o colunista

por Cleber Lourenço

O que o brasileiro pensa?
02 de julho de 2019, 06h00

Um soldado, um cabo e um Toffoli

Cleber Lourenço: “Toffoli vem sendo uma espécie de ‘concierge’ do governo Bolsonaro de forma forçosa e vergonhosa. Qual o sentido de Dias Toffoli tentar ajudar o governo na ‘retomada do crescimento’?"

Foto: Marcos Côrrea/PR

A tentativa de “pacto” entre os presidentes dos três poderes só provou duas coisas que não apenas eu, mas dezenas de jornalistas e comentaristas políticos afirmam: há uma crise grave e profunda entre os poderes, poderes que há pouco menos de quatro anos decidiram paralisar o país e fazê-lo sangrar com a intentona do impeachment.

Vale lembrar que o ato do último domingo (30) não fortaleceu o presidente, não ajudou o governo e tampouco a reforma da Previdência. Na verdade, só gerou mais confusão, que foi potencializada pelo próprio presidente e seus discursos repetitivos atacando e fustigando o centrão e a famigerada “velha política” (já afirmei aqui, isso de velha e nova política não existe).

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Mas voltando ao “grande acordo” de maio, me preocupa a postura do ministro Toffoli, uma vez ele teria sido o “maestro” do café da manhã. O STF não é governo, nunca foi e preocupante seria se fosse. O “pacto” não mudou nada, as agressões aos poderes seguiram nas redes sociais. Afinal de contas, se a própria base trocou tapas por causa do último domingo, o que dirá Bolsonaro com o legislativo e o judiciário?

As coisas ficam ainda mais nebulosas depois que uma série de jantares ocorridos entre maio e junho, que não entraram na sua agenda oficial, mas foram revelados. Nesses encontros o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, teria feito um apelo às bancadas do PT, DEM (vejam só quem está aqui, o DEM de Onyx Lorenzoni) e PSD para que contenham eventual afastamento precoce do presidente Jair Bolsonaro (PSL). As informações são do jornal Valor Econômico.

Segundo o relato de dois participantes deste jantar, Toffoli se mostrou preocupado com a turbulência política, pediu “serenidade” aos petistas e fez um apelo para que não aderissem a um eventual impeachment de Bolsonaro.

Toffoli vem sendo uma espécie de “concierge” do governo Bolsonaro de forma forçosa e vergonhosa. Qual o sentido de Dias Toffoli tentar ajudar o governo na “retomada do crescimento”, incluindo temas como reforma tributária e da Previdência? Já disse e repito, o STF não é governo.

Acha que estou tentando criar alguma situação? Pois bem, após o “pacto” duas MP’s no Congresso rodaram por falta de acordo entre governo e a Casa. Tudo só serviu para deixar gritante que o presidente do STF quer brincar de ser governo e, com essa vaidade, deixa a Casa de joelhos para que até mesmo seus algozes (os lavajatistas) tripudiem.

Acontece que Bolsonaro e companhia erraram a altura dos tiros, não precisavam mirar no STF, não precisavam de um soldado e nem de um cabo, como diria Eduardo, basta um Toffoli para que Bolsonaro tivesse um STF para chamar de seu.

Também já tinha alertado aqui: o STF já tinha sido ameaçado pelas Forças Armadas e exposto ao ridículo pelo lavajatismo, e o episódio envolvendo a censura contra a revista Crusoé. A dobradinha ideal.

Aquele que era aclamado pelos ditos “progressistas” como uma voz moderada na caserna, Eduardo Villas Bôas, se encarregou de “apontar o fuzil” da caserna na véspera do julgamento do habeas corpus do Lula. Era um recado.

Com um STF de joelhos, ou ao menos o presidente da Casa, fica fácil tripudiar. Ele não possui todos os ministros, mas já tem ali quem dá as cartas na mesa.

O encontro foi tão estranho, em maio deste ano, que a Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) emitiu uma nota questionando a presença do presidente do Supremo Tribunal Federal no “pacto”. Partidos no Congresso também questionam essa participação, reforçando o que falei acima, o que Toffoli faz ali se não é governo?

E não parou por aí, ele também declarou ter um interesse em acelerar as obras paradas, defendendo uma atuação mais eficaz do judiciário. A fala dele:

“Infelizmente, hoje, em razão da falta de comunicação entre os órgãos e da pluralidade deles, acaba que tudo vai parar no Judiciário”.

Pergunto-me: para quem é essa fala?

Enquanto isso, temos o centrão que ainda está de mau humor com o presidente. Ainda no Senado, a derrota de Moro em sua luta pelo COAF foi sacramentada. O governo, inclusive, abriu mão do COAF deixando mais uma vez o ministro à deriva.

Então, em linhas gerais, as coisas ficaram assim: Toffoli colocando o Supremo de joelhos, a Câmara ainda desconfiada das intenções do governo e o lavajatismo em ritmo de campanha panfletando nos pedágios do Brasil.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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