Quilombo

por Dennis de Oliveira

14 de setembro de 2017, 14h09

Carl Hart: “É preciso parar de usar o termo cracolândia”

Para o professor de Psiquiatria e Psicologia, usar essa expressão é "centrar o problema no uso da droga, não são usuários, são pessoas pobres, marginalizadas, a quem falta educação, saúde e oportunidades”.

Para o professor de Psiquiatria e Psicologia, usar essa expressão é “centrar o problema no uso da droga, não são usuários, são pessoas pobres, marginalizadas, a quem falta educação, saúde e oportunidades”.

Por Dennis de Oliveira*

O professor de Psiquiatria e Psicologia da Universidade de Columbia, Carl Hart, afirmou que é preciso parar de usar o nome “cracolândia”. Hart visitou São Paulo nesta quarta (13) e quinta (14) para participar do lançamento da plataforma “Movimentos”, que congrega coletivos de periferias das cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador e tem, entre suas bandeiras, a luta contra a política da guerra às drogas.

No dia 13, Hart encontrou-se com lideranças do movimento negro e de movimentos de direitos humanos em um almoço no bairro da Barra Funda. Antes, visitou a “cracolândia” e disse que ficou muito impactado com a situação das pessoas. “Chamar aquele lugar de cracolândia é centrar o problema no uso da droga, não são usuários de droga, são pessoas pobres, marginalizadas, a quem falta educação, saúde e oportunidades”, afirmou.

O intelectual e ativista afro-americano é autor da obra Um Preço Muito Alto – A Jornada de Um Neurocientista Que Desafia Nossa Visão Sobre Drogas (editora Zahar). A obra inspirou o programa “Braços Abertos”, instituído na gestão de Fernando Haddad na “cracolândia”. Em entrevista à BBC, Hart classificou como “ridícula” a ideia de internação obrigatória para os usuários de crack como foi proposta pela atual gestão da prefeitura municipal.

Hart ainda afirmou que se as drogas consideradas ilícitas fossem reguladas pelo governo, haveria uma redução profunda no comércio ilegal – que alimenta o tráfico – além de proteger o usuário de eventualmente consumir produtos sem nenhum tipo de controle. “O que difere de existirem drogas que são legalizadas, como o tabaco e o álcool, e as que não são é quem as usa e quem as produz”, afirma o professor. Uma forma de discriminar as pessoas negras e pobres é justamente classificá-las como usuárias de drogas ilícitas. Ele lembra ainda que nos Estados Unidos, a indústria do tabaco tem um lobby poderosíssimo, e por isso tem sua produção e consumo legalizados e regulamentados pelo governo.

Perguntado se a política de guerra às drogas é um mecanismo que sustenta o genocídio da população negra no Brasil e nos EUA, Hart concorda, porém diz que não é o único instrumento. Ele afirmou que a política de guerra às drogas sustenta o encarceramento em massa e a violência contra afro-descendentes e jovens pobres. Mas ele insiste que a guerra às drogas se sustenta em se deslocar o problema social para a questão do consumo de drogas e não à ausência de políticas sociais. Por isso, ele critica o uso do termo cracolândia – não é um local de usuários de crack, mas de pessoas pobres e negras.

*Dennis de Oliveira é professor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP)

Foto: Divulgação


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