até quando delegaremos à veja o poder de pautar nossa indignação?

enquanto isso, na redação de uma grande revista semanal: — então, o que acham da capa dessa semana? — hmmm. acho que tá faltando alguma coisa… será que os esquerdinhas vão viralizar? — claro. tem tudo que eles gostam! a última era só machismo e viralizou horrores. essa tem machismo, racismo e homofobia. tá uma […]

enquanto isso, na redação de uma grande revista semanal:

— então, o que acham da capa dessa semana?

— hmmm. acho que tá faltando alguma coisa… será que os esquerdinhas vão viralizar?

— claro. tem tudo que eles gostam! a última era só machismo e viralizou horrores. essa tem machismo, racismo e homofobia. tá uma obra-prima.

— não sei. estou com um mau pressentimento. vocês sabem a gravidade da situação, né? ninguém mais lê essa bosta. metade dos assinantes parou de pagar e a gente continua mandando a revista de graça só pra não ter que admitir que a circulação caiu e perder todos os poucos anunciantes que sobraram. se esses mortadelas não viralizassem todas as merdas que a gente imprime, já teríamos caído na mais profunda irrelevância.

— fica tranquilo, chefe. você não conhece essa esquerda caviar. eu já namorei um ripongo-militante burguês-odara chamado acauã. ele acordava, corria direto pro facebook, em um minuto já encontrava alguma coisa pra se indignar, criava uma meme irônica, compartilhava com os amigos do coletivo, fazia um discurso apaixonado pra mãe por whatsapp e clicava num abaixo-assinado… tudo isso antes mesmo de levantar da cama. aliás, acho que sem essa carreirinha matinal de indignação, ele nem conseguiria levantar da cama.

— e se a gente bolasse uma capa que deixasse esses comunistas de facebook indignados a semana inteira? hein?

— aí eu já acho mais difícil. esses esquerdopatas são muito inconstantes. lá pelo fim da noite, o acauã já tinha perdido interesse pela indignação da manhã. no dia seguinte, nem lembrava mais. ele precisava de uma indignação nova todo dia, era uma compulsão. infelizmente, se quisermos que eles continuem colocando azeitona na nossa empada, vamos ter que parir um absurdo novo todos os dias.

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— deus nos ajude. tomara que não decidam começar a nos ignorar logo esse ano. eu prometi que levava as crianças na disney nas férias.

— não tem porque se preocupar. os petralhas sabem que precisam tanto de nós quanto nós deles. imagina só se não fosse a indignação do dia… se não fosse ter a nossa capa para zoar… era capaz de eles serem obrigados…. a SAIR NA RUA E FAZER ALGUMA COISA!

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— hahahahahaahahahah! porra, você me fez cuspir café no monitor!

— imagina! se filiar a um partido! subir o morro! ocupar uma escola! vandalizar um itaú!

— pára, pára, não aguento! hahahahahahahaha!

— ai! fiquei sem ar só de imaginar o acauã numa favela! ele compartilhava UM abaixo-assinado contra o bolsonaro e já se sentia o herói da resistência, ia dormir com a consciência limpa e o dever cumprido!

— hahahahahahahahahaha! chega! chega!

— ai ai. enfim, chefinho, capa aprovada?

— capa aprovada. manda pra gráfica e seja o que deus quiser!

* * *

acauã sou eu.

esse texto não é uma crítica: ele é uma AUTOcrítica, direcionada antes de tudo a mim mesmo.

se a carapuça que costurei sob medida para a MINHA cabeça também couber na SUA, bem-vinda ao clube.

* * *

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veja mente

foto: sede da editora abril, vandalizada por manifestantes em outubro de 2014.

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Outrofobia

outrofobia. s.f. rejeição, medo ou aversão ao outro. termo genérico utilizado para abarcar diversos tipos de preconceito ao outro, como machismo, racismo, homofobia, elitismo, transfobia, classismo, gordofobia, capacitismo, intolerância religiosa, etc. claudia regina é fotógrafa. alex castro é escritor.

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