Quilombo

por Dennis de Oliveira

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17 de agosto de 2012, 17h09

“A gente não quer só comida, quer diversão e arte”

Estive em Salvador no início de agosto e, a convite de dois antigos amigos meus de lá, o Léo Ornellas e o Valdir Estrela, fui ver o “Sarau Bem Black”, evento em que escritores, poetas, músicos e outros praticantes da arte negros apresentam seus trabalhos no Bar Sankofa, no Pelourinho, todas as quartas-feiras à noite.

– Este fenômeno da cultura de periferia tem crescido, a despeito de um certo desprezo do “mundinho oficial da cultura”. A cultura negra nasce como um grito contra a opressão – a capoeira, o candomblé, o samba e, mais recentemente, o hip-hop. Não se trata apenas de uma expressão simbólica de um punhado de “artistas” que se consideram iluminados. Mas sim a luta pela resistência e existência como povo, a manutenção das conexões com a ancestralidade e a proposição de alternativas.

O jovem de periferia tem se apropriado de tecnologias, está buscando produzir as suas próprias expressões culturais e criando alternativas criativas ao monopólio da indústria cultural. Isto tudo apesar de continuar sofrendo com o aumento da repressão dos aparelhos policiais nos bairros periféricos.

Nelson Macca, escritor e performático, no Sarau Bem Black no bar Sankofa, em Salvador (Leo Ornellas)

O movimento hip-hop nos anos 1980 foi fundamental para denunciar as políticas de extermínio de jovens negros nas periferias. De lá para cá, fomentou grupos de expressão cultural – via grafite, poesia, fanzines e música – que hoje se materializa em diversas experiências de grupos de teatro, saraus, DJ’s e até produção de filmes usando dispositivos móveis, como câmeras de celular.

Esta geração de artistas negros vem se articulando em rede. Nelson Macca, do Sarau Bem Black, em Salvador, esteve em São Paulo, na Bienal do Livro e estabelece contatos frequentes com os seus colegas da capital paulista, local do já famoso sarau da Cooperifa, e de outros menos conhecidos mas não menos importantes, como o Sarau da Brasa, na Freguesia do Ó, o Sarau Elo da Corrente, em Pirituba; o Sarau dos Mesquiteiros, na Zona Leste.

Estes escritores de periferia, além dos saraus, constroem sistemas independentes de publicação e venda, numa tentativa guerrilheira de furar o bloqueio das indústrias editoriais que praticamente ignoram esta experiência. Os cadernos de “cultura” da grande mídia ainda se limitam a comentar os grandes eventos dos cânones das artes brasileiras, aliás os que tem sido mais agraciados com as políticas atuais do Ministério da Cultura na gestão da irmã do Chico Buarque. Cultura negra admitida é só os desfiles de carnaval que rendem lucros fabulosos para a indústria da mídia e do turismo.


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