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O que o brasileiro pensa?
05 de maio de 2020, 21h40

Isolamento social e as várias formas de violência contra LGBTsQI+

Para uma grande parcela da população, ficar em casa não é sinônimo de segurança

Reprodução

por Weslley Carvalho


O isolamento social, em grande parte do Brasil, começou há mais de um mês. Com ele, quase que em efeito dominó, o aumento dos índices de violência contra mulheres e LGBTs, este pouco falado. Ainda que os dados de violência durante esse começo de isolamento sejam imprecisos, não é preciso ir muito longe para encontrar os rastros de violência. Do meio de março até a primeira semana de abril, recebi pelos menos três relatos de amigos próximos e conhecidos LGBTs que tem passado ou passaram por episódios recentes.

Com a convivência intensificada dentro de casa, tem aumentado ainda mais a violência física e os maus tratos psicológicos: agressões tanto por parte de pais/mães/familiares LGTBfóbicos, quanto por parte de relacionamentos tóxicos, indo desde o abuso psicológico até a violência física – ou sexual.

Ainda que a questão seja pouco abordada, relações LGBTQI+, como qualquer outra, podem ser abusivas. Gays, lésbicas, bissexuais, homens e mulheres trans, binários ou não-binários podem estar em relacionamentos ruins, complicados, agressivos, abusivos.

O que tem peso agora é o que acontece da porta pra dentro. Passando mais tempo confinados dentro de casa, não podendo ter contato físico com os amigos, com os nossos amores, parceiros, com a rede de apoio que muitas vezes só encontramos fora da família, a convivência com os agressores ainda é maior e mais extremada.

Ainda que a violência física seja o principal alarme do que acontece contra a população LGBTQI+, e também o que mais choca e aumenta as estatísticas, existem outros tipos de violências que, embora indiretas, são tão nocivas quanto as que acontecem diretamente.

Como o atendimento psicológico prestado à população LGBTQI+ que acabou sendo suspenso em redes públicas de atendimento por não se enquadrar, nesse momento, nos serviços essenciais, a inacessibilidade aos serviços básicos de saúde e a falta de moradia adequada para aqueles que foram expulsos de casa pelos familiares, a falta de recursos para quem não adentrou nos empregos formais e que estão mais vulneráveis do que nunca.

A culpa, claro, não é da pandemia ou do isolamento, como disse aquele imbecil que ocupa a cadeira da presidência, mas sim da falta de políticas públicas reais e efetivas, do acesso aos direitos básicos de saúde, cidadania e oportunidades, a falta de apoio às nossas demandas cada vez mais negadas ou tidas como irrelevantes. Tudo isso agora só fica mais evidente.

A culpa é dessa cultura violenta e homofóbica que não aceita a nossa existência e quer, de várias formas, a nossa morte. A culpa também é desse governo que nos seus primeiros meses de exercício removeu, às escondidas, a população LGBT das diretrizes de direitos humanos. Na prática, mais violência institucional, menos direitos, menos recursos.

Existia, na época das eleições, um medo muito grande por parte da comunidade LGBTQI+ e das minorias em geral, que temia mais violência nas ruas, no âmbito familiar e nas instituições em razão da falas preconceituosas do agora presidente, dos seus posicionamentos retrógrados propagados pelos “seus”, de seu projeto de governo. E foi o que exatamente o que aconteceu.

Segundo uma pesquisa divulgada pela revista Folha de São Paulo em 2019, 92,5% da população LGBT relataram o aumento da violência pré e pós-eleições de 2018. Ou seja, mais violência, menos notificação, como sempre.

O nosso medo não é só do vírus; é também da violência. Há subnotificação, assim como acontece na questão de violência contra as mulheres. Falta suporte adequado e efetivo que acolha vítimas de violência por LGBTfobia, e punições sérias. Além do mais, a lei por si só é
nebulosa. O sistema, que é precário e falho, não consegue nem quer abarcar.


Outra violência que ajuda nesse processo de marginalização e violência contra a população LGBTQI+ é a falta de capacitação profissional, especialmente para a população trans, implicando diretamente na falta de autonomia e na dependência de seus agressores. Violência familiar não deixa de ser violência institucional, e vice-versa.

Outro problema, durante esse período de isolamento, é a ausência de tratamento hormonal e psicológico para as pessoas trans e o cancelamento de cirurgias de readequação sexual. Sabemos que o sistema de saúde mental é vergonhoso independente de recortes, que é cada vez mais sucateado, que recebe cada vez menos recursos e que as vagas são escassas, mas a questão é essencialíssima para LGBTs.

Existe todo um conservadorismo com quem procura tratamento psicológico, existem “profissionais” que vendem a cura gay, principalmente em portas de igreja, mas isso precisa ser vencido. Não é raro, no entanto, encontrar dados que demonstram os índices de transtornos mentais que a população LGBTQI+ sofre. Da pressão moralista que condena, da pressão em se assumir e ter que encarar a família e o mundo, ou viver mantendo “um segredo”, da descoberta às vezes traumática a episódios de violência que passamos, ora velada, ora escancarada.

De acordo com pesquisas realizadas nos Estados Unidos entre 2017 e 2019, jovens LGBTs pensam três vezes mais em suicídio que jovens cis heterossexuais, e isso é preocupante. As chances desses pensamentos serem concretizados também é maior: cinco vezes mais do que a população hétero cis, de acordo “Pediatrics”, uma revista americana.

Com os serviços suspensos, a violência em casa e os abusos psicológicos que se intensificam, aumenta, além das agressões e as mortes, o índice de suicídios e tentativas.

Quem é LGBT e já pensou em morrer, já sofreu tanto que, esgotado, achou que essa seria a melhor saída. Existe, aliás, um termo chamado “estresse de minoria”, que basicamente é um conjunto de situações correntes que pessoas LGBTS sofrem e que podem desencadear transtornos mentais, como depressão e ansiedade, indo de graus leves a graves. Inclui-se aí estresses provocados por rejeição e discriminação, até violência física e não-aceitação. De acordo com outras pesquisas, é sabido que LGBTs têm mais chances de desenvolver depressão e ansiedade, além de o risco de suicídio ser 21,5% maior com a convivência em ambientes discriminatórios.


O “direito à vida” não pertence apenas a quem foi infectado pelo vírus, ou qualquer outra coisa, mas sim a todas as pessoas, especialmente às minorias políticas que sofrem constantemente e que, em momentos de crise, sofrem ainda mais: LGBTs, mulheres, moradores da periferia, mulheres, moradores de rua e tantos outros.


A nossa vida, que sempre valeu e vale ainda hoje muito menos, não pode valer ainda menos agora.

Weslley Carvalho, @weslley.etc – é poeta, blogueiro, militante LGBT e escreve coisas outras.

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