Quilombo

por Dennis de Oliveira

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05 de janeiro de 2017, 16h45

Chacinas e detentos, tragédias anunciadas

O ano de 2017 começou com duas trágicas notícias que evidenciam o recrudescimento do autoritarismo social no Brasil. O primeiro foi a “chacina de Campinas” em que um homem matou a ex-mulher, o filho e mais 10 pessoas presentes em uma confraternização e depois se suicidou. O assassino enviou cartas para amigos seus destilando todo o seu machismo cheio de ódio, culpando a lei Maria da Penha (que ele chama de “vadia da penha”) pela situação em que homens de bem são oprimidos (sic). Sobrou até para a presidenta Dilma Roussef, também chamada de vadia.

Já abordamos em outra ocasião que estes crimes chamados de “passionais” são, na verdade, crimes de intolerância e autoritarismo exacerbado. Não existe crime passional, pois um assassinato cometido por não aceitar a negativa de outro parceiro é autoritarismo. Não é a toa que a esmagadora maioria dos crimes “passionais” são cometidos por homens – o machismo é uma das formas mais comuns do autoritarismo social.

Outro episódio ocorrido neste período de festas foi a chacina no presídio de Manaus. Cinquenta e oito detentos foram mortos, muitos degolados, em uma briga de facções rivais em um complexo penitenciário na capital do estado do Amazonas.

Detalhe 1: já havia indícios de que este conflito entre facções ocorreria e nada foi feito para prevenir a tragédia.

Detalhe 2: o governador do Amazonas declarou, logo após o episódio, que não tinha nenhum “santo” lá dentro.

Pergunto onde é que tem santo? No palácio do governo do Amazonas?

Detalhe 3: o presídio é administrado por uma empresa privada e as investigações apontam que a tragédia foi causada também por erros na gestão do presídio.

Detalhe 4: o presídio de Manaus tem uma população carceraria 2,5 vezes maior que a sua capacidade.

A superlotação dos presídios é uma tônica geral. O Brasil já tem a quarta maior população carcerária do mundo e chegou a estes números por conta do crescimento alucinante do número de presos nos últimos anos.

Quase 2/3 dos presos são jovens e negros. Produto de uma política de encarceramento por qualquer tipo de crime, desde roubar um celular ou estar portando um pacotinho de drogas. Para proteger os “cidadãos de bem”. Estes mesmos cidadãos de bem que não são protegidos – e alguns até apoiam – políticos que roubam a merenda escolar das escolas públicas, como ocorre no governo do Estado de S. Paulo.

A superlotação carcerária mais a política punitiva foi o caldo de cultura para o surgimento e fortalecimento de organizações criminosas dentro dos presídios, como o PCC.

Quem não conhece como funcionam os presídios, o detento depende dos seus familiares para tudo: desde ter roupas decentes, medicamentos, assistência jurídica (muitos ficam presos mesmo com a pena já cumprida por não terem advogados), apoios.

E os que não podem contar com este apoio familiar ou ele é precário por conta da situação social dos seus familiares? Formam um “mercado” para organizações como o PCC. E quanto mais gente for presa, maior será este “mercado”.

E daí surgem outras organizações criminosas que passam a disputar o comando dos presídios. Um presídio administrado por uma empresa que está mais preocupada em ganhar o recurso “per capita” de cada detento lá dentro, a tendência é que estas organizações na prática assumam o comando.

Cadê a galera que defende a privatização dos presídios para se posicionar agora?

O ódio, a intolerância, o sangue nos olhos daqueles que acham que mulher empoderada é vadia, que a segurança melhora com leis mais duras e com mais prisões e os que defendem a privatização de tudo, tiveram dois exemplos neste curto espaço de tempo, nas festas, para ver o que pode acontecer ao país com estas idéias. Vidas serão ceifadas.


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