Quilombo

por Dennis de Oliveira

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11 de fevereiro de 2015, 22h58

Esquerda que não é anti-racista cava sua própria cova

Manifestação racista e xenófoba contra um médico cubano que veio ao Brasil pelo Programa Mais Médicos

Manifestação racista e xenófoba contra um médico cubano que veio ao Brasil pelo Programa Mais Médicos

Uma das características mais fortes desta direita que cresce cada vez mais é o racismo. Isto não é a toa. A sociedade capitalista brasileira foi construída no tripé cidadania restrita/concentração de riqueza/violência como prática política. O racismo é o mecanismo que define que é cidadão e quem não é. quem tem a renda e quem não tem, quem é o autor da violência e quem é a sua vítima.

E porque o racismo vem crescendo nos últimos tempos? A inclusão social, ainda pequena, feita nos últimos anos pelos governos Lula/Dilma atenuou levemente estas fronteiras e mais que isto, despertou o sentimento de muitos jovens negros e negras de exigirem serem cidadãos, de terem renda e de denunciarem a violência. Os espaços restritos de bem estar e de comodidade começaram a ter ocupação de negras e negros (como as universidades públicas, os aeroportos, etc).

Estava eu na semana passada no mercado municipal de Belo Horizonte, tomando uma cerveja com um amigo meu, professor de filosofia, quando um menino negro, que trabalhava no bar como atendente, ouviu nossa conversa sobre Freud e disse que queria estudar psicologia e demonstrou conhecer algumas idéias freudianas. Há assim um crescimento no desejo da classe trabalhadora, da população negra, da juventude da periferia de ter acesso a estes espaços que sempre foram privilégios de alguns.

Por isto, o racismo é o sentimento mais visível da direita. Lembro-me quando no primeiro governo Lula, Gilberto Gil foi nomeado ministro da Cultura. As reações racistas, inclusive em pessoas que conheço e  que votaram no Lula, foram várias, principalmente desqualificando intelectualmente o músico. No fim, um dos melhores ministros do primeiro governo e o primeiro a implantar uma política cultural democrática no país foi Gil. Racismo que se viu também nos assassinatos de reputações da ex-ministra da Seppir, Matilde Ribeiro, e do ex-ministro dos Esportes, Orlando Silva.

Diante destes fatos, é inexplicável e sem sentido a esquerda no Brasil não colocar a agenda de combate ao racismo no centro da sua ação política. E, mais que isto, reproduzir comportamentos de violência racista, como o do governador Rui Costa, da Bahia, que justificou a chacina de 12 jovens negros em Cabula (BA) na semana passada usando metáforas de um jogo de futebol (clique aqui para ler). Ou ainda reduzir de tal forma o orçamento da Seppir que ele equivale a R$0,60 por negra e negro brasileiros (clique aqui para ler). Ou então deixar que apenas o mercado das escolas privadas dite a inserção de negras e negros no ensino superior (clique aqui para ler). Sem contar o não enfrentamento da mídia hegemônica e monopolizada que se sente a vontade para disseminar programas e propagandas preconceituosas e racistas.

Não me surpreende que a direita seja racista. O que é surpreendente é a esquerda ser timidamente anti-racista, pois o pensamento racista fortalece justamente quem quer derrubá-la.


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