ação Integralista Brasileira. Embora tenha sido também predominantemente inspirada pela Doutrina Social da Igreja Católica, tinha em comum alguns aspectos do estatismo modernista fascista, porém pintados com cores de “republicanismo”.

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Durante quase dez anos o movimento participou da base de sustentação do governo Vargas, até que em 1938 uma série de tentativas de golpe fracassadas contra o governo, que anos antes apoiaram, terminaram com a prisão, morte e exílio de diversos líderes e membros da organização fascista no país. Além disso, quatro anos antes, o movimento também havia levado outro revés, quando anarquistas, comunistas e sindicalistas se uniram em torno de uma frente única antifascista, que derrotou-os em uma batalha na Praça da Sé (SP), obrigando os integralistas a fugirem jogando suas camisas para o alto para não serem identificados. O episódio ficou marcado como revoada das galinhas verdes.

De golpe em golpe o Integralismo sobrevive

Em 1937, quando dirigia o serviço secreto da Ação Integralista Brasileira, o General Olímpio Mourão Filho redigiu um documento de circulação interna que simulava um plano comunista de tomada de poder no Brasil. Denominado Plano Cohen, algumas cópias foram “convenientemente” parar nas mãos do Exército brasileiro e da imprensa, o que facilitou a implantação da ditadura de Getúlio Vargas.

Em 1964, o fundador do Integralismo Brasileiro já havia fundado o Partido de Representatividade Popular (PRP) e sido eleito deputado pelo estado de São Paulo, assim como uma série de deputados do seu partido.

Uma CPI revelou uma lista de 111 deputados que tiveram suas campanhas financiadas pelo órgão de inteligência dos EUA. Estavam na lista Aécio Ferreira da Cunha (pai de Aécio Neves), direitistas como Plínio Salgado, Padre Godinho e Amaral Neto, além de Mário Covas.

Alguns meses depois, Mourão seria o responsável por deflagrar o golpe de 1964. Na manhã do dia 31 de março de 1964, ele avisou para todo o Brasil: “Minhas tropas estão na rua!”. Na noite do mesmo dia ordenou que soldados da 4ª Divisão de Infantaria, que comandava em Juiz de Fora, seguissem para ocupar o estado da Guanabara, atual cidade do Rio de Janeiro.

Durante o golpe militar, Plínio Salgado ainda teria se filiado ao partido da ditadura, a Arena, e Mourão seguido nas Forças Armadas.

Vale lembrar que em 2014, no dia dos 50 anos do golpe militar, o então presidenciável tucano, Aécio Neves, participou de um evento com uma série de empresários em São Paulo. Muitos deles, inclusive, ajudaram a financiar o golpe de 1964. O que muitos não sabem, no entanto, é que a ligação entre a família do atual deputado mineiro e os golpistas é antiga.

Além de ser neto de Tancredo Neves, por parte de mãe, o tucano também descende de outra oligarquia política mineira, por parte de pai. Tristão Ferreira da Cunha, seu avô, foi deputado pelo PR de 1946 até 1963 e apoiou o golpe de 1964.

Seu pai, Aécio Ferreira da Cunha, por sua vez, também apoiou o regime militar sendo deputado pela Arena, PDS e PFL, em um período que vai de 1962 a 1986. Após o golpe, seu avô assumiu a presidência do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE).

O retorno dos fracassados

No início dos anos 2000, integralistas tentariam se organizar novamente no PRONA do falecido Enéas. Foram não somente entusiastas do partido como, efetivamente, compuseram-no em diversos níveis e em processos eleitorais.

Em 2002. quando Enéas Carneiro foi reeleito para deputado graças a imensa votação, o reeleito deputado pôde levar mais alguns candidatos, inclusive integralistas. Como Elimas Damasceno, que, inclusive durante sua legislatura, discursou sobre o integralismo na Câmara.

Essa parceria não duraria muito e acabaria em 2006 junto com a dissolução do PRONA.

Com o passar dos anos, o movimento foi dado como extinto e vivia apenas ideologicamente através de grupos envolvidos em ações criminosas, como os Carecas do Brasil e Carecas do ABC, e, apesar de ser recriado em 2005, só foi retomar os holofotes em 2014, com a reedição da Marcha da Família, que fracassou em todo país, a partir da formação de diversas frentes antifascistas em todos os espaços do país.

Na ocasião, bandeiras com o sigma foram vistas em diferentes estados onde a marcha se fez presente, em ações posteriores. Um dos diversos blogs do movimento até exalta a presença de Bolsonaro no movimento.

