Quilombo

por Dennis de Oliveira

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30 de janeiro de 2018, 22h12

A condenação de Lula e aqueles que saem do seu devido lugar

Por Dennis de Oliveira

Cena 1 – A presidente (como ela gosta de ser chamada ao invés de presidenta) do Supremo Tribunal Federal, Carmem Lúcia, dispara do jantar que participava, organizado pelo site Poder 360: a Corte não iria rediscutir a questão da prisão após decisão de segunda instância pois isto seria um “apequenamento” do Supremo, uma vez que interessa diretamente ao caso de Lula. Manchete nos principais sites, portais e outros órgãos do “jornalismo profissional” (como a mídia hegemônica gosta de ser chamada). O que não estava noticiado eram os participantes deste rega-bofe mas não escapou ao olhar atento do colega Renato Rovai: “estiveram presentes, além da presidente do STF, Cármen Lúcia, e da assessora Mariangela Hamu, os executivos André Araújo (presidente da Shell no Brasil), Flávio Ofugi Rodrigues (chefe de Relações Governamentais da Shell), Tiago de Moraes Vicente (Relações Governamentais e Assuntos Regulatórios da Shell), André Clark (presidente da Siemens no Brasil), Camilla Tápias (vice-presidente de Assuntos Corporativos da Telefônica Vivo), Wagner Lotito (vice-presidente de Comunicação e Relações Institucionais da Siemens na América Latina), Victor Bicca (diretor de Relações Governamentais da Coca-Cola Brasil), Camila Amaral (diretora jurídica da Coca-Cola Femsa), Júlia Ivantes e Delcio Sandi (Relações Institucionais da Souza Cruz) e Marcello D’Angelo (representante da Q&A Associados).” Gente do mais alto naipe da burguesia.

Cena 2 – A eterna quase ministra do Trabalho, deputada Cristiane Brasil, teve um vídeo gravado em um barco, ao lado de amigos, viralizado nas redes sociais. Passeando solenemente em uma embarcação, todos com roupas de veraneio, a quase ministra se defendeu das acusações de ter débitos trabalhistas, situação que a tem impedido de assumir o cargo negociado pelo seu pai, o deputado Roberto Jefferson, junto com o presidente Temer, nas negociatas feitas para conseguir a aprovação da reforma da Previdência no Congresso. O noticiário do “jornalismo profissional” deu um tom levemente machista e moralista no vídeo (o destaque foi o fato dela, mulher, estar ao lado de quatro homens sem camisa) mas uma frase dela é sintomático do que pensa a quase ministra do Trabalho: “”O que pode passar na cabeça das pessoas que entram contra a gente em ações trabalhistas?” Repito: ela foi nomeada para o Ministério do Trabalho, aquele que deveria ser o guardião dos direitos trabalhistas.

Cena 3 – O juiz Marcelo Bretas, da 7ª. Vara Federal do Rio de Janeiro e responsável pelos processos da Lava Jato naquele estado, recebe R$4 mil de auxilio moradia. Detalhe: a sua esposa também é juíza e recebe o mesmo auxílio. Não é um casal que segue o modelo de Simone de Beauvoir e Jean Paul Sartre: moram sob o mesmo teto. Recebeu a solidariedade do presidente da Associação dos Juízes Federais do RJ e ES, Fabrício Fernandes de Castro. Reportagem da Revista Fórum aponta: ele, Fabricio Fernandes, ganha também o auxilio moradia duplo (sua esposa é juíza e ambos recebem a graninha). Fala do Marcelo Bretas: é meu direito, fui buscar e ganhei. Simples assim.

Estas são as paisagens e vísceras dos donos do poder e que se atribuem legitimidade de fazer a “cruzada moral contra a corrupção” que condenou um ex-presidente por supostamente ter um apartamento na chiquésima praia de Guarujá e que teve o passaporte apreendido porque poderia fugir para a Etiópia. O perfil dos que ocupam o Ministério Público, Judiciário, Congresso Nacional, Executivo faz parecer que ainda não saímos do ancièn regime, porém sem o verniz intelectual dos saraus palacianos – ao invés disto, temos regabofes com empresários ou passeios de lancha com direito a gravações amadoras de vídeos sobre fatos de interesse público.

Esta aristocracia autolegitimada por um pretenso mérito – na esteira daquele procurador de São Paulo que citou o Manifesto Comunista de “Marx e Hegel” – buscam uma racionalidade nos operadores do “jornalismo profissional”. Alguns tiveram passagem na esquerda na universidade mas a única coisa que restou de libertário é defender a legalização das drogas para uso na Vila Madalena e afins. Mas na periferia… A periferia deve continuar onde está para poder ter mão de obra barata suficiente para limpar sua casa e passar suas camisas de algodão. Por isto, Lula é insuportável como figura política e deve ser destruído, mesmo que as custas de surgirem figuras sinistras como Bolsonaro e outros. Os pobres da periferia devem continuar sendo tratados como números estatísticos em casos de violência, concentração de renda, miserabilidade. Entrar na universidade, no shopping, nos aeroportos, é “inclusão pelo consumismo”, ensinam.

Enquanto isto, jovens pretos tocam projetos culturais na periferia de São Paulo em uma gestão cujo secretário de cultura ameaçou de agressão lideranças culturais porque foi contestado e agora é acusado de assédio sexual. Blocos e escolas de samba organizam o tradicional carnaval, gerando recursos e empregos, mas a festa é questionada como algo “supérfluo” e várias prefeituras simplesmente cortam recursos para este evento (embora muitas destas secretarias de cultura gastam enormidade de dinheiro para trazer artistas pops para shows de comemoração de aniversários de cidades).

Estas pessoas estão saindo do seu devido lugar. Meninos questionam um “intelectual que é secretário de cultura”. Blogueiros querem questionar os operadores do “jornalismo profissional”. Pretas e pretos querem organizar uma festa popular. E vem um presidente e ainda os estimula a ir para a universidade, consumir, viajar de avião…

A condenação de Lula no TRF-4 em 24 de janeiro tem muitos significados simbólicos, mas destaco este: é uma aristocracia branca, que se locupletou no poder desde os tempos de Cabral, que não quer largar o osso e quer colocar na fogueira quem ousar sair do seu devido lugar. Lula não foi e não é revolucionário e nem tampouco alterou profundamente este quadro, mas é um mau exemplo: um retirante nordestino querer frequentar estes espaços, como jantares oficiais, passeios de lancha, aeroportos internacionais, é inadmissível.

Foto: Ricardo Stuckert


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