Outrofobia

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26 de novembro de 2016, 10h22

Era Fidel Castro homofóbico?

Uma das personagens principais do meu romance “Quem não está” é uma velha lésbica cubana e, por isso, o romance faz um rápido apanhado da história da Revolução e da homossexualidade.

Abaixo, um trecho. As opiniões do narrador, obviamente, não são necessariamente as minhas:

“Enquanto isso, aproveitei a ausência de Rosa María para conversar com Neloah:

 

— Sempre que aparece esse assunto, alguém puxa do bolso a tal frase infeliz do Fidel. Sim, ele disse que não acreditava que um homossexual pudesse ser um verdadeiro militante comunista revolucionário e que homossexuais não deveriam estar em posição de influenciar os jovens. (1) Mas nunca citam que ele qualificou e relativizou esse absurdo várias vezes. Nunca citam que Fidel e a Revolução fazem mea culpa desse absurdo há quase cinquenta anos. Nunca citam os tantos outros chefes de estado dessa mesma época que falavam absurdos ainda maiores. O próprio Lula, antes mesmo de fundar o PT, deu uma entrevista famosa para um jornal gay afirmando que não havia homossexuais na classe operária e que as lésbicas eram umas burguesas desocupadas. (2) E eu te pergunto: faria sentido usar essa frase pra acusar o Brasil ou o Governo Lula de homófobos hoje em dia?

 

— É, mas nem o Brasil e nem o Governo Lula, em nenhum momento, criaram campos de concentração para homossexuais, né, Rodrigo? Pelo contrário, enquanto a gente quebrou as patentes dos coquetéis contra a AIDS, os cubanos prenderam e isolaram os soropositivos em quarentena forçada. (3) O Brasil pode não ser nenhum paraíso GLS mas são duas trajetórias nacionais bem diferentes. Além disso, em Cuba, esse governo ainda está no poder. E nós, quantos governos já tivemos desde que Fidel derrubou o Batista? Quinze? (4)

 

— Claro que não estou defendendo a presidência vitalícia do Fidel, mesmo ele sendo um dos maiores líderes do século, mas quase todos esses absurdos que a direita adora puxar do chapéu foram cometidos no quinquenio gris, lá na década de setenta, o período mais soviético e repressivo da Revolução. (5) Para todos os fins e efeitos, foi outro governo sim. E, além disso, a sociedade cubana já fez uma autocrítica muito mais contundente do quinquenio gris do que, digamos, o Brasil e nossa ditadura. A Folha ainda hoje comete editoriais chamando o regime militar de “ditabranda” e muito leitor aplaude. Em Cuba, ninguém, a começar pelo próprio Fidel, acha que as UMAP foram uma boa ideia. (6) De lá pra cá, o governo cubano reverteu todas essas práticas, tirou as referências ao homossexualismo do Código Civil (7), colocou casais gays nas novelas (8), e hoje faz até cirurgias de troca de sexo. O Cenesex, que a Rosa María mencionou, é dirigido pela própria filha do Raúl, promove mil campanhas de tolerância e diversidade, está até fazendo lobby na Assembleia Nacional para aprovarem o casamento entre pessoas do mesmo sexo. (9) Apesar de todos os absurdos cometidos, Cuba é hoje um dos melhores países latino-americanos para ser homossexual — talvez o melhor. Lá no sul dos Estados Unidos, ainda existem leis severas contra homossexualidade que proíbem o sexo anal mesmo entre adultos, sem ninguém ver, dentro de casa. (10) E nosso querido Brasil-sil, enquanto isso, país do carnaval blá blá, também é o país da homofobia, com números altíssimos de crimes violentos contra homossexuais. O quinquenio gris realmente não foi fácil, eu me lembro, estava aqui, mas foi uma fase que passou rápido e foi totalmente repudiada.”

 

Notas (também escritas pelo narrador):

 

“1. A fonte original dessa citação, que já ouvi até ser chamada de apócrifa, é o livro Cuba’s Fidel (1965), de Lee Lockwood, e o texto completo é: “Nunca hemos creído que un homosexual pueda personificar las condiciones y requisitos de conducta que nos permitan considerarlo un verdadero revolucionario. Una desviación de esa naturaleza choca con el concepto que tenemos de lo que debe ser un militante comunista”.

