Quilombo

por Dennis de Oliveira

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12 de Maio de 2016, 11h24

Depois da ressaca do golpe, pensar o presente e o futuro

Hoje parece um dia de ressaca. Como era esperado, o golpe parlamentar-jurídico-midiático foi consumado ontem pelo Senado. A partir desta quinta feira, dia 12 de maio, assume um novo governo com uma plataforma política que não foi aprovada pelas urnas.

Alguns detalhes deste processo chamam a atenção.

O primeiro é que a concepção de Estado mínimo que está presente no projeto político do governo Temer não tem apoio da maioria da população. Por isto, ele pouco é mencionado, tanto na mídia hegemônica que o apóia, como dos próprios defensores deste novo governo.

A crítica ao governo do PT centrou-se unica e exclusivamente no tema “corrupção”. Beirou a hipocrisia, pois quase todos os atuais governistas estão envolvidos até o pescoço em casos de corrupção. E só foi possível colar este tema ao governo do PT por conta do apoio do Poder Judiciário que tem se comportado de forma seletiva e política no acolhimento e julgamento dos casos e da mídia hegemônica.

Construiu-se no imaginário da população, em especial da classe média, de que as pessoas trabalham muito, pagam muitos impostos e o Brasil não vai para a frente por que os “petistas roubam o dinheiro”. Daí que a discussão política descambou para a histeria completa em que sobraram ofensas e xingamentos, faltaram argumentos lógicos e racionais.

O segundo detalhe é que boa parte do que aconteceu também se deveu a uma dificuldade das organizações progressistas em saber renovar o seu discurso e reconstruir as utopias.

O PT e os partidos aliados cresceram porque souberam consolidar no imaginário das pessoas que elas poderiam superar a pobreza, ter acesso à instrução, ascender socialmente e poder consumir mais. Em boa parte isto ocorreu.

Como disse o colega Renato Rovai, uma criança que tinha oito anos quando Lula foi eleito em 2003, está hoje com 21 anos. Muitas destas crianças que eram muito pobres podem estar hoje na universidade, tendo acesso as tecnologias de informação e comunicação e com possibilidades de emprego e inserção social não sonhadas pelos seus pais antes de 2003.

OK, mas, como disse Raul Seixas, em “Ouro de Tolo” – e daí? Para estes jovens, não se trata mais de um sonho, mas de uma realidade. E que pode ser desconstruída rapidamente neste governo que promete cortar os investimentos sociais. Neste sentido, boa parte desta juventude, ao perceber isto, certamente vai engrossar a oposição ao novo governo que terá muitas dificuldades de aplicar o seu projeto. Inclusive, ha indícios claros de que a opção dos golpistas é apelar para o recrudescimento da repressão (a indicação do truculento Alexandre Moraes para o ministério é um sinal nítido disto).

Mas, voltando a esta esquerda institucional. Qual a utopia que apresenta para este jovem da periferia que conseguiu ter uma relativa ascensão social? Apenas a inclusão do mundo do consumo? Como os movimentos sociais clássicos, em particular  o movimento negro que nos últimos anos privilegiou em demasia as ações institucionais, que ainda tem pequena inserção na periferia, irão estabelecer este diálogo com estes jovens que tem experimentado formas novas de agir político, de cooperação e de construção coletiva?

Enfim, resistir ao golpe é preciso, mas é necessário ir além de uma mera resposta. Reinventar o agir político é mais que urgente.


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