segunda-feira, 21 set 2020
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O pseudomoralismo é hipócrita, machista e racista

O moralismo como prática política é seletivo e hipócrita.

Na dita campanha contra a corrupção, este pseudomoralismo queria sangue. Defendia linchamentos públicos sem qualquer controle. Banana para a lei, para direito ao contraditório, para o direito à defesa.

Na votação do impeachment na Câmara no dia 17 de abril, evocavam Deus, família, etc.

Agora no dia 21 de maio, uma jovem é estuprada por mais de 30 homens, com cenas filmadas e divulgadas. E a polícia diz que está investigando se “realmente houve o crime de estupro”. Alega que precisa ser cuidadosa na investigação.

Como se costuma dizer, o estupro é o único crime que a vítima tem que provar que é vítima. Ninguém que tem a carteira roubada precisa provar que não quis que a carteira fosse roubada. Ou então ninguém fala que “atraiu o ladrão com a carteira”.

Uma mulher estuprada não. Primeiro ela precisa fazer ginástica para provar que realmente foi estuprada, que não houve consentimento. Depois, aguentar o velho discurso de que usou roupas provocantes que facilitou o estupro.

No caso da adolescente do Rio de Janeiro, já se fala que ela “não era santa”, “que já  tinha ficado com um monte de caras”, “que era do funk”,…

Na obra “O consenso manufaturado”, o pensador estadunidense Noam Chomsky fala das “vítimas merecedoras e não merecedoras”. As vítimas merecedoras de apoio e solidariedade são aquelas cujo comportamento são adequados ao que considera normal. Que tem o perfil dos segmentos socialmente incluídos e hegemônicos.

O caso que envolveu a modelo e apresentadora Ana Hickmann é um destes. Ela é uma vítima merecedora de toda a compaixão e apoio. Celebridade midiática, pele alva, circula no circuito dos famosos… O cara que tentou matá-la mereceu morrer.

A adolescente que foi estuprada por mais de 30 homens não. Pouco importa se tratar de uma menina de 16 anos. Nem o sadismo de disseminar o vídeo pelas redes sociais. Ela não é celebridade. É da periferia, do funk, não tem a tez macia e alva. Não é uma vítima merecedora.

Por isto o pseudomoralismo é seletivo. Hipócrita. Machista. Racista.

Dennis de Oliveira
Dennis de Oliveira
Jornalista e professor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP).