o colunista

por Cleber Lourenço

O que o brasileiro pensa?
29 de maio de 2020, 21h56

O problema não é o golpe. É o limite da democracia

Leia na coluna de Cleber Lourenço: Toda vez que Bolsonaro “avança” ele esgarça mais um pouquinho os limites da democracia, limites que não deveriam ser elásticos

Jair Bolsonaro em evento com a cúpula militar em Porto Alegre (Foto: Marcos Corrêa/PR)

Passamos mais uma semana com o presidente, seus filhos e seus apoiadores agitando a democracia. Vão dar golpe? Não. Possuem condições de dar um golpe? Também não. O risco é alto? Baixo.

Mas, então, o que Bolsonaro pretende com os esperneios? Ter aquilo que ele atualmente não tem: força. Ontem mesmo disse “acabou, porra!”, no dia seguinte desconversou sobre as bravatas. O ministro Abraham Weintraub, centro da “crise”, foi com o rabinho entre as pernas prestar depoimento na Polícia Federal. Ficou quieto, mas também não criou caso.

Bolsonaro, chefe do ministro do GSI, general Augusto Heleno, recorreu ao mesmo Supremo Tribunal Federal para evitar a prisão do ministro da Educação, tudo isso enquanto seu filho Flávio também recorre (mais uma vez) ao STF para evitar ser investigado pela PF. Patético, né?

No começo desse mês ele chegou a participar de uma manifestação golpista, disse que as Forças Armadas estavam com ele, que não iria negociar, fez um alvoroço lascado, mas uma coisa não ornava no panorama daquela ocasião. Enquanto ele fazia suas bravatas, não havia um militar sequer ao seu lado, nem mesmo o mais celerado, Heleno, estava por lá.

Na ocasião eu disse: não demonstrou força, demonstrou fraqueza. E poderíamos usar essa frase para todas as outras sucessivas vezes em que ele ameaçou alguma instituição. Embora demonstre fraqueza, Bolsonaro tenta, aos berros, agitar a caserna, os soldados e praças desse país. E ainda assim, falha, tanto é que a tropa já vê o ministro da casa-civil, o general Braga Netto, como o verdadeiro presidente do país, e Bolsonaro como um legítimo alucinado.

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Porém, os militares não precisam de um golpe, é cansativo, custosa demais uma aventura desse calibre. Com um presidente como este, é muito mais fácil fazer o mesmo de gato e sapato. Vão manter suas benesses e ainda por cima, poder. Quando necessário, dão suas cacetadas na democracia. E é aí que mora o problema.

Toda vez que Bolsonaro “avança” ele esgarça mais um pouquinho os limites da democracia, limites que não deveriam ser elásticos. Sempre que ele ameaça, ele agita seus seguidores para que façam o mesmo e aos poucos vamos perdendo a percepção sobre a gravidade das coisas, até mesmo o valor do voto foi corroído durante esse processo.

E é isso que não podemos permitir. Hoje temos a “sorte” de ter um Bolsonaro “liderando” a intentona direitista, mas e amanhã? Não podemos permitir que a Constituição Federal seja tratada aos chutes e desdém, tampouco minimizada ou relativizada.

Há quem possa dobrar o devido processo legal e o sistema acusatório com largos aplausos da sociedade sem precisar disparar um tiro sequer.

Aos paladinos do combate à corrupção ainda deixo a observação: em live, Bolsonaro admitiu o loteamento de cargos para o centrão e ainda, com um problema ainda maior, assumindo que está buscando formar palanques para 2022.

Sim, desvio de finalidade, improbidade administrativa e usando dinheiro público para campanha eleitoral. Falta muito pouco para a campanha eleitoral antecipada escancarada.

Hoje é Bolsonaro, mas e amanhã? O que Bolsonaro ameaça, mas não faz, poderá pavimentar o caminho para que outros façam, afinal de contas o desprezo pelas instituições já está lá, o ódio e desrespeito a decisões judiciais está lá e ameaçar ministros do STF também está lá como algo corriqueiro.

Já perdemos muito, não só com Bolsonaro, mas também com a operação Lava Jato. E quando não punimos e enquadramos detratores da democracia abrimos caminho para que exista quem não só ameace com o fuzil, mas também atire com ele.

É isso que queremos? Um ministro da Justiça, que é chefe da Polícia Federal, pedindo habeas corpus para investigados pela própria PF, é um escárnio.

Não podemos normalizar a delinquência. Precisamos dizer: “acabou”.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum


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