 

2. Entrevista ao jornal Lampião da Esquina, editado pelo escritor e ativista João Silvério Trevisan, edição de julho de 1979. Se Lula fazia afirmações assim como líder operário sendo entrevistado em um jornal gay, é de se imaginar o que não falava na mesa de bar entre amigos.

 

3. Em um capítulo vergonhoso, mas tristemente eficiente, da Revolução, Cuba controlou a AIDS colocando seus soropositivos em quarentena total. Somente em 1989 eles obtiveram o direito de circular semilivremente entre casa e sanatório. Em 1993, a internação nos sanatórios deixou de ser obrigatória. Hoje, a maioria dos soropositivos cubanos, quase todos homossexuais e bissexuais, apenas residem nos sanatórios por escolha própria.

 

4. De fato, se contarmos tanto Chefes de Estado quanto de Governo, sem incluir a Junta que governou o país por dois meses em 1969, o Brasil teve 17: Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros, Ranieri Mazzilli, Tancredo Neves, Brochado da Rocha, Hermes Lima, João Goulart, Castelo Branco, Costa e Silva, Emilio Medici, Ernesto Geisel, João Figueiredo, José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique, Lula. E, agora, em 2012 quando escrevo essas linhas, Dilma Rousseff. Vale a pena lembrar que, em fevereiro de 2008, Fidel comunicou à Assembléia Nacional que “no aspiraré ni aceptaré — repito — no aspiraré ni aceptaré, el cargo de Presidente del Consejo de Estado y Comandante en Jefe” — em uma comunicação em que citou até velhos comunistas brasileiros: “pienso como Niemeyer que hay que ser consecuente hasta el final.” No mesmo mês, a Assembléia escolheu Raúl Castro como o novo Presidente.

 

5. A própria expressão quinquenio gris, testamento da habilidade cubana de autocrítica e autorreflexão, foi cunhada pelo grande intelectual Ambrosio Fornet, que tenho orgulho de chamar de amigo e mestre.

 

6. No livro Cien Horas con Fidel, de Ignacio Ramonet, publicado em 2006, Fidel Castro fez a seguinte auto-crítica da postura revolucionária quanto à Revolução Cubana: “Con relación a los homosexuales había fuertes [prejuicios]… la parte de responsabilidad que me corresponda la asumo… Yo tenía opiniones, y más bien me oponía y me había opuesto siempre a cualquier abuso, a cualquier discriminación, porque en aquella sociedad había muchos prejuicios. Ciertamente los homosexuales eran víctimas de discriminación. En otros lugares mucho más que aquí, pero si eran, en Cuba, víctimas de discriminación, y afortunadamente, una población mucho más culta, más preparada ha ido superando esos prejuicios. … Había — y hay — destacadísimas personalidades de la cultura, de la literatura, gente famosa, orgullo de este país, que eran y son homosexuales, y han gozado y gozan de mucha consideración y mucho respeto en nuestro país. Así que no hay que pensar en sentimientos generalizados. En los sectores más cultos y más preparados había menos prejuicios contra los homosexuales. En los sectores con mucha incultura —un país en aquel tiempo de un 30 por ciento de analfabetismo— eran fuertes los prejuicios contra los homosexuales, y en los semianalfabetos también y hasta en mucha gente que pueden ser profesionales. Eso era una verdad en nuestra sociedad. … La discriminación contra los homosexuales ya es un problema bastante superado. La adquisición de una cultura general integral, el pueblo que tenemos hoy… No le voy a decir que no haya machismo, pero ya no como el de aquella cultura nuestra en que era muy fuerte”.