Retornando para as urnas

Ainda em 2010, a Frente Integralista Brasileira (FIB) lançou uma nota de indicação de candidatos para as eleições legislativas daquele ano, contendo os seguintes nomes:

Professor Hermes Nery: Filiado ao PHS, natural de Curitiba, foi definido pela organização como:

”Presidente da Câmara dos Vereadores desta bucólica e tradicional cidadezinha da Serra da Mantiqueira, na região do Vale do Paraíba, que tem a honra de ser a terra natal de Plínio Salgado e de Miguel Reale, o Professor Hermes Nery é o principal responsável pela transformação de tal Município no primeiro Município Pró-Vida do Brasil”

Coronel Paes de Lira: Na ocasião era filiado ao Partido Trabalhista Cristão (PTC) e suplente de Clodovil Hernandes, após sua morte. Foi definido pela organização como:

“O Coronel Paes de Lira, da Polícia Militar de São Paulo – a tradicional Força Pública Paulista de tão gloriosa história – tem se destacado como nenhum outro Deputado Federal na luta contra o III Programa Nacional de Direitos Humanos, o famigerado PNDH-3, bem como contra o aborto, a legalização das drogas e outras aberrações que os inimigos do Brasil querem ver aprovadas neste País”.

Doutor Wilson Leite Passos: Filiado ao DEM, era conhecido por desfilar pelas ruas do Rio, no século passado, portando uma pistola nazista.

Dois anos depois, em uma nova nota, o grupo lançaria uma lista um pouco mais “robusta’ de supostos candidatos que segundo eles mereceriam o “sufrágio integralista”:

HERMES NERY: PREFEITO – SÃO BENTO DO SAPUCAI (SP) – 31 PH

TALMIR: PREFEITO – PRESIDENTE PRUDENTE (SP) – 43 PV

HENRIQUE AFONSO: PREFEITO – CRUZEIRO DO SUL (AC) – 43 PV

MORONI TORGAN: PREFEITO – FORTALEZA (CE) – 25 DEM

BETH MELO: VICE-PREFEITA – PETRÓPOLIS (RJ) – 12 PDT

CEL. PAES DE LIRA: VEREADOR – SÃO PAULO (SP) – 25045 DEM

CELSO CARVALHO: VEREADOR – NOVO GAMA (GO) – 15123 PMDB

WILSON LEITE PASSOS: VEREADOR – RIO DE JANEIRO (RJ) – 11611 PP

LUIS BASSUMA: VEREADOR – SALVADOR (BA) – 15333 PMDB

RODOLFO VALENTE: VEREADOR – CIDADE OCIDENTAL (GO) – 55100 PSD

DÓRIS HIPÓLITO: VEREADORA – NILÓPOLIS (RJ) – 70777 PT do B

LEANDRO PANDA: VEREADOR – VOLTA REDONDA (RJ) – 20121 PSC

ERIC GOTTMANN: VEREADOR – CAMPINAS (SP) – 55757 PSD

EDUARDO THOMAZ: VEREADOR – MAIRINQUE (SP) – 11123 PP

FÁTIMA LEITE: VEREADORA – FORTALEZA (CE) – 28123 PRTB

Na reeleição de Dilma Rousseff o grupo se manteve mais cauteloso não fazendo qualquer indicação.

Um novo “lar”

Agora, quatro anos mais tarde, o atual “chefe” do movimento, Victor Emanuel Vilela Barbuy, foi flagrado em sucessivas aproximações com o líder e fundador do PRTB, Levy Fidelix.

No início de janeiro do ano passado, Victor tornou pública a amizade e proximidade com Levy Fidelix. Na ocasião os presidentes das agremiações de direita realizaram uma reunião em Campos de Jordão, cidade do interior paulista. O tema do encontro não foi revelado, mas muitos já imaginavam o que estava por vir.

Alguns meses depois um novo encontro foi registrado, ano passado em agosto. Com um clima mais “sóbrio” e menos descontraído, Victor entregou o livro: “O pensamento revolucionário de Plínio Salgado”, que tem como principal foco contextualizar o integralismo nos tempos atuais e também discutir alguns conceitos fundamentais da doutrina do sigma.

Começava a ser desenhado um caminho nas urnas para que o integralismo voltasse. Ainda que não declarado, as sucessivas aproximações se tornariam mais constantes, até que, em setembro do ano passado, o “chefe” dos integralistas declarasse abertamente seu voto em Levy Fidelix.

A declaração já era esperada, uma vez que é comum ver Victor como cabo eleitoral de Levy durante as caminhadas pelo estado de São Paulo. Victor, inclusive, esteve presente à última convenção nacional do partido, ocorrida em agosto de 2018.

A página do movimento também lançou dois vídeos onde os candidatos do PRTB, Dr. Rodrigo Tavares e Levy Fidelix, agradecem o apoio e fazem considerações acerca do Integralismo:

Não seria a primeira vez que o PRTB se envolve com grupos de extrema direita, em especial, aqueles ligados ao integralismo.

Em 2015, o partido esteve envolvido com a criação do grupo de extrema direita Frente Nacionalista, com o evento chamado “deslembrada”, que foi anunciado como um congresso com várias vertentes ultraconservadoras.

Em um momento em que a extrema direita e os súditos do eixo retornam ao tabuleiro do jogo geopolítico mundial, seria irresponsável não ver o quão preocupante é a articulação deste grupo, que esteve envolvido nos bastidores das principais rupturas democráticas do século passado.

Eles sabem que suas “camisas verdes” não serão tão grandes e truculentas como no passado, mas estão cientes de que, se as ruas não são mais uma opção, então o caminho a seguir será pelas urnas.

Eles acordaram e já deixaram claro que não se contentam com Bolsonaro, nem com o “novo” Mourão.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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