o colunista

por Cleber Lourenço

Fórum Educação
09 de Maio de 2020, 20h10

Viramos bagunça?

Cleber Lourenço: "São tantas barbaridades sem punição que boa parte da população perdeu a capacidade de indignar-se"

O que está acontecendo com este país? Agora se tornou aceitável que apoiadores do presidente ameaçam instituições com armas em punho? A coisa fica mais estridente ainda quando lembramos que o apoiador em questão é um criminoso condenado pela justiça, isso mesmo, Roberto Jefferson.

E no Supremo Tribunal de Justiça? Após o presidente do STJ, João Otávio de Noronha, dizer que não concordava em exigir que Bolsonaro divulgue exame de Covid-19, ele acabou pegando o caso e negou a exibição do exame. Noronha estava impedido. Deu opinião sobre processo em andamento que poderia ser remetido ao seu tribunal.

E no Rio de Janeiro onde organizações criminosas possuem mais responsabilidade com a saúde pública que o presidente, e impõem medidas restritivas para a população?

E o senil General Villas Bôas que por duas vezes ameaçou o Supremo Tribunal Federal e agora decidiu elogiar Regina Duarte por uma entrevista onde ela aos risos e sorrisos tratava com desfaçatez os mortes e torturados da ditadura militar de 64? Nem mesmo os militares mais celerados do Clube Militar foram tão acintosos. Ah! Villas Bôas segue como general, segue na tropa mesmo após atentar contra uma instituição da república.

De lá pra cá ninguém foi punido, nem mesmo o infame Hans River Rio que mentiu em uma CPMI do Congresso Nacional da forma mais enfadonha possível. Está livre, leve e solto.

E para falar a verdade, são tantas barbaridades sem punição que boa parte da população perdeu a capacidade de indignar-se, perdemos o senso de gravidade dos atos de agentes do estado brasileiro, não, Jair Bolsonaro não é o único culpado por isso, mas é claro que acelerou o processo.

Nos anos 90 o país ficou indignado com Fernando Collor que passeava de jet ski, parecendo ignorar as denúncias de corrupção que pairavam sobre seu governo. Muitos brasileiros ficam indignados e perplexos com aquele momento.

Quase 30 anos depois, Jair Bolsonaro passeia de jet ski, parecendo ignorar as denúncias que pairam sobre seu governo e as mais de 10 mil mortes por conta de uma pandemia que ele insiste em ignorar.

Diferente de Collor, o caso do “Seu Jair” é muito mais grave já que envolve uma contagem macabra de corpos que ainda não acabou.

É claro, desde a redemocratização assistimos barbaridades e seus bárbaros saírem livres leves e soltos, desde políticos corruptos até assassinos e homicidas, todos homens do estado.

E é aí que lembramos que o país elegeu um presidente que passou sua vida pulica inteira defendendo, saudando e louvando todo e qualquer tipo de descalabro, um homem que usou a tribuna da Câmara dos deputados para exaltar torturadores, elogiar membros de organizações criminosas e grupos de extermínio, só com as milícias são mais de dezesseis anos de gentilezas e afagos.

Infelizmente o país perdeu a capacidade de se indignar, a sensibilidade com o outro e até mesmo um pouco da própria dignidade quando permite que o mandatário geral da nação diga “e daí” para milhares de mortos e as dores de seus familiares, um presidente que fala de churrasco e algazarra no lugar de trabalho.

Temos um ministro da economia que faz piada e chacota com os mais humildes e que ainda hoje, (em tempo) disse:

“Em vez de termos 200 milhões de trouxas sendo explorados por seis bancos, seis empreiteiras, seis empresas de cabotagem, seis distribuidoras de combustíveis; em vez de sermos isso, vai ser o contrário. Teremos centenas, milhares de empresas”.

A infame fala foi neste sábado (09) em videoconferência promovida pelo Itaú BBA, em um contexto onde o ministro criticou a concentração do sistema bancário do Brasil. Para ele, com reformas e ampliação de investimentos, a economia ficará mais competitiva.

Teremos centenas de milhares de empresas para explorar os mesmos 200 milhões de trouxas.

Ninguém é punido, ninguém é afastado. E ainda temos um ministro da (falta de) educação que se sente confortável para chamar os 11 ministros do Supremo Tribunal Federal de filhos da puta em pela reunião ministerial, tudo, é claro, com a presença do presidente do país.

Acho que sim, viramos bagunça.


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