Queremos espaço no mundo, por Anna Haddad #AgoraÉQueSãoElas

Uma das principais maneiras de um homem apoiar o feminismo é levá-lo até espaços tipicamente masculinos. Outra maneira é amplificando as vozes das mulheres, normalmente tão silenciadas. Por isso, como parte da campanha  #AgoraÉQueSãoElas, estou abrindo o Outrofobia para a Anna Haddad, militante feminista, criadora da interface de aprendizado colaborativo Cinese e da comunidade de empoderamento feminino […]

Uma das principais maneiras de um homem apoiar o feminismo é levá-lo até espaços tipicamente masculinos. Outra maneira é amplificando as vozes das mulheres, normalmente tão silenciadas. Por isso, como parte da campanha  #AgoraÉQueSãoElas, estou abrindo o Outrofobia para a Anna Haddad, militante feminista, criadora da interface de aprendizado colaborativo Cinese e da comunidade de empoderamento feminino Comum.vc. Não é uma iniciativa perfeita, claro, mas é um novo tijolinho em um edifício que esperamos construir juntas. (Alex Castro.)

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Nas últimas semanas, nós, mulheres, fomos protagonistas (e pauta) na web e nas ruas. Abrimos o bico contra a pedofilia que cercou a Valentina, de 12 anos, no MasterChef Júnior (texto lindo da Carol Patrocínio seguido da campanha #meuprimeiroassedio, do Think Olga), e saimos nas ruas contra o PL n. 5069/2013, de autoria do deputado e presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que tenta restringir atendimento hospitalar às vitimas de estupro e reduzir o entendimento legal de violência sexual.

Temos feito isso mais e mais, ainda que seja muito mais difícil do que parece. Estamos tomando, devagar, espaços que não são nossos, que nunca foram.

A verdade é que não temos espaço no mundo.

Espaço (físico e subjetivo) das mulheres é, no máximo, o do lar. Das tarefas domésticas, da criação dos filhos – nossa tarefa celestial, comandada pela natureza. Nossa missão, ensinada desde que nascemos pelos nossos pais, pela mídia, pela cultura em que vivemos – seja de um jeito ostensivo ou mais sutil (e igualmente opressor) – é a de que devemos servir. A de que os homens vêm primeiro. Eles sabem mais, são seres mais inteiros, mais preparados. Têm mais capacidade física e intelectual para lidar com os problemas do mundo e conosco. Por isso mesmo é que eles ocupam os lugares de poder e têm mais voz. Por isso é que eles falam mais alto, têm mais coragem. Faz sentido, a conta fecha.

Junto com isso vem a lição de que devemos ser silenciosas. Existir quase que de leve, sem chamar muita atenção. Não ser muito bonita nem muito feia, falar baixo, não usar roupas chamativas, ter sucesso sem fazer estardalhaço – é o ideal. Mulher que merece respeito é a mulher que dá conta do recado, é o pacote completo, mas sem se gabar muito. Boa mãe, boa profissional, boa esposa, em silêncio.

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Essa poesia da Lily Myers, “Mulher que encolhe” em português,  fala bem disso:

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“Meu irmão nunca pensa antes de falar. Eu fui ensinada a filtrar. (…) Eu quero dizer: nós viemos da diferença, Jonas. Você foi ensinado a expandir, e eu, a retrair. Você aprendeu com o nosso pai a emitir, produzir, a colocar cada pensamento para fora com confiança. Você costumava perder a voz vira e mexe por gritar muito. Eu aprendi a absorver.”

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Caso contrário, se chamarmos muita atenção, nosso espaço pode ser pior, o do outro extremo: se não é santa, é puta. É o que nos ensinam também.

Ao invés do lar, da maternidade angelical, a objetificação, o julgamento, as piadas e a violência. A escória das escórias. Nas capas de revista, nos programas da Globo, em qualquer esquina onde houver um boteco e um grupo de homens, o patriarcado nos mostra que, se não consegue controlar de um jeito, sexualiza com dominação.

Historicamente, estamos esmagadas entre a santificação e a hipersexualização.

Não, obrigada. Nenhum desses espaços nos servem mais.

Vamos ocupar temporariamente colunas nos blogs e jornais, sim. Vamos também produzir cada vez mais o nosso próprio conteúdo. Vamos ter as profissões que quisermos. Vamos ser mães e cuidar da casa, se desejarmos. Vamos ter a aparência que bem entendermos – peso, cabelo, bundas e peitos. Nossos passos vão fazer barulho, e vamos ser notadas sim – sem que isso dê direito ao assédio.

Vamos ocupar os espaços que hoje são dos homens. Vamos também construir, cada vez mais, espaços só de mulheres. Pra gente poder se reconhecer, antes de tudo. Encontrar os espelhos, entender que não, não estamos loucas, não, não somos piores.

Estamos juntas, somos livres, e merecemos ocupar o espaço que quisermos, em pé de igualdade.

anna haddad
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Outrofobia

outrofobia. s.f. rejeição, medo ou aversão ao outro. termo genérico utilizado para abarcar diversos tipos de preconceito ao outro, como machismo, racismo, homofobia, elitismo, transfobia, classismo, gordofobia, capacitismo, intolerância religiosa, etc. claudia regina é fotógrafa. alex castro é escritor.

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