Potência Política

por Adriana Mendes

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17 de março de 2020, 14h46

Idosos do mundo, não se sintam sós

O que já se sabe, desde quando se tem notícia do novo coronavírus, é que os idosos são os mais atingidos

(Foto: José Cruz/Agência Brasil)

Surgiu na China, no final do ano passado e parecia tão distante há três meses. E o coronavírus, em forma de Covid 19, poderia não ser uma pandemia, se todos tivessem agido rápido. Falta de aviso da OMS (Organização Mundial da Saúde) não foi. Eu tenho acompanhado o desenvolvimento da doença (todos os dias) e sua expansão para todos os continentes, sempre tentando informar sem alarmismo, mas também não sendo leviana e tratando como uma gripe comum, porque é um novo vírus e não sabemos ao certo como age e por quanto tempo ficará ou se o infectado pode se infectar de novo.

O que eu podia fazer era me cuidar, me alimentar bem, lavar sempre as mãos e informar os outros, sem pânico, sem alarmismo e com fatos. Como aprendi no jornalismo: “contra fatos, não há argumentos”. E os fatos estavam ali, cabendo à grande imprensa e mídias alternativas noticiá-los e aos chefes de Estado planejar estratégias para combater a disseminação do vírus.

E enquanto o mundo alerta sobre a necessidade de isolamento social para evitar a propagação tão rápida do vírus (além de não abraçar, dar apertos de mãos e beijos), temos um presidente que vai em manifestação para fechar o Congresso e apertar as mãos de seus “fãs”, além de fazer selfies. Que diz em coletiva de imprensa que essa pandemia é fantasia da mídia mundial.

Depois das imagens bizarras de ontem, do presidente idoso, cumprimentando manifestantes que pedem volta do AI-5, incentivando uma legião de idosos a tomar as ruas em aglomerações desnecessárias, tive uma sensação de derrota.

O que já se sabe, desde quando se tem notícia do novo coronavírus, é que os idosos são os mais atingidos, principalmente os acima dos 80, por sua imunidade mais baixa, devido ao próprio envelhecimento das células. Sou filha única e minha mãe tem 84 anos, mora sozinha, faz tudo sozinha e ainda fica com a neta de 11 anos quando viajo para compromissos de trabalho.

Então só pude pensar na idosa que tenho e que preciso alertar (e que já vinha alertando há dois meses). Na chamada de vídeo que fiz na tarde de domingo, vejo que minha mãe está na casa de uma sobrinha, imobilizada por ter operado o joelho e impossibilitada de cuidar da irmã com múltiplas deficiências. Está cuidando delas!

Claro que acho incrível que alguém nessa idade, independentemente de ser minha mãe, ainda cuide dos outros, que seja tão ativa e se sinta tão útil. Mas não nesse momento, não fazendo parte desse grupo. Conversei com muitos amigos e concluímos a dificuldade que é mudar de hábitos para a maioria dos idosos. Eu estava evitando encontrar minha mãe, não porque eu esteja me sentindo doente, mas porque viajei bastante nos últimos 15 dias, fiquei em auditórios e eventos lotados, cumprimentei muitas políticas, de vários estados. E vai que eu tenho o vírus incubado e estou assintomática.

Porém, achei necessário fazer um tratamento de choque e fui até lá. Fiz com que ela assistisse ao Fantástico comigo (com os idosos que seguem rotina não é bom nem mudar de canal), que dedicou o programa ao novo coronavírus e ao ato do presidente, que foi contra tudo que o próprio Ministério da Saúde direcionou. Expliquei que é por pouco tempo e que ela não deve mais ir todas as manhãs ao mercado, nem cuidar das sobrinhas, que recebem visitas e que esse é o momento de se resguardar.

Ela ainda pediu um abraço para a neta na hora de se despedir, mas a própria neta disse que era para evitar contato físico. E voltei pensando na situação dos idosos, que talvez já se sintam um pouco abandonados e que agora devem seguir isolados. O que podemos fazer para que não se sintam sós? E pensei em toda a população em situação de rua, que não pode ficar isolada na moradia que não possui, nem lavar as mãos.

O Movimento Nacional da População em Situação de Rua (MNPR) estima que, hoje, cerca de 40 mil pessoas vivam nas ruas da cidade de São Paulo, a maioria muito debilitada e também idosa. Como essas pessoas terão tratamento? Imaginei um cenário de guerra, com pessoas mortas por gripe, nas ruas. O que podemos fazer para que isso não aconteça? Não andar pelas ruas, não sair de casa, ficar em isolamento também, para não transmitir a doença para essas pessoas em situação de risco? Mas e os que não podem ficar em casa? Como fica o motorista de aplicativo ou o funcionário do lar que, se não for trabalhar, não tem almoço em casa no dia seguinte?

Nos tempos de crise podemos tirar o melhor e o pior de nós. Podemos levar ajuda, comida e produtos de higiene para os que nada tem ou podemos acabar com os estoques de álcool gel das farmácias, mesmo não tendo idosos ou pessoas com doenças imunodepressivas em casa. Não precisamos estocar produtos, enquanto a maioria da população não consegue comprar arroz e feijão todos os dias, nem acabar com as máscaras que os profissionais da saúde precisam usar.  Mas devemos, sim, nos preparar para uma grande recessão econômica, que pode, de alguma forma, resgatar a condição humana ou nos colocar no limbo da história.


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