Não sabemos o que será e nunca soubemos

Leia no blog Potência Política, de Adriana Mendes: "A transformação mais rápida de costumes de uma sociedade. Uma transformação global, mostrada em tempo real. Não sabemos o que será e nunca soubemos. A única certeza é que a mudança já aconteceu. Nada será como antes"

E hoje é meu 17º dia de distanciamento social, o 17º desde que minha filha caçula, Miranda, foi dispensada da escola municipal onde estuda, em Santos (SP). Dora, a mais velha, já tinha sido dispensada pela Unicamp (Universidade de Campinas), primeira universidade a evacuar a área, deixá-la sem alunos e sem profissionais. Todas as minhas futuras viagens, encontros, seminários, palestras e apresentações foram adiadas. O tempo? Indeterminado. Naquele 10 de março, a pandemia do COVID 19 começava a mudar totalmente nossas rotinas, consequentemente, nossas vidas.

E em todos esses dias sem abraçar, sem conversar olhando nos olhos de tantas pessoas que eu encontrava com frequência, sem ter liberdade de ir e vir, de caminhar, de nadar, de sair para dançar ou memso sentar numa praça e ver as pessoas passando, mais eu percebo a importância de todas as coisas e de cada atitude.

Nesses dias de reuniões virtuais para campanhas de eleições (que já se fala em adiamento) ou para ações de trabalhos que nem sabemos se poderemos fazer, de aniversários de amigos distantes, comemorados com outros amigos distantes, na tela do computador e do celular, mais eu quero encontrá-los e abraçá-los e celebrar a vida.

Quanto mais leio notícias, comento em grupos de Whatsapp, posto nas redes sociais, checo informações e me informo, mais me conformo que não há nada a fazer, a não ser viver um dia de cada vez, sem projeções. Quem tem o privilégio de ter um lugar para morar, poder ficar nele e ainda conseguir se comunicar com o mundo, deve ficar onde está. Nunca foi tão fácil para os privilegiados. Mesmo assim, muitos deles, de nós (porque se você está lendo isso, é sem dúvida, um privilegiado), não consegue, não quer ficar em casa, não acredita que adoecerá. E não pensa que, mesmo não adoecendo, pode adoecer e levar à morte muitas pessoas. Nunca vi tanto egoísmo em tantas pessoas num mesmo momento. As redes sociais, a famílicia do Governo, me mostram, diariamente, a mais baixa frequência humana. Como não existe só o mal, também vejo ações de solidariedade, grandes doações, companheirismo, parcerias de trabalho entre amigos e grupos, conexões quase cósmicas.

Estamos no divisor de águas da existência humana, que no último século praticou as maiores atrocidades da história contemporânea. A maior delas, o nazismo. “Não pela quantidade, mas pela intenção”, como já escreveu o filósofo, escritor, anarquista, Noam Chomsky *. E mesmo a história do nazismo sendo tão recente, percebia, angustiadamente, o neonazismo e o fascismo sendo mostrados sem o menor pudor, se alastrando. Nada estava sendo feito. Foram colocados no poder, por vontade popular, representantes autoritários, ditadores, neoliberais exploradores, em várias partes do mundo.

Mas a partir da pandemia, que ataca todos os continentes, vejo a maioria dos líderes, de diferentes partidos, posições políticas e etnias, na guerra contra o mesmo inimigo invisível, imprevisível, destruidor da economia mundial. O inimigo que, de uma forma ou de outra, irá dizimar parte da população do planeta, seja por sua ação mortal direta, seja pelo desastre econômico anunciado. Esse inimigo assombra a mesma população que explora e devasta, que não pensa em deixar riquezas naturais para as próximas gerações, que despeja toneladas de dejetos químicos, de plástico e fumaça na terra, no mar e no ar, que nada cobram por tudo o que dão.

E desde que o inimigo invisível do homem atingiu o planeta, o mar está mais verde, o céu mais azul, as pessoas ficam em casa e produzem menos lixo e consomem menos e priorizam suas necessidades e reavaliam os significados de suas vidas e de sua contribuição para a preservação da espécie. Não todas as pessoas. Mas muitas pessoas, centenas de milhares. É um momento histórico sem precedentes. A transformação mais rápida de costumes de uma sociedade. Uma transformação global, mostrada em tempo real. Não sabemos o que será e nunca soubemos. A única certeza é que a mudança já aconteceu. Nada será como antes.

*Noam Chomsky é uma das duas pessoas vivas que mais admiro. Quero esse senhor, esse idoso, esse velhinho tão produtivo, inteligente, humanista e sensato entre nós, por muito mais tempo.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum

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Adriana Mendes

Jornalista, integrante dos Coletivos Vote Nelas e Mães na Luta, ativista pelo desarmamento.