terça-feira, 20 out 2020
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Pelo fim da cultura da indireta ou da expressão de ódio, por Monge Yakusan

*Por Monge Yakusan

Um dos meios expedientes mais usados ao longo da história é a ironia, deboche, troll ou shade como é mais conhecido na comunidade LGBTQIA+. A ironia, ou seja, é uma forma de expressão que consiste em dizer o contrário daquilo que se quer expressar. Na Literatura, a ironia é a arte de zombar de alguém ou de alguma coisa, com um ponto de vista a obter uma reação do leitor, ouvinte ou interlocutor.

Ela pode ser utilizada, entre outras formas, com o objetivo de denunciar, de criticar ou de censurar algo. Para tal, o locutor descreve a realidade com termos aparentemente valorizantes, mas com a finalidade de desvalorizar. Em algumas circunstância, é usada como estratégia de sobrevivência, como o já citado shade da comunidade LGBTQIA+ e as denúncias de “brancofobia” por parte da população negra – o termo brancofobia ou heterofobia em si já são a própria ironia, não é? Porém, não confunda o paradoxo da vida com ironia e deboche. Nos memes, até cabe porque a ironia é uma das estratégias da construção do humor. Na vida real, não necessariamente. No máximo, falar algumas coisas “ao contrário” para amenizar sofrimento alheio. Sabe os nossos garranchos de 4, 5 anos de idade que a nossa mãe e a professora dizem “tá lindo”? É por aí. Tem maneiras de apontar erros sem parecer debochado ou irônico. Fala correta. Usar da ironia para demostrar uma pretensa inteligência fala muito mais do seu “eguinho”, do seu ego ou eu menor, do que dos outros, em especial quem não entendeu, nem tem obrigação de entender certos processos mentais mesquinhos. 

E mesmo dentro das comunidades de pessoas vulnerabilizadas pela sociedade vemos esse comportamento. Por exemplo, é muito comum dentro das fan bases de divas pop, em sua maioria composta por homens cis gays, por exemplo, para exaltarem a sua diva do coração, rebaixarem outra. Vemos isso acontecer o tempo todo com Lady Gaga, Madonna, Mariah Carey, Katy Perry, Britney Spears, Rihanna, Beyoncé e por aí vai. E nos deboches para rebaixar a “diva rival”, vem umas boas pinceladas de misoginia e machismo em forma de hate. Ou seja, alguns lugares de privilégios (nesse caso, o lugar dos homens) seguem inalterados nessa perniciosa cadeia social, o que corrobora com a teoria da interseccionalidade discutida primeiramente por Kimberle Crenshaw e, posteriormente, por estudiosas como Leslie McCall. Vocês conseguem imaginar o que uma mulher trans, preta, da periferia, vive no seu cotidiano? 

“Certo, mas por que um monge zen escreve sobre essas coisas? Monges não deveriam apenas meditar e rezar?”, alguém poderia perguntar. Como monge e como médico de família e comunidade, a minha jornada de vida e os meus votos de reduzir sofrimento de todos os seres são redobrados. E isso também implica agir como um agente de transformação social. Buda fez isso na Índia ao quebrar o paradigma do sistema de castas e se tornar um monge, antes mesmo do seu despertar. Jesus de Nazaré também. Reduzir todas as formas de opressão e dar o direito aos seres de apenas serem quem são é reduzir sofrimento.  

Por isso, mesmo estando isolados socialmente em meio a essa pandemia, precisamos repensar nossas relações como sociedade eternos voz ativa contra todas as formas de opressão dentro da sociedade: racismo, sexismo, capacitismo, classismo, xenofobia, homofobia, transfobia e todas as nuances de LGBTQIA+fobia e intolerâncias baseadas em crenças ou militâncias. O sol irradia, a chuva molha, as flores desabrocham. Por que não sermos apenas quem somos? E nos comunicarmos apenas pelo essencial, sem fechar os olhos para os diversos tipos de sofrimento da humanidade?

Quantas vezes vimos nos Evangelhos Jesus usar ironia? Buda? Maomé? Maria? Mestres espirituais usam parábolas e exemplos paradoxais, mas sempre mantiveram a compaixão consigo para não colocarem nenhum ser em situação de constrangimento ou inferioridade. Quem sabe a gente tenta fazer como eles, inclusive sendo assertivos quando preciso, em especial diante de injustiças e sofrimentos. Jesus de Nazaré expulsou os mercadores do tempo, e não foi com palavras sutis. Sermos quem somos permite com que a gente faça mais do que existir. Que possamos ter comunicações menos tóxicas, ternas mas também assertivas quando necessário.

Desfrutem suas vidas!

*Monge Zen, médico de família, cantor barítono, professor de medicina, praticante de ikebana, professor de medicina na PUCRS e UFCSPA e humano, afinal.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum

Clara Averbuck
Clara Averbuck
Escritora e jornalista, autora de 9 livros.