 

7. Em 1975, o Tribunal Supremo reverteu todas as leis e resoluções oficiais impedindo homossexuais de trabalhar em educação e cultura. Em 1979, ser gay deixou de ser crime, mas a “ostentação da homossexualidade” continuou proibida: segundo o artigo 359 do Código Penal, era proibida a “pública ostentación de su condición homosexual o importune, o solicite con sus requerimientos a otro”. Além disso, realizar “actos homosexuales en sitio público o en sitio privado, pero expuestos a ser vistos involuntariamente por otras personas” também continuava proibido, por ser considerado delito “contra el normal desarrollo de las relaciones sexuales”. Sucessivas reformas, em 1988, 1997 e 1998, eliminaram toda e qualquer linguagem homofóbica do Código Penal. A categoria “escándalo público”, por exemplo, antes definida explicitamente como importunar publicamente com “requerimientos homosexuales” foi substituída por “ultraje sexual”, definido como “acoso con requerimientos sexuales”.

 

8. Em 1998, a telenovela cubana La otra cara de la moneda, exibida pela TVC, teve uma rápida subtrama lésbica. Em três capítulos, duas moças se conheceram, se apaixonaram, uma delas largou o marido violento e alcoólatra, saiu do armário para a outra e, convenientemente, morreu num acidente de trem. Não houve beijos nem nenhum contato físico. Para os brasileiros, o episódio parece estranhamente reminiscente de Vale Tudo, exibida dez anos antes, onde também havia um casal de lésbicas estável e simpático, donas de pousada e de bem com a vida, e que ainda faziam a todos a imensa gentileza de não se encostar em público para não constranger os telespectadores. Uma vez marcada sua presença, a menos atraente das duas foi convenientemente morta em um acidente de carro — justamente para não esfregar por muito tempo sua felicidade homossexual na cara da sociedade. Exibida pouco depois em Cuba, a novela fez tanto sucesso que o nome do restaurante da personagem Raquel, interpretada por Regina Duarte, acabou batizando os paladares cubanos. Recentemente, no Brasil, a novela Mulheres Apaixonadas (Globo, 2003) também apresentava duas namoradinhas adolescentes lésbicas que, mais uma vez, não se encostaram durante a trama inteira. Parte do público clamava por um beijo e a outra parte ameaçava jogar fora os televisores se isso acontecesse. Por fim, no último capítulo, as duas meninas participaram de uma montagem escolar de Romeu e Julieta e se beijaram no palco, interpretando seus personagens masculino e feminino e não mais como duas mulheres — uma solução salomônica que, se não deixou ninguém feliz, também não deixou ninguém revoltado. Pouco depois, em Cuba, mais um passo. A telenovela El balcón de los helechos (TVC, 2004) apresentou um casal de lésbicas, ambas simpáticas e felizes, que criavam juntas um menino e que conseguiram a façanha de sobreviver ao último capítulo. Entretanto, também jamais trocaram carícias ou se beijaram, e a novela nunca mencionou sua óbvia e explícita condição de casal: imagino que em caso de reclamações por parte de elementos mais conservadores, a produção poderia argumentar que eram apenas duas excelentes amigas — que criavam juntas um filho! Os marginalizados quase sempre precisam se satisfazer, e ainda lamber os beiços, de poderem ao menos desfrutar desse tipo de pequena existência elíptica.

 

9. Poucos meses depois de nossa conversa, em dezembro de 2007, celebrou-se o casamento (simbólico) de Mônica e Elizabeth, o primeiro realizado em Cuba com apoio estatal. Vestidas ambas de noiva, elas se uniram no pátio interior do Cenesex, com presença e estímulo da própria diretora, Mariela Castro. O casamento não teve valor legal, mas o tema do casamento homossexual, por iniciativa do Cenesex e da Federación de Mujeres Cubanas, já está sendo debatido na Assembleia Nacional. Enquanto isso, segundo Mariela afirmou a um jornal cubano, uma das atribuições do Cenesex é justamente fazer campanhas educativas para preparar o povo para essa mudança.

 

10. Na verdade, eu estava errado, mas somente por quatro anos. Foi somente em 2003 que a Suprema Corte norte-americana derrubou todas essas leis estaduais, decidindo que a conduta sexual privada é protegida pela constituição. Nesse ano, catorze estados ainda tinham leis contra a sodomia e, até hoje, três estados ainda possuem leis contra a “conduta” homossexual em público.”


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