quarta-feira, 30 set 2020
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“Amamentar é um ato político”, diz Joanna Maranhão depois de ser constrangida no Twitter

A atleta Joanna Maranhão, na manhã desta terça (9), postou uma foto amamentando seu filho Caetano com a legenda “10 meses”. Um internauta sem noção respondeu “deixa eu mamar” e levou um belíssimo esculacho.

“Sempre tive 0 problema em amamentar em público, colocar teta pra fora, enfim, meu peito é alimento e acalento pro meu filho e esse tipo de comentário sexista é digno de pena. Mas essa sou eu. Muitas mulheres não se sentem a vontade em amamentar em público, entre outras coisas, por isso. Sei que é chover no molhado mas a gente precisa expor essas pessoas e colocar um ponto final nesse tipo de comportamento”, escreveu Joanna.

O homem apagou o comentário e ainda chiou. “Vocês levam tudo na maldade, se fosse uma pobre vocês entrariam na zueira”, ao que Joanna, na finesse, respondeu: “fato de eu ser pessoa pública torna seu comentário ainda mais agressivo. Porque alcança uma gama de mães que se sentem inibidas de amamentar seus filhos pra não passar por esse tipo de constrangimento. Perceba que estou sendo educada e didática mesmo sem você merecer”

À Fórum, Joanna contou um pouco de sua história e seus posicionamentos: “Pra mim, essa questão de exposição do corpo foi algo, de alguma maneira, muito naturalizado, porque eu precisava estar com meu corpo muito exposto para trabalhar. Fui atleta de natação por toda a minha vida, algumas vezes a gente não tinha acesso ao banheiro, então  gente aprendeu a se trocar, abaixa a alça do maiô, coloca o top, enfim, e eu acho que conviver com outras sociedades, eu lembro quando via uma sueca que ela não usava sutiã e os meninos ficavam falando ‘rá, ela não usa sutiã, olha o bico do peito dela!’ e eu ficava, gente, qual é a diferença do bico do peito enrijecido quando você está nadando e quando aparece quando a gente está sem sutiã?”, disse ela, sobre suas experiências com o corpo.

Sobre a maternidade e amamentar, Joanna Maranhão relembra: “Quando eu tive Caetano, pensei em uma amiga minha que teve filho antes e disse que foi extremamente constrangida em amamentar em público. Ela ela até cobriu filho dela com paninho e tal da única vez que conseguiu amamentar. Ela falou que foi uma tortura pra conseguir, pra sair de casa e amamentar o filho dela”, contou a nadadora. “E eu ficava pensando, será que eu vou ser assim? E pra mim foi muito simbólico quando fui levar Caetano pra fazer o teste do pezinho com uma semana, aquela fase horrorosa do peito quente e inchado, quando ele quis mamar, eu coloquei pra fora e me senti bem, fiquei orgulhosa daquilo.”

Pra mim, amamentar é um ato político. Acho que, primeiro, é uma prova de amor e abnegação que uma mãe faz por um filho porque é foda, eu não romantizo de maneira nenhuma porque eu acho foda, todos os dias eu falo que eu vou desistir, que eu não sei o que é dormir uma noite inteira e não tem como passar pra outra pessoa porque meu filho não aceita mamadeira, só quer mãe e peito, é aconchego, eu e ele, é essa relação.”

Sobre o assédio sofrido no Twitter, Joana crava: “Eu acho que não tem mais como tolerar isso. ‘Ah, é brincadeira’… Não, não é brincadeira, nós temos que nos posicionar, porque uma gama de mães, como essa minha amiga, que é uma mulher que trabalha com arte e a gente subentende que vai ter uma relação melhor com o corpo, tem alguma coisa lá na vida dela que a sociedade impôs ou que ela viu a mãe amamentando coberta, enfim, ela entendeu que tinha que cobrir aquilo, então a gente tem que parar pra ontem com isso. Chega. O meu peito vai estar pra fora. Enquanto meu filho mamar, meu peitão vai estar pra fora. Não cabe a sexualização do alimentar. Quando meu filho deixar de mamar, eu vou continuar não tendo nenhum pudor com meu peito. Eu não consigo entender essa sexualização com a mama, o que há? Quando estou tendo relação sexual com meu marido, a minha mama é uma área que eu tenho tesão, mas isso é entre eu e ele. Não diz respeito a uma terceira pessoa que não tem nada a ver com a minha vida, sabe? De onde que surgiu que um órgão tão poderoso como o seio feminino, que te dá prazer, produz ocitocina e pode amamentar sua cria se torna tão vergonhoso?”, questiona ela.

Clara Averbuck
Clara Averbuck
Escritora e jornalista, autora de 9 livros.