o colunista

por Cleber Lourenço

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05 de junho de 2019, 19h36

Por que tirar 10 na prova se eles podem tirar o 38 da mochila?

Cleber Lourenço: “Não é difícil chegar à conclusão de que o governo e seu presidente defendem que as coisas sejam resolvidas na base da bala”

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Esta semana o Brasil se indignou com o infame vídeo de alunos de uma escola na cidade de Carapicuiba (minha terra) atirando objetivos em uma professora. Acontece que não é a primeira vez que a escola Escola Estadual Maria de Lourdes Teixeira é alvo desse tipo de selvageria.

Segundo um outro professor que dá aulas no local, recentemente outros alunos também fizeram uma outra “brincadeira de mau gosto” contra outro professor. Uma aluna e seus colegas teriam colocado um balde de lixo equilibrado no alto da porta da sala para que, quando o professor abrisse a porta, fosse atingido.

O professor decidiu não fazer boletim de ocorrência, porém, tampouco aconteceu algo com a aluna que orquestrou a brincadeira. Infelizmente, esses casos não são isolados, não se restringem ao colégio Maria de Lourdes e ao sistema educacional de São Paulo.

É também fato que o presidente Jair Bolsonaro não inventou a delinquência escolar, a balbúrdia e não pede que alunos atirem objetos em professores. Porém, também é fato que seu governo promove uma política de confronto contra os professores, que seriam seus inimigos declarados.

Constantemente, deputados da base e até mesmo o próprio presidente estimulam alunos a constranger professores filmando-os sob a alegação de uma suposta doutrinação ideológica, hoje feita unicamente pelo próprio governo e não pelos professores.

Já dizia Elis: “o medo em minha vida nasceu muito depois…”

Nunca essa frase fez tanto sentido. Promova a violência, faça do homicídio algo justificável, passível até mesmo de impunidade, promova a perseguição contra professores e outros grupos e, para fechar a conta, faça um verdadeiro culto pelas armas, não sem antes incentivar a ignorância, perseguir o conhecimento, politizar a truculência e pronto, temos aí uma equação que terá como único resultado a transformação de nossos estudantes em delinquentes e criminosos em potencial.

Em Abril, o Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT), no campus de Cuiabá, foi alvo de publicações nas redes sociais onde em uma delas dizia: “por que tirar 10 na prova se posso tirar o 38 da mochila?”.

A escola, que atualmente trabalha com os alunos uma campanha contra as chamadas fake news e discursos de ódio, identificou os alunos autores das publicações, que já recebem atendimento psicológico enquanto a escola avalia as medidas disciplinares para eles que confessaram ser autores das mensagens.

Além disso, uma outra apuração foi aberta após servidoras da unidade denunciarem dois alunos que, segundo elas, estavam conversando, e um deles afirmar que iria “explodir uma bomba na escola”.

Alarmismo exacerbado? Talvez, mas em tempos de Suzano todo cuidado é pouco.

Valparaíso

Mas as coisas não param por aí!

Ainda em abril, um aluno entrou armado em uma escola de Valparaíso (GO) e efetuou ao menos três disparos contra um professor e coordenador, que morreu no local.

Segundo alunos, o assassino teria sido expulso da escola, após ter ameaçado o professor diversas vezes.

O professor vítima dessa barbaridade se chamava Júlio César, era morador da cidade e trabalhava no Colégio Estadual Céu Azul há menos de um ano. Ele deixou esposa e dois filhos.

Uma crise sem precedentes

Se colocarmos no Google “aluno armado” iremos encontrar mais uma série de ocorrências e ameaças de estudantes contra sua escola e colegas, todos os casos este ano.

Parece que, finalmente, teremos uma educação nível EUA, com aulas constantemente interrompidas por ameaças de atentados realizados por atiradores.

Se há algum risco para as famílias brasileiras, certamente não é a doutrinação ou a famigerada mamadeira de piroca e, sim, a banalização da violência.

Infelizmente, não me surpreende que esses casos tenham se tornado frequentes, após a posse de Jair Bolsonaro.

Afirmar que Bolsonaro estimula diretamente atendados é de uma uma infantilidade e ingenuidade absurda, até para seu maior opositor. Mas não há como negar que seus dircursos jocosos são uma parte considerável do problema.

O governo do presidente possui uma retórica anticonhecimento. Além disso, o atual ministro da Educação empreende uma verdadeira cruzada contra o conhecimento e já prometeu cortar verbas de universidades. Os deputados da base aliada não são muito diferentes. Vivem pregando o discurso de que professores são pessoas traiçoeiras prontas para doutrinar qualquer um.

Basicamente, pintam professores como inimigos públicos, uma ameaça que precisa ser eliminada. Pedem para filmar, para denunciar e constranger os verdadeiros heróis desta nação.

Vamos matar?

Mas nada disso se compara com outras atitudes mais escabrosas. Recentemente, Bolsonaro, durante um evento do agronegócio, disse que trabalharia para legalizar o assassinato em zonas rurais. Seu ministro Sérgio Moro é defensor de um projeto de lei que visa, entre muitas coisas, não punir “eventuais excessos cometidos por agentes da lei”, além de também pretender legalizar o assassinato sob algumas circunstâncias.

E mais: tanto o presidente quanto seus filhos, constantemente em suas redes sociais, fazem apologia ao uso, porte e compra de armas, um culto que chega a ser quase religioso.

Durante a campanha, o presidente ainda prometeu fuzilar a petralhada, suprimir a voz das minorias e todo tipo de absurdo.

Então, vejam só. Não é difícil chegar à conclusão de que o governo e seu presidente defendem que as coisas sejam resolvidas na base da bala, justificando a frase publicada pelo aluno de Mato Grosso.

Nossas escolas se tornaram fábricas de atentados?

Confira muito mais também no meu site: www.ocolunista.com.br

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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