Por que algumas mulheres não fazem BO e não denunciam estupros assim que acontecem?

Enquanto a sociedade seguir naturalizando esses crimes, culpando as vítimas e criando homens em uma lógica machista de que os corpos das mulheres estão disponíveis, isso não vai mudar


Hoje estourou, devido a uma reportagem-denúncia, casos de estupro do ex-BBB Felipe Prior. Não demorou para que homens saíssem em sua defesa e até levantassem a tag “Najila2.0”, em referência à modelo que acusou Neymar de estupro.


É sempre a mesma história: o crime de estupro é o único que a vítima tem que provar ter sido vítima e o agressor tem o benefício da dúvida. Estive uma, duas, mais de dez vezes na Delegacia da Mulher para acompanhar vítimas de violência. Não é nada do que as pessoas imaginam, esse oásis da justiça fácil que vai acolher a mulher agredida com um cobertor, um chazinho e um abracinho.

A própria advogada das mulheres violentadas por Felipe Prior disse, à Marie Claire: “Precisamos entender que lidamos com vítimas reais e não ideais. Acompanhando esse tipo de caso cotidianamente, percebemos que infelizmente é comum que entre a ocorrência da violência e a decisão de denunciar, passe um certo tempo. Isso tem a ver com o tratamento revitimizador que muitas dessas mulheres recebem junto às instituições, a falta de apoio de amigos e familiares e, de maneira geral, com a cultura do estupro, que normaliza situações de violência sexual e não cultua a valorização do consentimento. Todas as vítimas relataram sentimentos de culpa após os fatos. Isso é emblemático, pois revela como, diante desse tipo de caso, o senso comum tende a focar mais numa suposta ‘responsabilidade’ da vítima em não ser capaz de evitar os atos do agressor”.

A aí entende-se a subnotificação desses crimes. As mulheres, além da dor e da culpa, ainda têm que lidar com a cobrança de responsabilizar legalmente seu agressor, mesmo sabendo que poderá ser descredibilizada, terá sua vida devassada a procura de indícios que “justifiquem” a violência sofrida e a possibilidade grande de ser chamada de louca, de mentirosa, ou pior, de alguém que “quer aparecer”. Muito legal mesmo levar para sempre um carimbo de “estuprada” na testa, né? Tudo que uma mulher precisa para seguir a vida em diante.

O caso de Mariana Ferrer é bastante emblemático: ela foi dopada, estuprada, tem todas as provas, exame de DNA (coisa que muitas mulheres não conseguem, pois não é fácil tomar decisões depois de sofrer violência), mas seu caso segue parado, já que há um figurão envolvido. Quer dizer: é só fazer BO mesmo? Só ir na delegacia? Só provar?

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2018 mostra estatísticas referentes ao número de estupros e tentativas de estupro praticados no ano de 2017. Os números chegaram a 61.032 casos, o que significou um aumento de quase 6 mil em comparação a 2016, o ano anterior. Só que não dá pra dizer que o número de estupros aumentou, e sim, que os registros aumentaram. Enquanto o sistema não mudar a maneira com a qual trata os crimes sexuais e enquanto a sociedade seguir naturalizando esses crimes, culpando as vítimas e criando homens em uma lógica machista de que os corpos das mulheres estão disponíveis, isso não vai mudar.

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Clara Averbuck

Escritora e jornalista, autora de 9 livros.

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