O furacão Katrina não foi um desastre natural

Um pedido aos jornalistas brasileiros: não chamem o furacão Katrina de desastre natural.

Sábado, o furacão Katrina completa dez anos e muitos jornalistas brasileiros vão escrever sobre ele. Um pedido: não chamem o que aconteceu de desastre natural.

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Depois da passagem do furacão Katrina, Nova Orleans ficou debaixo d’água.

Durante os séculos XVIII e XIX, a cidade só ocupara áreas altas, pouco atingidas por inundações. Por isso, o centro histórico e os bairros mais antigos sofreram danos, mas não foram destruídos.

Os diques tinham sido construídos no começo do século XIX justamente para possibilitar a ocupação imobiliária das áreas mais baixas, até então vazias e inabitáveis.

Esses bairros mais recentes, ao mesmo tempo os mais pobres e os mais ricos, é que foram lavados do mapa quando os diques romperam.

Para fins de comparação, se os bairros cariocas construídos no século XX fossem destruídos, perderíamos tudo entre Copacabana e o Recreio dos Bandeirantes. Já São Paulo tinha apenas trezentos mil habitantes em 1897: se a cidade perdesse todos os bairros ocupados no século XX, não sobraria quase nada, só Luz, República, Sé.

O bairro universitário onde eu morava, Uptown, construído no século XIX em torno da Universidade de Tulane, teve só um metro de água — o que, acreditem ou não, no contexto de uma cidade onde quase todas as casas são elevadas, é um bairro que não alaga. Nos lugares que sofreram maior destruição, como o Lower Ninth Ward, a profundidade chegou a três metros.

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Os bairros mais ricos e os mais pobres foram destruídos, com uma enorme diferença.

As pessoas brancas e ricas não morreram no Katrina: elas simplesmente colocaram a família nos seus SUVs, encheram os tanques e aproveitaram para viajar e fazer turismo.

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(No furacão seguinte, Gustav, em 2008, eu aluguei um carro e passei a semana na casa de uma amiga em Nova Iorque.)

Entretanto, grande parte das pessoas de Nova Orleans não eram nem brancas nem ricas e viviam de mês a mês. Não tinham nem carro e nem dinheiro para alugar carro, e muito menos reservar pousadas e comprar passagem de avião. Muitas eram idosas e tinham problemas de locomoção.

Essas foram a maioria esmagadora das vítimas do Katrina.

Até hoje, as pessoas negras de Nova Orleans se ofendem quando alguém se refere ao Katrina como um “desastre natural”.

Furacões são parte inevitável da vida no Caribe e Golfo do México. Eles são inocentes. O Katrina nunca matou ninguém.

O que houve em Nova Orleans foi uma limpeza étnica que expulsou boa parte da população negra da cidade e lavou do mapa vários bairros pobres, liberando-os para a especulação imobiliária e criando oportunidades de negócio que foram entusiasticamente (e sem nenhuma vergonha) celebradas pela elite branca da cidade.

Em Cuba, país mais pobre e de construções menos sólidas, o Katrina passou com a mesma força e não morreu um único cidadão, de qualquer cor.

As mortes nos Estados Unidos foram causadas não pelo furacão, mas por políticas públicas centenárias que conscientemente protegem as pessoas brancas e afluentes e deixam à própria sorte as pessoas negras e mais pobres.

Não houve nada de natural em nenhuma morte ocorrida em Nova Orleans durante a passagem do furacão Katrina.

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Por favor, repasse ao seu jornalista favorito.

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resgate do oliver durante o katrina (4)

Foto: resgate do meu cachorro Oliver, alguns dias depois do furacão Katrina. Reparem nos carros boiando. De novo, o meu bairro foi um dos que tecnicamente não alagou, pois a água nem chegou a entrar nas casas. Foto de Mark Gong.

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Terça agora, em São Paulo, será o lançamento do meu novo livro, A Autobiografia do Poeta-Escravo. Compareçam!

Lançamento paulista: Terça, 1º de setembro, 18h, Livraria da Vila, Fradique.
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Outrofobia

outrofobia. s.f. rejeição, medo ou aversão ao outro. termo genérico utilizado para abarcar diversos tipos de preconceito ao outro, como machismo, racismo, homofobia, elitismo, transfobia, classismo, gordofobia, capacitismo, intolerância religiosa, etc. claudia regina é fotógrafa. alex castro é escritor.

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