o colunista

por Cleber Lourenço

07 de agosto de 2019, 12h06

Se não tem golpe, então tem impeachment?

Cleber Lourenço: “Se as coisas permanecerem neste rumo, entraremos em 2020 da seguinte maneira: ou Mourão já estará com a faixa ou o processo de impeachment estará se iniciando”

Foto: Marcos Corrêa/PR

Gente na rua, manifestação, defesa do presidente Jair Bolsonaro e o infame verde e amarelo da CBF novamente nas ruas. A sanha de quem não se conforma com uma República sem golpes neste milênio segue.

Com o governo de extrema direita mais uma vez em crise pelas próprias mãos, ou melhor, línguas, não demorará para que manifestações em defesa da insensatez tomem as ruas.

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Do lado de lá (cuja conexão com a realidade já foi perdida faz tempo), eles se sentem vitoriosos, assim como Holyfield quando venceu Mike Tyson. Porém, aqui do lado da realidade e dos fatos, nós sabemos que não é assim.

Nas redes sociais e em meu blog eu já havia dado o diagnóstico: Bolsonaro fala absurdos e se comporta de forma acintosa, pois já partiu para uma lógica de tudo ou nada, vai queimar todo o combustível que lhe resta em uma cruzada para ser o “Duce” do país.

Se Bolsonaro ganhar a aposta de seguir por este caminho, o país se tornará, de fato, ingovernável, com cada poder fazendo o que bem entender, desde que fiquem em total submissão ao Palácio do Planalto.

A forma como Moro age com desfaçatez ao divulgar informações de um inquérito sigiloso da PF e ordenando a destruição de provas mostram o caminho que estamos trilhando. O próprio MPF, com a Operação Lava Jato, que se tornou um verdadeiro partido sem legenda, também mostra que as instituições já entram aos poucos neste clima.

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O presidente do STF, que já afirmou preferir chamar o golpe de 64 de “movimento”, sinaliza a mesma tendência com suas aproximações com o governo e, inclusive, intercedendo em favor do filho do presidente no caso Queiroz e os laranjais.

Toffoli provou que ele mesmo poderia ser o soldado e o cabo que Eduardo Bolsonaro dizia serem necessários para fechar o STF.

É aí que mora o perigo. As manifestações anteriores foram apenas a largada de uma nova campanha que, na verdade, sempre foi o real objetivo do bolsonarismo: a cruzada pelo poder total.

O diálogo e o método são cartas que não voltarão para a mesa, não enquanto Jair e sua família estiverem no Planalto. Tentarão a todo custo aprovar medidas e projetos com murro na mesa, gritaria e linchamentos em praça pública, tentarão até conseguir e, caso consigam apenas uma vez, pode ter certeza que então não haverá o que os impeça.

Por isso é fundamental que as instituições estejam fortes e sólidas, para resistirem a intentona direitista pelos poderes.

Apesar de ser o início de uma campanha, havia, sim, uma expectativa entre os bolsonaristas de que o último ato, em 26 de maio, fosse a verdadeira marcha sobre Roma. Falhou miseravelmente. Há como elencar os motivos….

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PRIMEIRO! A intentona direitista não era consenso entre a extrema direita brasileira e nem mesmo na direita. Inclusive, causou rachas e cizânias entre seus quadros: Carla Zambelli brigando com Joice Hasselmann, Alexandre Frota se estranhando com Major Olímpio e ainda o desembarque dos grupos Movimento Brasil Livre e #VemPraRua do front das manifestações, tudo enquanto Janaína Paschoal descia o porrete sobre essas manifestações. Então, o primeiro ponto está dado, não houve união da base. Na verdade, o que houve foi mais divisão.

SEGUNDO! Bolsonaro se acovardou no último segundo. Sabia que não poderia garantir o “verniz” legalista das manifestações e caso comparecesse poderia jogar a pá de cal que faltava em seu combalido governo. Se Bolsonaro comparecesse em uma manifestação que não tivesse o estrondoso sucesso e adesão das manifestações pelo impeachment, acabaria exposto. Logo, nem ele acreditava na sua própria articulação.

O que mostra que o presidente tem noção da queda livre em que sua popularidade se encontra. O mesmo receio veio de empresários do grupo Brasil 200, que decidiram apoiar apenas no último segundo, depois de um enorme esforço de articulações para não deixar o golpe evidente. Enfim, Bolsonaro não se prestou ao papel de João Goulart em um comício pelas reformas de base. Até porque sabemos o que aconteceu com Jango. E olha que este sequer queria dar um golpe.

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TERCEIRO! Robôs de Twitter não são feitos de carne e osso, e se tem uma coisa que estas manifestações conseguiram mostrar foi a escandalosa diferença entre o que está nas redes sociais e o que realmente existe. Se as manifestações tivessem de fato transmitido a adesão que observamos na rede, pode ter certeza que: Bolsonaro teria ido ao ato do Rio e Eduardo em São Paulo.

É claro, com o mar de incertezas que se tornou a política nacional, não poderíamos declarar que Bolsonaro perdeu (naquela ocasião) o jogo político.

Mas deixo registrado aqui: se as coisas permanecerem neste rumo, entraremos em 2020 da seguinte maneira: ou Mourão já estará com a faixa ou o processo de impeachment estará se iniciando.

Finalizo este texto com uma imagem que representa o espírito não só deste governo como o da sua base: Oscar Maroni, dono de um dos mais famosos prostíbulos do país, em cima do caminhão de som do “Brasil Conservador”.

Foto: Reprodução

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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